Saiba o que é o Câncer de Boca e o Câncer de Garganta

O câncer pode aparecer em qualquer parte do corpo, mas há certos tipos de tumores que têm predileção pela boca, garganta e pescoço e estão relacionados, geralmente, a agentes causais como o álcool e o tabaco. Por se desenvolverem em áreas mais fáceis de visualizar, esses tumores são passíveis de diagnóstico precoce e, com pequenas intervenções cirúrgicas, é possível resolver definitivamente o problema.

Infelizmente no nosso meio, o diagnóstico das lesões costuma ser tardio, numa fase em que já surgiram, no pescoço, linfonodos (gânglios) comprometidos pela doença, o que obriga submeter o paciente a cirurgias muito mais extensas e, às vezes, bastante mutiladoras. O mais triste é que essa situação poderia ser evitada. Um exame simples, utilizando um abaixador de língua, um espelhinho e uma lanterna, realizado por profissional devidamente treinado, bastaria para diagnosticar precocemente a doença e evitar muito sofrimento.

 

Saiba o que causa o câncer de boca e de garganta

O que provoca as lesões que levam ao câncer de boca?

O câncer de boca está muito associado ao cigarro. Não se pode esquecer, porém, que há outros fatores de risco envolvidos como o alcoolismo (especialmente quando associado ao tabagismo) e a má higiene oral.

De que maneira o cigarro provoca as lesões de boca?

O cigarro é extremamente tóxico. Possui 5.000 substâncias que são danosas à saúde e que agem de maneira diferente. A principal, e a mais clássica, é o benzopireno. Experimentalmente, já foi provado que basta pincelar benzopireno na boca de cobaias para que os animais desenvolvam tumores. Além disso, não se pode esquecer da ação térmica do cigarro. Como a fumaça chega muito quente na boca do fumante, provoca uma irritação crônica que obriga a mucosa a reproduzir-se de modo mais acelerado, o que leva à multiplicação de células e ao câncer.

Onde surgem, preferencialmente, os tumores?

Geralmente, o sítio de eleição é a borda lateral da língua, mas as lesões podem aparecer em qualquer ponto da mucosa. Na boca, elas são mais visíveis e, por isso, o diagnóstico precoce é mais frequente. A própria pessoa nota alguma coisa estranha ou o dentista observa a lesão num exame odontológico de rotina e encaminha o paciente para um especialista a fim de fazer uma biópsia. O problema é maior nas regiões posteriores das vias aéreas, ou seja, nos seios piriformes e na laringe. Às vezes, quando surgem os sintomas, a lesão já está muito grande.

O que é detecção precoce ou screening do câncer de boca?

Detecção precoce ou screening para um tipo de câncer é o processo de procurar um determinado tipo de câncer na sua fase inicial, antes mesmo que ele cause algum tipo de sintoma. Em alguns tipos de câncer, o médico pode avaliar qual grupo de pessoas correm mais risco de desenvolver um tipo específico de câncer por causa de sua história familiar, por causa das doenças que já teve ou por causa dos hábitos que tem, como fumar, consumir bebidas de álcool ou comer dieta rica em gorduras.

A isso se chama fatores de risco e as pessoas que têm esses fatores pertencem a um grupo de risco. Para essas pessoas, o médico pode indicar um determinado teste ou exame para detecção precoce daquele câncer e com que freqüência esse teste ou exame deve ser feito. Para a maioria dos cânceres, quanto mais cedo (quanto mais precoce) se diagnostica o câncer, mais chance essa doença tem de ser combatida.

Elas podem surgir sob a forma de pequenas feridas brancas ou vermelhas ou de úlceras que são confundidas com aftas. É preciso dizer, porém, que parte dessas alterações não chega a virar câncer. Em cada cinco ou seis, uma se transforma num tumor maligno. Por isso, o diagnóstico precoce é tão importante.

Nos Estados Unidos, por exemplo, 90% das lesões são diagnosticadas na fase inicial, quando o tumor tem, no máximo, 2cm em seu eixo maior. No Brasil, a proporção é inversa: 85% dos tumores estão em estágio avançado no momento do diagnóstico. Sem falar no sofrimento dos pacientes, que deixam de beneficiar-se com um tratamento simples, uma pequena cirurgia de rápida recuperação, o diagnóstico tardio reverte num custo muito grande porque o requer, além de cirurgia mais invasiva, aplicações de rádio e quimioterapia.

Qual é o teste que diagnostica precocemente o câncer da boca?

O câncer oral é aquele que acomete a porção da garganta para frente, ou seja toda a parte visível da boca até os lábios. O seu local mais comum é o assoalho da boca, embaixo da língua, a porção lateral da língua e o palato mole. Por isso mesmo é facilmente visível a olho nu tanto pelo próprio paciente quanto por dentista ou médico.

Esse tipo de câncer acontece principalmente em pessoas que fumam cigarro, bebem bebida de álcool ou que mascam tabaco.

O tipo histológico mais comum deste tipo de tumor é o tipo epidermóide como a pele e o colo uterino. E, como eles, por sua fácil visualização e por apresentar lesões precursoras facilmente diagnosticáveis, a inspeção é o melhor exame.

 

Como o médico faz esse exame?

Um médico ou outro profissional da saúde examina detalhadamente a porção interna da boca procurando por lesões esbranquiçadas (leucoplasias) ou avermelhadas (eritroplásticas). Como no colo uterino, células podem ser retiradas por raspagem dessas regiões alteradas e examinadas num microscópio em busca de sinais de malignização.

Lesões pré-malignas já estão bem descritas e o diagnóstico precoce desse tipo de tumor é bem possível de ser realizado.

Porém, como o maior grupo de risco é aquele dos fumantes pesados e alcoolistas, os estudos que tentaram demonstrar que esse exame é efetivo na diminuição dos danos causados por esse tipo de tumor e na diminuição da mortalidade nunca conseguiram chegar a uma conclusão definitiva, porque os paciente pertencentes a esses grupos de risco não mantinham o acompanhamento necessário para se medir o impacto dessas medidas na sua saúde.

Quais os fatores de risco mais comuns associados ao câncer de boca?

Idade: O câncer oral é mais comum em pacientes acima dos 45 anos e aumenta rapidamente até os 65 anos quando então se estabiliza.

História pessoal: Ingestão de álcool e uso de fumo em qualquer forma são os fatores de risco mais importante para o desenvolvimento desse tipo de tumor.

Sexo: Esse tipo de tumor é mais comum em homens do que em mulheres.

A semelhança desse tipo de tumor com outros tumores facilmente visíveis e a presença de lesões pré-malignas faz crer que um exame de inspeção e raspagem de lesões suspeitas é útil como exame descreening para esse tipo de tumor.

Porém, os estudos até hoje realizados enfrentaram problemas operacionais para quantificar o impacto dessas medidas na mortalidade relacionada com essa neoplasia.

Vou responder abaixo algumas perguntas que são muito frequentes:

Dizem que a fumaça do cigarro é aspirada numa temperatura muito alta, embora as pessoas digam não sentir a boca queimar quando fumam. Essa alta temperatura que outros danos pode provocar na boca do fumante?

Na verdade, a fumaça do cigarro é um fator de risco para o desenvolvimento de câncer não só de boca e de garganta, mas de muitos outros órgãos, entre eles, o esôfago e o pulmão. Quando a pessoa dá uma tragada, a alta temperatura da fumaça provoca a mistura de substâncias químicas. Isso gera compostos, que não estavam originalmente no cigarro, mas são responsáveis por danos ao organismo. É o fenômeno chamado pirossíntese.

Aproximadamente, qual é a temperatura da fumaça do cigarro ao entrar na boca?

É de setenta e poucos graus. Isso varia um pouco de acordo com o tipo de cigarro, mas a temperatura é sempre suficientemente alta para provocar danos, em especial, se o processo agressivo for repetido com frequência.

Se colocarmos água a 70º na boca, a dor será intensa. Como o fumante não sente a boca queimar?

Não sente, porque a fumaça não é líquida, mas uma emulsão de partículas dissolvidas nos gases. Além disso, com o tempo, o fumante perde muita coisa, inclusive a sensibilidade da boca e da laringe. Tanto isso é verdade que, às vezes, as pessoas engordam quando param de fumar, porque redescobrem o sabor dos alimentos.

A lesão dói como aconteceria se fosse uma afta?

O comportamento é muito variável. Às vezes dói; outras, não apresenta nenhum sintoma. Normalmente, a dor começa a ocorrer nos estadios mais avançados ou quando aparece uma infecção secundária provocada por alguma das inúmeras bactérias existentes na boca.

Essa lesão tumoral é muito semelhante a uma afta. Como o observador desavisado pode diferenciá-la da afta vulgar, muito comum na população?

Geralmente, as lesões iniciais do câncer têm a borda mais endurecida do que as aftas. Outro fator a considerar é o tempo. A afta costuma ser um processo autolimitado. Depois de uma ou duas semanas, deve cicatrizar. No caso de um câncer inicial de boca, a lesão só tende a crescer e, se não involuir com medidas terapêuticas convencionais, como a aplicação de um colutório, a pessoa deve procurar um médico para fazer biópsia.

Como alertar a população sobre as características das lesões que precisam da avaliação de um médico?

O problema é que as lesões malignas de boca não têm um formato típico. Por isso, devemos ficar atentos a qualquer alteração na mucosa da boca e acompanhar sua evolução. Se não voltar ao normal em poucos dias, uma ou duas semanas no máximo, devemos procurar um profissional para diagnóstico. Pode ser uma infecção, um problema venéreo, uma lesão pré-maligna ou um câncer já instalado.

Mesmo na fase inicial, a lesão maligna exige ressecção um pouco mais extensa, a fim de resguardar a margem de segurança necessária. Normalmente, retira-se a lesão e resseca-se em torno de 1cm de tecido normal. Já a profundidade costuma ser limitada, porque os tumores estão numa região superficial da mucosa.

No entanto, quando há infiltração muscular, o que caracteriza o avanço da doença, dependendo da região da língua em que se localiza o tumor, a intervenção cirúrgica pode provocar comprometimento tanto da deglutição quanto da fonação.

Devem tomar cuidado maior os tabagistas, especialmente aqueles que tomam bebidas alcoólicas e fumam, e pessoas com problemas de voz e que apresentem dificuldade para engolir, especialmente se essas alterações forem ficando mais intensas.

Quando você diz tabagista, certamente, está se referindo aos que fumam cigarros, cachimbos e charutos.

Aparentemente, o charuto é um pouco menos agressivo do que o cigarro, mas o cachimbo é um fator de risco importante para o câncer de boca.

Como evoluem essas lesões, desde a pré-maligna até a francamente maligna que se dissemina pelo organismo?

Às vezes, passam-se vinte anos entre o início das alterações pré-malignas até o câncer tornar-se invasivo. Em termos de saúde pública, é um tempo enorme que permitiria fazer todo tipo de rastreamento populacional e tratar as pessoas que estão em risco. Infelizmente, isso não ocorre no Brasil, embora o diagnóstico seja barato e não exija exames sofisticados como a ressonância magnética, por exemplo, pois bastam um espelhinho e o treinamento do profissional que faz a avaliação.

Muitos desses diagnósticos são feitos pelo dentista, que descobre uma lesão que nem mesmo o paciente tinha percebido. Você acha que, de maneira geral, os dentistas estão preparados para fazer o diagnóstico precoce?

Atualmente estão muito mais preparados do que há quinze, vinte anos. O próprio Ministério da Saúde desenvolve programas visando à saúde bucal. Embora a situação tenha melhorado muito, de vez em quando, aparecem pacientes que fizeram tratamento dentário durante meses sem que o dentista tivesse notado a lesão que crescia.

Como você avalia clinicamente um fumante com 55 anos, que bebe de vez em quando, no que diz respeito à boca e à garganta?

Basicamente, o exame consiste em examinar a boca para verificar se existem lesões suspeitas, palpar o pescoço para sentir se há gânglios comprometidos e fazer uma nasofibroscopia (exame para olhar a parte de trás da garganta e os seios piriformes através de uma fibra ótica fininha que é introduzida pelo nariz). O mais importante, porém, é a pessoa estar atenta aos sintomas e procurar um profissional capaz de interpretá-los.

Às vezes, os tumores provocam dor ao deglutir. Dor de garganta, porém, é um sintoma frequente em pessoas com quadros alérgicos e a garganta irritada também torna difícil engolir. Qual a diferença entre dificuldade de deglutição provocada por doença invasiva e a provocada por doenças banais?

A dificuldade de deglutição não é um sintoma muito valorizado nos diagnósticos de câncer da boca e garganta. Certas condições clínicas, crônicas, provocam dificuldade de deglutir. Por exemplo, paciente com refluxo gastroesofágico tem dificuldade para engolir, porque o conteúdo ácido do estômago extravasa e irrita o esôfago e a laringe. No entanto, se houver alterações da voz (disfonia), que persistem durante duas ou três semanas, é preciso procurar atendimento de um especialista.

 

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