Ilusão: uma realidade psíquica

A ilusão é como um caleidoscópio que cria imagens sucessivas a cada movimento. Como ele, seduz com suas formas e seu colorido encantadores. Mas não se perca nessa sedução. Ela é muito sedutora. Mas Cuidado! Não se deixe levar pelo fascínio da ilusão. Aprenda como decifrá-la e use-a a seu favor.

Existem coisas que nascem com a gente e que podem nos acompanhar até o final de nossas vidas ou, dependendo das escolhas que fazemos, serem abandonadas no decorrer do caminho. É o caso da ilusão, aquela que não se vê e não se toca, mas que existe e, em maior ou menor grandeza, todos já a tiveram ou ainda a têm.

“A ilusão é um fenômeno comum a todos porque é uma realidade psíquica, que simplesmente acontece, sem que ninguém a programe”, afirma a psicóloga Junguiana Eliane Luconi.

“Isso ocorre porque, segundo Jung, ela tem origem no inconsciente coletivo formado por arquétipos, ou seja, modelos e ensinamentos comuns a todos e que se propagam pela humanidade influenciando a nossa forma de pensar, sentir e agir”.

Se a ilusão vista como um arquétipo se origina no inconsciente coletivo – algo, portanto, que todos estão sujeitos a ter e que independe da experiência pessoal -, para a psicologia freudiana, ela está relacionada à formação do eu. “Ao longo do primeiro ano de vida, o bebê deixa de se perceber como uma extensão do corpo da mãe e passa a desenvolver a percepção do próprio corpo, da autoimagem”, explica a psicanalista Fane Hisgail.

Após esse reconhecimento, naturalmente ele começa a buscar algo mais, ou seja, o caráter humano em si e no outro. “A maneira como o bebê faz isso carrega uma característica ilusória, porque ele se confunde na imagem do semelhante, não percebendo que o outro é apenas o outro, e não ele próprio”, continua.

É por isso que algumas vezes, muitos se iludem quanto a amar alguém, quando, na verdade, estão apenas procurando no outro o que falta neles próprios – a exemplo de alguém muito tímido que procura por um parceiro desinibido. “Ou uma pessoa diz: “Na minha infância e pré-adolescência, eu era muito feia”.

Quando você interroga sobre o motivo desse pensamento, ela responde: “Porque a minha amiga, ou a minha irmã, ou a minha vizinha eram muito mais bonitas que eu”, exemplifica Fani. Esse descompasso em se confundir com o outro, criado desde o nascimento, e o constante envolvimento do inconsciente coletivo, unidos às regras da sociedade e à educação que recebemos, criam ilusões de todas as ordens:

“Se eu casar, não vou mais me sentir sozinho”, “Com um bom emprego serei respeitado pela minha família e pela comunidade onde vivo”, ou “Ser magra é sinônimo de beleza”.

Onde está o problema

O problema não reside no fato de ter ou não ilusão – mesmo porque, como foi visto anteriormente, ela é uma condição psíquica inerente a todos -, mas sim, no tamanho que ela assume, a ponto de encobrir a realidade, causando sofrimento nos níveis material, afetivo ou psíquico. Ilusão: uma realidade

Pessoas com compulsão alimentar ou de consumo, por exemplo, estão se iludindo ao achar que comer ou adquirir algo vai lhes trazer felicidade. As consequências são sérios problemas de saúde e endividamento, respectivamente.

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Segundo a psicóloga Lidia Aratangy, para saber a real medida da própria ilusão, pense em outras situações vivenciadas quando o que se colheu delas foi uma grande frustração. “O tamanho da frustração é um bom indicador do tamanho da ilusão que se está alimentando, em outras palavras, de se criar grandiosas expectativas”.

O que é bem diferente de ter pensamentos positivos e esperança. “Eles são totalmente diferentes da ilusão. Ela não cria nada: a sua função é colorir de desejo somente de cores positivas ou apenas de cores negativas. Nada na experiência humana tem apenas um lado”, explica.

Por outro lado, quem tem consciência de que, para alcançar determinado objetivo, serão necessários disciplina, paciência e outros requisitos usa a seu favor a esperança e o pensamento positivo, que dão uma força a mais para atingir o seu desejo. “Podemos e devemos acreditar num relacionamento com quem se ama, porém, ao mesmo tempo, é necessário ter consciência de que um real investimento de ambas as partes terá de ser feito todos os dias para que esse casamento dê certo. O que é bem diferente dos contos de fadas”, avisa Lidia.

O professor de ética da Universidade de São Paulo (USP), Renato Ribeiro, diz que é importante também ouvir os avisos dos amigos e da família, pois, quando se está sob a influência da ilusão, o poder da discriminação é praticamente nulo. “Você está apaixonado, tudo na pessoa é perfeito e você quer casar com ela. Mas tem um grande amigo que diz: ‘Veja bem, ela não é tudo isso que você está pensando, coloque os pés no chão’.

Será que não é hora de pensar: ‘Talvez eu esteja floreando demais essa pessoa?’.” Isso pode evitar muita tristeza e arrependimento, caso a união acabe quando se percebe que, na realidade, a pessoa não era nada daquilo que se pensava.

Sob as asas da ilusão, a vida tem bases frágeis, num eterno terceirizar a felicidade, como procurar no outro o que nos falta.

Ver através da ilusão

No entanto, se essa consciência está tão frágil a ponto de ser apoderada completamente pela ilusão (que reside no inconsciente) e, dessa forma, ir contra a razão e a lucidez, é porque algo está faltando a ela. As ilusões são criadas espontaneamente como o resultado de um trabalho intenso da natureza psíquica, que busca a estabilidade emocional, a saúde e o bem-estar do indivíduo. O inconsciente, como sua parte integrante, cooperativa e criativa, participa dessa lida, gerando símbolos vivos, plenos de significados, que se manifestam por sonhos, fantasias e ilusões”, diz a psicanalista junguiana Eliane. Então a questão não é “quando a ilusão é prejudicial?”, mas “por que a ilusão precisa entrar de forma tão intensa na vida dessa pessoa?”

Que sentido ela carrega? Qual a mensagem quer transmitir?”, a psicóloga explica.

Por isso, é importante ver através da ilusão, entender o que ela quer dizer, sem se fundir a ela. “Uma vida conjugal empobrecida pela convivência e pela rotina maçante ganha um colorido especial com as férias, que renovam os laços de paixão ou o romantismo esquecidos. Certamente, essas imagens não garantem a transformação necessária ao bem viver amoroso, porém vale a pena examinar minuciosamente o fenômeno da ilusão, no caso as férias, para descobrir o que ele quer dizer”, aconselha Eliane.

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Para isso ser feito, é claro que, primeiro, é necessário querer desvendar essa ilusão, ou seja, o que está faltando em sua vida, relacionamento, trabalho ou sexualidade que o inconsciente busca compensar com essa determinada ilusão? “O autoconhecimento é muito importante para esse descortinar, para fortalecer a consciência e ter pensamentos mais racionais. Só assim você terá uma vida com base mais sólidas, pois viver sob as asas da ilusão consiste em ter uma vida muito frágil.

Quando isso ocorre, você está sempre terceirizando a sua felicidade, como buscar no outro o que você não consegue ter”, diz Renato.

Quem é você?

Para Meera Nagananda, diretora da organização Brahma Kumaris na Malásia, adquirira auto conhecimento é também descobrir que a principal causa da ilusão é a ignorância. “Ignorância no sentido de não saber quem você é verdadeiramente, de esquecer de si mesmo – isso é Maya (veja artigo logo abaixo). Acreditamos que somos somente um corpo físico e vemos também o outro dessa forma. Esquecemos que é dentro de nós que mora o nosso verdadeiro eu”.

Satyaprem, guru de meditação, explica que “quando ignoramos essa essência, vivemos em conflito com os outros, com a vida. A guerra, a fome, todo o sofrimento humano é resultado disso”.

Pela visão budista, a vida é uma ilusão por uma simples razão. “Tudo que está fora de nós é passageiro, tudo tem um começo e um fim, sejam os prazeres, os sofrimentos, os relacionamentos, sejam as posses, tudo. Mas o que está dentro de nós, não. No entanto, quando olhamos somente para fora, o que criamos? O apego, a aversão, o medo, a inveja, enfim, ilusões”, explica Candida Bastos, instrutora da Fundação Chagdud Gonpa, que pratica os ensinamentos do budismo tibetano.

Talvez tenha sido isso que Mário Quintana percebeu ao escrever o poema Das Illusões: “Meu saco de ilusões bem cheio tive-o. Com ele ia subindo a ladeira da vida. E, no entretanto, após cada ilusão perdida… Que extraordinária sensação de alívio!”

O importante não é saber se a ilusão é positiva ou negativa, mas, sim, qual a mensagem ela quer transmitir

O mundo de Maya

A denominação dada por sábios indianos às grandes ilusões compara a nossa existência com um sonho, as vezes bom, outras vezes ruim.

Por maior que seja nosso intelecto, é impossível entender tudo de tudo. A existência é grande demais para o cérebro humano. Mas isso não é ruim. Se você não tiver ilusões, não pode descobrir a verdade. Toda descoberta começou com uma ideia errada ou uma teoria que tinha de ser aperfeiçoada. Os navegadores da Europa medieval pensavam que a terra era chata até um deles descobrir que, na verdade é redonda. A ilusão é como uma casca de um ovo, que se rompe para se revelar a verdade.

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Na nossa vida cotidiana, a ilusão está presente em tudo e só se encerra com a descoberta da verdade. Olhe para trás e veja quantas ilusões se espatifaram. Pessoas que achava conhecer bem ou necessidades que achava que tinha ou medos que descobrira serem bobagens. Talvez hoje você descubra que muitos dos desejos que tem são assim, filhos de ideias vazias.

Na Índia, nos tempos dos Vedas, milhares de anos antes de Jesus ou Buda nascerem, os sábios diziam que existe uma única coisa permanente: Deus. Esse Ser Infinito, chamados por eles de Parabrahman, é perfeito, onipresente e completo. O resto é fragmentado e ilusório, chamado de Maya, a grande ilusão. O que é Maya? Tudo que a gente pode ver, sentir e pegar é Maya. Você tem um emprego, um carro, um computador e uma bicicleta? Isso é Maya. Nós nos movemos dentro de Maya, morremos em Maya. Então você pode se perguntar: segundo os indianos, nada realmente existe? Existe, sim. Maya não é uma mentira – é uma perspectiva.

Sabe quando você sonha com algo gostoso e acorda realmente feliz? Ou quando tem um pesadelo e acorda com o coração a mil? O sonho não era uma mentira. Era um sonho. Seus efeitos são reais: a adrenalina toma o seu sangue, o suor pinga. Mas você descobriu que, apesar daquele sonho existir, ele é uma ilusão, apenas sua impressão daquele momento.

A vida, para os indianos, é como esse sonho. Assim como descobrirmos ser livres quando acordamos de um sonho ruim, nós também nos descobrimos livres quando acordamos ao final de uma vida. Quando o corpo morto e oco fica para trás, descobrimos que aquilo era uma ilusão. É Maya, o mecanismo mágico que usamos para evoluir, que nos faz achar que tudo é tão real quando estamos ali. Hollywood usou essa ideia no filme Matrix, no qual a vida é apenas uma simulação de computador.

Se tudo é Maya, se tudo é, em algum grau, uma ilusão, de que adianta me esforçar e crescer como pessoa? Lembre-se: Maya é real, apesar de não ser a totalidade da realidade. Pense em Maya como uma sala de aula: você, na escola, treinou escrevendo cartas que nunca enviou, fez contas matemáticas contando laranjas que não existiam e jogou bola em campeonatos que não valiam. O que importa, contudo, é que você aprendeu, e cresceu.

Os indianos dizem que há dois tipos de Maya: as ilusões que nos prendem ainda mais na ignorância (avidyamaya) e as ilusões que nos levam à liberdade (vidyamaya). Evite as ilusões que prendem você à grande ilusão de Maya, como o consumismo exacerbado, o drama emocional, os desejos fúteis e vazios.

O entretenimento barato. Procure as tais vidyamayas, as coisas que levam você rumo à verdade: bons livros, boas atitudes, respeito, dedicação e aceitação da própria vida espiritual. Hoje você é livre das ilusões do passado, como aquelas da época do colégio. E, das ilusões de hoje, você um dia também se libertará.

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