Aborto espontâneo: Tem como evitar? Por que acontece?

Na maioria dos casos, um aborto espontâneo iminente não pode ser evitado, e não tem relação com a saúde ou ao estilo de vida da mãe. Mulheres grávidas devem ingerir vitaminais pré-natais e evitar o uso de drogas, tabaco e álcool. Mas mesmo as mais diligentes em manter uma gravidez saudável não estão imunes ao aborto espontâneo.

Abortos por causas naturais são a complicação mais recorrente durante a gravidez, acometendo de 15% a 20% das gestações clinicamente reconhecidas no mundo. Os índices significam que, todos os anos, de 750 mil a 1 milhão de mulheres sofrem com o problema. Não é algo, portanto, raro.
Apesar disso, o incidente ainda causa muita angústia e costuma ser encarado com constrangimento pelas mulheres, mesmo que o ocorrido seja dividido apenas com familiares e amigos.

Segundo João Steibel, presidente da Assistência ao Abortamento, Parto e Puerpério da Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia (Febrasgo), os equívocos não se restringem à população norte-americana. No Brasil, também são comuns. “Nessa hora, a gente precisa explicar que é comum, que acontece quando o corpo se dá conta de que não dá para levar adiante a gestação”, afirma o brasileiro.

Uma mulher que tem três filhos, conta o médico, provavelmente passará por um aborto natural. “Não sabemos exatamente o que o causa. É a seleção natural. Costuma ocorre com seis a oito semanas (de gestação), e, a cada cinco grávidas, uma aborta”.

O que é Aborto?

O aborto espontâneo é a perda de uma gravidez antes da 20ª semana. A maioria dos abortos espontâneos ocorre porque o feto não está se desenvolvendo normalmente. Contudo, como essas anormalidades são raramente compreendidas, muitas vezes é difícil determinar as causas de um aborto espontâneo.

O aborto espontâneo é a complicação mais comum da gravidez precoce. A frequência diminui com o aumento da idade gestacional. De 8 a 20% das gestações clinicamente reconhecidas com menos de 20 semanas de gestação sofrerão aborto, sendo 80% destes nas primeiras 12 semanas de gestação.

Há ainda a perda do bebê sem que a mãe perceba, que totalizam entre 13 e 26% de todas as gestações – no entanto, esse número pode ser ainda maior, uma vez que muitas mães podem sofrer um aborto espontâneo antes de perceberem que estão grávidas.

O aborto é uma experiência relativamente comum – mas isso não faz com que seja fácil. Pode ser necessário suporte psicológico para superar a perda do bebê.

Entenda o aborto espontâneo

Aborto espontâneo é o termo usado para a gestação que termina acidentalmente antes de completar 20 semanas. E isso é bastante comum. Estima-se que entre 20% a 25% das gestações não cheguem até o fim. Geralmente, o aborto espontâneo acontece até a 12ª semana de gestação, quando os principais órgãos do bebê estão se desenvolvendo.
Muitas vezes é tão precoce que ocorre antes mesmo da mulher descobrir que está grávida, sendo o único sintoma o atraso na menstruação.

A causa mais comum é a má formação do feto, ou seja, quando um defeito cromossômico impede o desenvolvimento do bebê. O aborto é a forma do corpo “decidir” por não levar adiante essa gravidez que não se desenvolve como “esperado”.
A má formação do embrião pode acontecer devido à idade materna avançada, diabetes, disfunções da tireóide e do útero, uso de medicamentos, doenças infecciosas ou excesso de cigarro, álcool ou droga.
Outra causa comum do aborto é a gravidez ectópica, quando o embrião se desenvolve fora do útero.

Muitas vezes a mãe se culpa por ter feito atividade física no início da gestação, por ter levado algum tombo ou por ter tido relações sexuais, porém, em princípio nada disso é considerado causa de aborto espontâneo. O principal sintoma do aborto é o sangramento vaginal, que pode vir acompanhado de fortes dores abdominais e contrações uterinas.
Em alguns casos, ao invés de sangue, a mulher elimina uma secreção, que indica que a bolsa se rompeu.
Se expelir algum material sólido após esses sintomas, é importante colher o material para que o médico possa examinar.
É possível ainda que o aborto aconteça sem sangramento ou dor e a mulher irá descobrir que a gravidez não está se desenvolvendo ao realizar os exames de pré-natal.

Ao observar qualquer sintoma é importante procurar um médico imediatamente (não adianta fazer buscas na internet e tentar consultas virtuais). Ele irá realizar exames para confirmar o aborto e verificar se há necessidade de realizar uma curetagem, caso o feto ou a placenta não tenha sido inteiramente eliminada.
Muitas vezes, os sintomas podem ser apenas uma ameaça de aborto e se o médico agir rapidamente a gravidez poderá continuar.

A dúvida de muitas mulheres é se após sofrer um aborto espontâneo irão conseguir engravidar normalmente. Provavelmente sim. Sofrer um aborto não significa que as futuras gestações não vão se desenvolver até o fim. A única orientação é que esperem de três a seis meses até engravidar novamente para que o corpo possa se restabelecer.
Se o aborto espontâneo se repetir por três vezes consecutivas ele é considerado um aborto habitual e é indicado que se investigue a causa para poder tratar o problema.

Um cuidado que a gestante pode tomar para evitar um aborto espontâneo é fazer exames antes da gravidez. O ginecologista poderá detectar problemas hormonais e infecções virais que podem impedir que a gravidez se desenvolva normalmente. Se a mulher estiver saudável, o medico irá prescrever ácido fólico, que ajuda a evitar a malformação do feto.

Do ponto de vista psicológico, o aborto espontâneo deve ser encarado pela mulher com naturalidade e ela deve confiar que as chances da próxima gravidez ocorrer normalmente são grandes. Antes de fazer novas tentativas, é importante se recuperar emocionalmente da perda do bebê.
Conversar com outras mães que passaram por isso e hoje têm filhos pode ajudar a mulher a ganhar confiança, esquecer o episódio e perder o medo de encarar outra gravidez.

As reais causas

A grande maioria (60%) dos abortamentos resulta da aneuploidia, que é a alteração na quantidade dos pares de cromossomos. Quando a combinação dos 23 cromossomos da mãe e dos 23 do pai não se “encaixa”, então a gestação é naturalmente interrompida. Outras causas comuns são anormalidades estruturais do útero, propensão ao desenvolvimento de trombose (trombofilia), transtornos hormonais e doenças autoimunes.

 

Aborto espontâneo: Tem como evitar? Por que acontece?

Aborto espontâneo: por que acontece?

A pior notícia para quem está esperando a chegada da cegonha é saber que aquele embrião dentro da barriga não vingou e que, por algum motivo, foi expulso naturalmente pelo corpo. Aproximadamente 33% dos casais não conseguem manter uma gestação até o final.
E, para entender por que o aborto espontâneo acontece, quando é possível engravidar novamente e como prevenir para não passar por isso, a ginecologista e obstetra Daniela Maeyama, do Hospital e Maternidade São Luiz, de São Paulo, responde algumas dúvidas.

A maioria dos abortos espontâneos ocorre porque o feto não está se desenvolvendo normalmente. Problemas com genes ou cromossomas do bebê são erros que ocorrem por acaso conforme o embrião se divide e cresce – dificilmente são problemas herdados dos pais.

Exemplos de anormalidades incluem:

  • Não há formação de embriões
  • Óbito embrionário: o embrião está presente, mas parou de se desenvolver
  • Gravidez molar: ocorre quando um conjunto extra de cromossomos paternos ou maternos em um ovo fertilizado.
    Este erro transforma o que poderia se tornar normalmente a placenta em uma massa crescente de cistos.
    Esta é uma causa rara de perda da gravidez.

Condições de saúde materna podem causar o aborto

Em alguns casos, o estado de saúde da mãe pode levar ao aborto. Os exemplos incluem:

  • Diabetes não controlada
  • Infecções
  • Problemas hormonais
  • Problemas no útero ou colo do útero
  • Doenças da tireoide
  • Trombofilias.

O que não causa aborto

Atividades de rotina como estas não provocam um aborto espontâneo:

  • Exercícios
  • Relações sexuais
  • Sustos
  • Trabalho, desde que não haja exposição a produtos químicos ou radiação prejudiciais.

Fatores de risco

Idade: Mulheres com mais de 35 anos de idade têm um maior risco de aborto do que as mulheres mais jovens. Aos 35 anos, você tem um risco cerca de 20% maior. Aos 40 anos, o risco é de cerca de 40% maior, podendo chegar aos 80% aos 45 anos.

A idade paterna também pode desempenhar esse papel. Algumas pesquisas também sugerem que as mulheres que engravidam de homens mais velhos estão em maior risco de aborto espontâneo.

Abortos anteriores: Pessoas que tiveram dois ou mais abortos espontâneos consecutivos estão em maior risco de aborto espontâneo.

Condições crônicas: Pessoas que têm uma condição crônica, como diabetes não controlada e trombofilias, têm um maior risco de aborto espontâneo.

Problemas uterinos ou cervicais: Certas anomalias uterinas ou dos tecidos do colo do útero podem aumentar o risco de aborto.

Vícios: Vícios como fumar, ingerir álcool ou usar drogas ilícitas aumentam o risco de aborto. Pessoas que fumam durante a gravidez têm um risco maior de aborto espontâneo do que os não-fumantes. Uso abusivo de álcool e uso de drogas ilícitas também aumentam o risco de aborto.

Peso: Estar abaixo do peso ou com excesso de peso aumenta o risco de aborto espontâneo.

Testes pré-natais invasivos: Alguns testes genéticos pré-natais invasivos, como a biópsia de vilo corial e amniocentese, podem causar um pequeno risco de aborto.

 

Sintomas de Aborto

A maioria dos abortos espontâneos ocorre antes da 12ª semana de gravidez, e a mulher pode não saber que sofreu um, quando este ocorrer nas primeiras seis semanas.
No entanto, sinais e sintomas de um aborto espontâneo podem incluir:

  • Sangramento vaginal, com ou sem cólicas, que pode ocorrer muito cedo em sua gravidez, antes de você saber que está grávida, ou mais tarde, depois de ter conhecimento da gravidez
  • Leve a intensa dor lombar, dor abdominal ou cólicas, que podem ser constantes ou intermitentes
  • Um coágulo de sangue ou um jato de líquido claro ou rosa que passa pela vagina
  • Diminuição de sinais de gravidez, como a perda da sensibilidade da mama ou náuseas.

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Tenha em mente que a maioria das mulheres que experimentam sangramento vaginal no primeiro trimestre tem gravidezes bem sucedidas.

Tipicamente, os sintomas de um aborto espontâneo tendem a piorar conforme ele progride. Pequenos sangramentos se transformam em um sangramento mais pesado; cólicas começam e se tornam mais fortes.

Diagnóstico e exames

Ligue para seu médico se:

  • Você está grávida e tiver sangramento vaginal, com ou sem cólicas
  • Você está grávida e teve o tecido fetal ou coágulo passando pela vagina.

Exames

O seu médico pode fazer uma variedade de testes:

  • Exame pélvico, para verificar se o colo do útero começou a dilatar
  • Ultrassonografia pélvica, para verificar o batimento cardíaco fetal e determinar se o embrião está se desenvolvendo normalmente
  • Exames de sangue: se você já sofreu o aborto espontâneo, medições do hormônio da gravidez, beta HCG, podem ser úteis para determinar se você expeliu completamente o tecido placentário
  • Testes de tecidos: se você expeliu tecido, ele pode ser enviado para o laboratório a fim de confirmar se um aborto espontâneo ocorreu – e que seus sintomas não estão relacionados a uma outra causa de sangramento na gravidez.

Diagnóstico de Aborto

Possíveis diagnósticos incluem:

  • Ameaça de aborto: se você está sangrando, mas o colo do útero não começou a dilatar, há uma ameaça de aborto.
    Esses tipos de gravidez podem frequentemente prosseguir sem quaisquer problemas
  • Aborto inevitável: se você está sangrando, o útero está se contraindo e seu colo do útero está dilatado, o aborto é inevitável
  • Aborto incompleto: se você expelir algum material fetal ou placenta, mas alguns restos em seu útero, é considerado um aborto incompleto
  • Aborto retido: os tecidos placentários e embrionárias permanecem no útero, mas o embrião já morreu ou nunca se formou
  • Aborto completo: se você já expeliu todos os tecidos da gravidez, é considerado um aborto completo.
    Isso é comum para abortos ocorridos antes das 12 semanas
  • Aborto séptico.
    Se você desenvolver uma infecção no útero, ele é conhecido como um aborto séptico.
    Esta pode ser uma infecção muito grave, que exige atendimento imediato.

Tratamento de Aborto

Se você está sofrendo uma ameaça de aborto, o médico pode recomendar repouso até que o sangramento ou dor desapareça. Você pode ser solicitada para evitar o exercício e o sexo também. Embora essas medidas não sejam comprovadas para reduzir o risco de aborto, elas podem melhorar o seu conforto.
Também é uma boa ideia para evitar viajar – especialmente em áreas onde seria difícil receber atendimento médico imediato.

Um exame de ultrassonografia determinará se o embrião morreu ou nunca se formou. Um resultado positivo significa que o aborto vai certamente ocorrer. Nessa situação, você pode ter várias opções:

Conduta expectante

Se você não tem sinais de infecção, pode optar por deixar que o progresso do aborto natural seja natural. Geralmente isso acontece geralmente em duas semanas após determinar que o embrião tenha morrido, mas pode levar de três a quatro semanas em alguns casos. Esse pode ser um momento emocionalmente difícil.
Se expulsão a não acontece por si só, será necessário tratamento médico ou cirúrgico.

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Tratamento médico

Se após um diagnóstico certo da perda de gravidez você preferir acelerar o processo, pode ser receitada uma medicação que ajuda seu corpo a expulsar o tecido da placenta.
Embora você possa tomar a medicação por via oral, o médico pode recomendar a inserção da medicação por via vaginal para aumentar a sua eficácia e minimizar os efeitos colaterais, como náuseas e diarreia.
Para a maioria das mulheres esse tratamento funciona em 24 horas.

Tratamento cirúrgico

Uma opção é um pequeno procedimento cirúrgico chamado dilatação e curetagem. Durante este procedimento, o médico dilata o colo do útero e remove o tecido de dentro do seu útero. As complicações são raras, mas podem incluir os danos para o tecido conjuntivo do colo do útero ou da parede uterina.
O tratamento cirúrgico é necessário se você tiver um aborto acompanhado por sangramento ou sinais de uma infecção.

Há também a aspiração manual intrauterina (AMIU), onde é introduzida uma cânula pelo colo uterino que chega até a cavidade uterina e o material é aspirado por meio de sucção. Não é necessário dilatar o colo do útero.

Recuperação física

A recuperação física do aborto na maioria dos casos será de apenas algumas horas ou dias. Ligue para o seu médico se você experimentar sangramento intenso, febre ou dor abdominal. A menstruação irá retornar dentro de quatro a seis semanas.

Você pode começar a usar qualquer tipo de contracepção imediatamente após um aborto espontâneo. No entanto, o ideal é evitar ter relações sexuais ou colocar qualquer coisa em sua vagina – como um absorvente interno – nas primeiras duas semanas depois de um aborto espontâneo.

Futuras gestações

É possível engravidar após um aborto espontâneo. Mas se você e seu parceiro decidem tentar uma nova gravidez, verifique se você está fisicamente e emocionalmente pronta. Converse com o médico para obter orientação sobre quando poderá tentar engravidar.

Tenha em mente que o aborto é geralmente uma ocorrência única. A maioria das mulheres que abortam passar a ter uma gravidez saudável após o aborto. Menos de 5% das mulheres têm dois abortos consecutivos, e apenas 1% têm três ou mais abortos espontâneos consecutivos.

Se você tiver vários abortos espontâneos – mais do que três em linha – considere o teste para identificar quaisquer causas subjacentes, como anomalias uterinas, problemas de coagulação ou anormalidades cromossômicas. Em alguns casos, o médico pode sugerir o teste depois de duas ocorrências consecutivas.
Se a causa de não for identificada, não perca a esperança.
Cerca de 60% a 70% das mulheres com abortos de repetição inexplicáveis passam a ter uma gravidez saudável.

Apoio psicológico

A cura emocional pode levar muito mais tempo do que a cura física. O aborto espontâneo pode ser uma perda de cortar o coração que os outros ao redor que você podem não entender completamente. Suas emoções podem variar de raiva e culpa ao desespero. Dê-se tempo para lamentar a perda de sua gravidez e procure a ajuda de seus entes queridos.

É provável que você nunca se esqueça de seus sonhos e esperanças que cercam esta gravidez, mas com o tempo a aceitação pode aliviar sua dor. Fale com o seu médico se você está se sentindo profunda tristeza ou depressão. Caso seja necessário, procure ajuda psicológica ou psiquiátrica.

Para a família e pessoas próximas, o ideal é deixar a mãe seguir com seu luto e respeitar esse momento. Ainda que demore mais do que você considere normal e a pessoa comece a ter comportamentos fora do mundo, o melhor a fazer é respeitar.

Complicações possíveis

Alguns casos de aborto espontâneo podem causar ou ser causados por uma infecção uterina, podendo ser chamado também de aborto séptico. Sintomas de uma infecção incluem:

  • Febre
  • Calafrios
  • Perda da sensibilidade na região abdominal
  • Corrimento vaginal com mau cheiro.

Prevenção

A maioria dos abortos são causados por anormalidades genéticas no feto. Infelizmente, não há nada que pode ser feito para evitar erros causados por anormalidades genéticas.

Se você já sofreu um aborto espontâneo, converse com seu médico sobre as possíveis causas e quando planejar uma futura gravidez. Um estilo de vida saudável antes e durante a gestação pode ajudar a diminuir o risco de aborto espontâneo.
Aqui estão algumas dicas que podem ajudar a prevenir o aborto:

  • Tenha certeza de que está consumindo pelo menos 400 mg de ácido fólico todos os dias, a partir de pelo menos um a dois meses antes da concepção, se possível
  • Pratique exercício físico regular
  • Coma refeições saudáveis, bem equilibradas
  • Controle o estresse
  • Mantenha o seu peso dentro dos limites normais
  • Não fume e fique longe do fumo passivo
  • Não beba álcool
  • Não beba mais de uma a três xícaras de café por dia
  • Evite drogas ilícitas.

Outros hábitos podem ajudar a prevenir o aborto, como:

  • Evite radiação e venenos como arsênio, chumbo, benzeno, formaldeído e óxido de etileno
  • Tome especial cuidado para manter seu abdômen seguro durante a gravidez.
    Evite esportes que oferecem um maior risco de lesão, tais como esportes de contato e esqui
  • Controle sua pressão arterial
  • Verifique com seu médico antes de tomar qualquer medicação.

Você também pode garantir um bebê saudável consultando um médico e tratando qualquer problema de saúde que você eventualmente tenha antes de engravidar. Se, por exemplo, você sabe que um aborto espontâneo anterior deveu-se a uma resposta autoimune ou um desequilíbrio hormonal, procurar tratamento para essa condição subjacente.
Depois de engravidar, mantenha um pré-natal abrangente para melhorar suas chances de uma gravidez saudável.

Quais são as causas mais comuns dos abortos espontâneos?

O aborto pode acontecer por diferentes razões, mas as mais comuns são alterações cromossômicas e alterações genéticas que geram embriões malformados. Esses problemas são mais comuns em mulheres mais velhas, mas podem acontecer em qualquer idade. Além dessas, existem outras causas, como alterações hormonais e doenças autoimunes.

Por que tanto se fala que o primeiro trimestre de gestação é o período mais crítico?

Porque é nos primeiros três meses de gravidez que acontece a maior parte dos abortamentos. O aborto pode ser precoce ou tardio. O precoce acontece até 12 semanas e é mais comum. Funciona como uma seleção natural, pois o corpo trata de rejeitar o embrião que não está bem formado.
O aborto tardio pode acontecer entre 12 e 20 semanas de gestação, por algum acidente ou alteração hormonal.

Depois de passar por um aborto, quanto tempo a mulher precisa esperar para tentar engravidar novamente?

Depende. Se ela conseguiu eliminar sozinha, sem passar pela curetagem, é só esperar a menstruação vir normalmente e, no próximo ciclo, já pode tentar engravidar novamente. Agora, se a mulher foi submetida à curetagem ou outro procedimento cirúrgico, indicamos que espere, no mínimo, três meses até o corpo voltar ao normal.

Durante a gestação, todo o sangramento é preocupante?

Até a quinta semana de gestação, pode ocorrer um sangramento devido à implantação embrionária. Ele dura um ou dois dias e é considerado normal. Mas, em caso de qualquer sangramento, avise o seu médico, pois só ele poderá avaliar se existe motivo para preocupação.

Como prevenir para que isso não aconteça?

Não existe prevenção para alterações cromossômicas. No entanto, o que toda a mulher pode e deve fazer são exames de preconcepção para saber se tem alguma alteração genética ou doença autoimune. Além disso, deve tomar ácido fólico três meses antes de engravidar.

Mario Burlacchini é médico, especialista em Medicina Fetal, e assistente do Departamento de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital das Clinicas da Universidade de São Paulo.

Depois de um atraso menstrual, algumas mulheres perdem sangue e acham que finalmente menstruaram. Estavam enganadas. Na verdade, tinham engravidado e estavam eliminando o embrião recém-formado. Depois, engravidam novamente, levam a gestação a termo, muitas vezes sem saber que tiveram um abortamento silencioso, que não deixou sequelas.
De certo modo, parece haver uma espécie de seleção natural associada ao abortamento espontâneo, especialmente se ocorreu até a oitava semana da gravidez.
Em torno de 60% dos casos, os embriões apresentavam alguma malformação ou alteração genética e foram eliminados naturalmente.

Há mulheres, no entanto, que apresentam abortamentos sucessivos, o que pode abalá-las emocionalmente e interferir no relacionamento do casal. Muitas são as causas que explicam essa interrupção espontânea da gravidez. Embora em alguns casos seja impossível determiná-las, para a grande maioria existe tratamento.

Qual o conceito médico que define um episódio de abortamento?

Considera-se abortamento a interrupção da gravidez até a 20ª, 22ª semana, ou seja, até o quinto mês de gestação. Além disso, é preciso que o feto esteja pesando menos de 500 gramas para definir o episódio como aborto espontâneo ou provocado.

Vamos imaginar que a gravidez seja interrompida na 15ª semana e o feto ultrapasse os 500 gramas. Embora isso seja quase impossível de acontecer, o episódio ainda seria definido como abortamento?

É muito difícil um feto normal pesar mais de 500 gramas nessa fase da gravidez, a não ser que apresente um aumento de peso patológico, como ocorre nos casos de hidropsia, por exemplo. De qualquer modo, só é considerado abortamento se o feto não ultrapassar os 500 gramas.

A partir de 20, 22 semanas e 500 gramas de peso, como se classifica a interrupção da gravidez?

Entre a 22ª e a 36ª semana de gravidez, concentra-se a faixa de prematuridade. Nesse caso, a interrupção da gravidez é considerada parto prematuro que pode ser espontâneo ou eletivo e iatrogênico, quando o médico precisa interromper a gestação por algum motivo especial.

Patologia frequente no aborto Espontâneos

Os abortamentos espontâneos são muito mais frequentes do que se imagina, porque existem aqueles que são silenciosos e contrariam o conceito geral de que ocorrem depois de dois ou três meses de gravidez, quando a mulher tem um sangramento importante. Qual a porcentagem disso acontecer?

O aborto é uma patologia muito frequente no ser humano. Desde o momento em que a mulher percebe que está grávida, ou seja, em que tem um atraso menstrual e o teste de gravidez dá positivo, a taxa de abortamento fica em torno de 15%.
No entanto, se considerarmos período anterior ao teste positivo, porque demora algumas semanas para isso acontecer, esses números podem chegar a 30% ou 40%.

Quer dizer que, se considerarmos o total de gestações a partir do momento em que ocorre e fecundação, de 30% a 40% terminam em abortamento espontâneo. Por quê?

As causas são muito variáveis. Para boa porcentagem dos abortos, em torno de 30% ou 40%, não se consegue definir nenhuma etiologia, nenhuma causa específica. Para os 60% restantes, é possível identificar a causa, em geral considerando o momento em que ocorreu o abortamento, se foi precoce ou mais tardio.

Poderíamos dizer que existiria, durante a gestação, uma espécie de seleção natural e que esse número expressivo de mulheres que perde espontaneamente os filhos seria sinal de gestações inadequadas e de fetos malformados?

Com certeza, a seleção natural existe e esse é um argumento que utilizamos para consolar o casal diante da decepção da gravidez interrompida. Quanto mais precoce o aborto, maior a possibilidade de o feto não estar bem formado.
Estudos mostram que em 60% das gestações que não ultrapassam a oitava semana, há alguma alteração genética, principalmente cromossômica, como a que está presente na síndrome de Down, por exemplo.

Os abortamentos são mais comuns em que fase da vida reprodutiva?

São mais comuns principalmente acima dos 35 anos da mulher. É também nessa faixa etária que aumenta a possibilidade de malformações e anomalias fetais que levam ao abortamento espontâneo.

Há alguma relação com a idade paterna?

Não há nenhum estudo que comprove haver relação entre abortamento espontâneo e a idade paterna. Atualmente, alguns estudos levantam a suspeita de que a idade paterna possa estar relacionada com malformação fetal, principalmente com displasia esquelética, ou seja, malformação de ossos e do tamanho do tórax.

Abortamentos habituais

O que diferencia o abortamento esporádico do habitual?

O abortamento pode ser esporádico. A mulher engravida e sofre um abortamento, mas depois tem duas ou três gestações normais. Para ser classificada como abortadora habitual, ela precisa ter três ou mais abortos sucessivos, os chamados de abortos de repetição. No passado, só se pensava em estudar o caso dessas pacientes só depois do terceiro episódio.
Hoje, com o desenvolvimento da medicina, acha-se muito cruel esperar que ocorram três abortos para começar a investigação.
Por isso se preconiza que, havendo disponibilidade de exames, a pesquisa comece depois do segundo aborto sucessivo.
Em se tratando de saúde pública, porém, isso não é fácil de realizar e a investigação das causas de abortamento começa, em geral, depois de três ou mais abortamentos.

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Bem no início da gravidez, podem ocorrer abortamentos silenciosos difíceis de serem identificados. A menstruação ocorre depois de uns dias, às vezes, uma ou duas semanas depois da data prevista e o fato é interpretado como atraso menstrual e não como abortamento espontâneo.

Em geral, esses abortamentos não são diagnosticados. São abortos subclínicos, muito precoces, e não há como comprovar que realmente ocorreram. Atualmente se acredita que sejam ligados à linha imunológica, à rejeição do hospedeiro contra o antígeno.
Ou seja, imunologicamente a mulher rejeita a gravidez porque o embrião é um corpo novo que se instala no organismo materno, que o reconhece como estranho e provoca sua eliminação.

Em medicina, existe uma analogia entre gravidez e tumor maligno, porque o feto não é igual à mãe. Na verdade, se retirarmos um fragmento de pele de um bebê recém-nascido e o enxertarmos na mãe, ela rejeitará a pele do filho.
Como, então, o feto consegue crescer no interior de um organismo diferente sob o ponto de vista imunológico sem ocorrer rejeição?

No momento da implantação do embrião, certos linfócitos e macrófagos do sistema imunológico são ativados.
De um lado, são ativadas células que potencializam a resposta imunológica (linfócitos T helper ou auxiliadores) e de outro, o próprio embrião produz fatores supressores que vão estimular a produção de células imunologicamente competentes, capazes de bloquear a resposta da mãe contra o embrião.
Do balanço entre esses mecanismos de ações opostas, resulta o sucesso ou o fracasso da gestação.

Qual é o procedimento para investigar a causa de três abortamentos consecutivos numa mulher?

A primeira medida é inteirar-se da época em que ocorreu o abortamento, que é considerado precoce até a 12ª semana de gravidez, e tardio entre a 12ª e a 20ª semana. Se foi precoce, as principais causas são as genéticas, as infecciosas ou as imunológicas.
Já os mais tardios estão relacionados com a dificuldade de expansão, de crescimento do útero, como as malformações uterinas e a incompetência cervical, isto é, a incapacidade de manter o colo do útero fechado para levar a gravidez a termo.

Nos abortamentos precoces, o casal passa por uma avaliação genética para verificar se há casos de malformação e de problemas genéticos na família e pode ser pedido o cariótipo do casal.

Você poderia explicar o que é cariótipo?

Cariótipo é o mapa dos cromossomos. Homens e mulheres têm 23 pares de cromossomos cada um. Quando há abortamentos habituais, é comum encontrar no casal o que chamamos de translocação balanceada, ou seja, existe a mudança de posição de algum cromossomo, que é transferido de forma não balanceada para o filho.
Isso acontece em 3%, 4% dos casais abortadores habituais que só ficam sabendo do fato quando ocorrem os abortamentos.

Na gravidez que ultrapassa 10 ou 12 semanas, as causas de aborto mecânicas e anatômicas passam a ser as mais importantes?

É claro que não existe uma parede separando as doze primeiras semanas das subsequentes, mas usamos essa data como referência.
Em geral, os abortos mais tardios estão relacionados com malformações uterinas, como o útero didelfo (dois úteros formados por dois cornos uterinos e dois colos), o útero bicorno (dois corpos uterinos em um só colo), o útero septado (com um fenda na cavidade uterina) e incompetência cervical.

Essa diversidade de formas uterinas são variações anatômicas encontradas com frequência?

Principalmente o útero bicorno é muito frequente. Explicando melhor: útero bicorno é uma má formação uterina, existe uma membrana dividindo o útero em dois lados.
O útero bicorno pode ter tamanhos diferentes nos seus lados, ou seja, pode ter um lado grande e um pequeno, os dois grandes, os dois pequenos!  Em muitos casos esse útero acaba ficando em um formato parecido com o do coração, e assim pode dificultar e até mesmo impedir que a gravidez aconteça.

Alterações imunológicas

Quais são as possibilidades de resolver o problema de um casal com alterações cromossômicas, uma vez que não se pode mudar a genética?

A alteração cromossômica é a mais complicada de todas. Se o casal tem translocação balanceada, o risco de transmiti-la de forma não balanceada para o feto é de 25%. É um índice elevado, uma vez que em cada quatro gestações uma apresentará a alteração.
Como não há tratamento que consiga modificar a genética, a única saída é partir para a fertilização assistida com a doação de oócitos ou de espermatozoides, dependendo do lado que venha o problema.

Qual a conduta quando o aborto ocorre por alteração imunológica, ou seja, a mãe elimina o feto porque o reconhece como um corpo estranho?

Esse tipo de aborto se chama aloimune, e o problema deve ser identificado e tratado antes de a mulher engravidar. A genotipagem, ou seja, a pesquisa genética, mostra se há compatibilidade entre marido e mulher. Quanto maior for a compatibilidade genética, maior o risco de aborto. O ideal é que os dois sejam bastante incompatíveis.

Causas infecciosas do aborto

Quais são as causas infecciosas de abortamento?

Embora algumas infecções sejam consideradas como causa de abortamento habitual, é muito difícil uma paciente ter três abortos provocados pela mesma infecção. Veja o que acontece com a toxoplasmose, por exemplo, uma infecção que pode ser transmitida da mãe para o feto e que, na fase aguda, quando acontece muito precocemente, leva ao abortamento.
No entanto, se a mulher já contraiu essa doença numa gravidez, provavelmente ela não se repetirá na gestação seguinte.

Algumas infecções vaginais, como a clamídia e a vaginose bacteriana, também podem ser causa de abortamento, mas tratadas de forma adequada deixam de representar problema.

Que cuidados a mulher grávida deve ter para não pegar toxoplasmose?

De preferência antes de engravidar, a mulher deve consultar o obstetra ou ginecologista para uma avaliação pré-concepcional e colher algumas sorologias para infecções como toxoplasmose, rubéola e citomegalovírus. Exceção feita ao citomégalo, se houve contato prévio com os agentes dessas patologias, ela está protegida.
Se não houve, contra a rubéola existe vacina.

Contra a toxoplasmose não existe, mas há como prevenir o contágio. Os primeiros cuidados se referem à alimentação. Carnes mal cozidas, verduras cruas e mal lavadas, sanduíches preparados sem a devida higiene não devem fazer parte do cardápio.
Ovos crus e casca de ovo, que muitas pessoas comem porque acreditam que tem cálcio e faz bem para os ossos, podem representar também uma fonte de transmissão da doença.
É aconselhável, ainda, que a pessoa use luvas quando manipula carnes que podem estar contaminadas.

O mais importante, porém, é evitar o contato com gatos, porque eles são os grandes transmissores da toxoplasmose. Em São Paulo, alguns anos atrás, ocorreram casos da doença adquirida na areia dos parques infantis, onde gatos eliminam dejetos durante a noite liberando o agente transmissor da toxoplasmose.
No dia seguinte, não só as crianças, mas todas as pessoas que mexiam nos tanques de areia contaminada adquiriram a infecção.

Quando você diz que se deve evitar o contato com gatos, está se referindo também ao gatinho de estimação?

Também ao gatinho de estimação. Se a pessoa vai manipular material que contenha fezes ou urina de seu gato, deve pelo menos usar luvas, porque as mãos podem ter pequenas escoriações que servem de porta de entrada para a contaminação.

E os pombos, também representam perigo na transmissão da toxoplasmose?

Acredita-se que o pombo também seja transmissor dessa doença, mas não é tão importante quanto o gato. Na verdade, se não existissem gatos, provavelmente não teríamos toxoplasmose. Talvez o pombo adquira o toxoplasma porque cisca nos lugares em que o gato liberou o agente infectante.

Anomalias anatômicas

Em relação às variações anatômicas, qual a conduta mais indicada para evitar o abortamento?

Inicialmente nós sempre tentamos evitar a cirurgia. Se de um lado ela visa à correção de uma anomalia para o útero expandir-se, por outro pode criar um fator de dificuldade para manter a gravidez e até mesmo para a mulher engravidar. São as aderências que aparecem no local do corte onde se forma a cicatriz.

Por isso, é preferível que ela engravide e comece o pré-natal precocemente, pois existem substâncias que facilitam o relaxamento uterino para que ele cresça sem problemas. A progesterona, por exemplo, é um biorrelaxante fácil de administrar que favorece a distensão da fibra muscular uterina e prolonga a gravidez.

Nos casos em que o colo do útero dá sinais de incompetência cervical, ou seja, de que não é capaz de se manter fechado até o final da gravidez, a indicação é uma cirurgia simples chamada circlagem realizada no terceiro mês (12ª, 13ª, 14ª semana).
Por via vaginal, são dados pontos no colo do útero para fixá-lo até o final da gestação, quando os pontos são tirados e a mulher entra em trabalho de parto espontâneo.

Perfil psicológico de mulheres que sofrem aborto

Dizem que mulheres mais estressadas e com problemas de ansiedade estariam mais propensas a abortamentos espontâneos. O que existe de científico nisso?

Pacientes abortadoras de repetição ou habituais têm um perfil de estresse acentuado. Na verdade, trata-se de um circulo vicioso: a mulher fica ansiosa porque teme não conseguir levar a gravidez a termo e isso acarreta dificuldades de manter a gravidez e até mesmo de engravidar.

A gente sabe que a mente comanda o corpo dentro de certos limites. Se a paciente começa o pré-natal muito ansiosa, com muito medo e muito negativismo, vai desencadear fenômenos biopsíquicos que podem levá-la a novo abortamento. Por isso, o atendimento da paciente abortadora habitual precisa ser multidisciplinar.
Ginecologista, obstetra, geneticista, assim como o laboratório e os profissionais que nele trabalham são fundamentais no acompanhamento dessas pacientes.

O apoio psicológico também é muito importante e deve incluir o casal e não só a mulher. É preciso que ela se tranquilize, tenha confiança no tratamento proposto e esteja disposta a segui-lo direitinho. Não adianta o médico prescrever a medicação, se ela não acredita que seguir o tratamento vai ajudá-la.

Falamos do impacto do psiquismo na gravidez. Qual impacto causado pela repetição dos abortos na psicologia da mulher e na vida do casal que quer ter filhos?

Não existem estatísticas a respeito do número de mulheres abortadoras habituais que desistem de engravidar, mas são muitas. O abortamento repetido pode levar a problemas familiares e até mesmo à separação do casal.
A impossibilidade de ter filhos leva a uma frustração muito grande, uma vez que está arraigada nas pessoas a tradição de casar, ter filhos, criá-los.
Às vezes, a mulher nos procura sozinha e percebe-se que ela está sofrendo pressões por não conseguir engravidar, embora nem sempre seja a causadora do problema.
Nas clínicas de esterilidade, não é raro o homem recusar-se a ser avaliado, temendo ser a causa da dificuldade.

O homem sempre acha que a causa está na mulher?

Na grande maioria das vezes, acha. A situação ainda é pior para as pacientes que engravidam e não mantêm a gravidez, porque fica patente que ele é capaz de engravidá-la, é ela que não consegue manter a gravidez. Muitos casais chegam ansiosos.
Felizmente, no local onde exerço mais o acompanhamento de gestantes com abortamento, temos um serviço de psicologia competente, acostumado a lidar com o casal com esse problema ou com qualquer outro que surja na gravidez.

Acompanhamento médico

Última pergunta: A mulher com abortamentos frequentes que tipo de médico deve procurar?

Mário Burlacchini – Inicialmente deve procurar o seu ginecologista que, com certeza, vai recorrer a outros profissionais.
O geneticista fará uma avaliação do casal e, se for localizado algum problema nessa área, providenciará um encaminhamento para os setores apropriados ou até mesmo para o setor de esterilidade, de reprodução humana para fazer uma fertilização in-vitro, se for essa a opção.

Sob o ponto de vista imunológico, o ginecologista e o obstetra precisarão também de orientações hematológicas, porque os aspectos imunes mexem com a via sanguínea provocando infartos e tromboses que repercutem durante a gravidez. No caso de malformações, acredito que um ginecologista com experiência seja capaz de lidar com o problema.
Hoje, existem médicos que se especializam numa linha específica de abortamento e que podem dar suporte ao ginecologista.

Fique atenta no início da gravidez

O aborto espontâneo é uma experiência absolutamente normal na vida reprodutiva da mulher. Cerca de 15% das primeiras gestações não se desenvolvem até o final. Embora o número seja alto, o episódio não deixa de ser doloroso para a mulher quando ocorre. Mas a explicação certamente vai tranquilizar o casal.
Abortar espontaneamente significa uma boa leitura do organismo que, ao se deparar com embriões mal formados geneticamente, interrompe o processo de manutenção da gravidez, esclarece o ginecologista Alberto dAuria, diretor clínico do Hospital e Maternidade São Luiz, de São Paulo.
Segundo ele, o abortamento deve ser visto com bons olhos e não com tristeza.

O especialista também ressalta que muitas mulheres nem ficam sabendo que estavam grávidas. Às vezes, a menstruação atrasa por três dias e a questão fica por isso mesmo. Já outras têm sangramento e cólicas. Esses sintomas, no entanto, não devem ser motivo de desespero.
Algumas mulheres perdem sangue e sentem dor no primeiro trimestre, sem que isso comprometa a evolução da gestação.
Quando o episódio se repete mais de duas vezes, é preciso pesquisar se existem outros fatores causando o problema.
Diabete, disfunções da tireóide e do útero e infecções eventualmente causam a perda do feto.
Doenças auto-imunes, em que o corpo da mulher vê a gestação como uma proteína estranha, ou a falta de progesterona também podem provocar abortos.
Como essas situações não são previsíveis, é preciso observar o quadro para depois investigar as causas, alerta dAuria.

Veja também:   Gravidez ectópica: uma das principais causas de morte materna

Solidão

A técnica em radiologia Neuma Lopes, 50 anos, é uma das milhares de mulheres que já viveram a experiência. Passadas mais de duas décadas, ela consegue falar sobre o assunto com tranquilidade. “Comecei a sentir dores e achei que menstruaria. Fui ao médico e nós tentamos de tudo, como repouso, colocar as pernas para cima, mas não deu certo”, lembra.
“Fiquei muito triste e me afastei do trabalho durante duas semanas.

Deu a sensação de que era um castigo e que eu não ia mais engravidar”, conta Neuma.
Apesar disso, ela não desistiu e se tornou mãe de três filhas saudáveis, hoje com 24, 20 e 15 anos.

Os resultados do estudo americano, feito em parceria com o Montefiore Medical Center, mostram que os sentimentos de culpa e vergonha são muito comuns após um aborto. Entre homens e mulheres que declaram ter vivenciado a situação, 47% sentiram-se culpados, 41% acharam ter feito algo errado, o mesmo índice relatou a sensação de solidão e 28% admitiram sentir vergonha.
Apenas 45% contaram ter recebido apoio emocional adequado da comunidade médica.

Neuma conta que, felizmente, foi tranquilizada pelo médico que a atendia. “Se acontecer com você, tente novamente, procure ajuda. Depois disso, tive três filhas lindas”, aconselha a técnica em radiologia. João Steibel faz coro: “Não tem a ver com a condição física da mulher, mas sim com os próprios mecanismos da gravidez. É uma coisa natural, que faz parte do jogo.
O casal fica triste, mas é assim mesmo”.

Por isso, Zev Williams reforça que os pais, especialmente os de primeira viagem, devem obter o máximo de informação. “O aborto natural é um assunto tradicionalmente tabu, que raramente é discutido publicamente. Queremos que as pessoas que passam por isso saibam que não estão sozinhas.

As interrupções são muito comuns e há testes disponíveis para ajudá-las a saber o que causou o incidente”, acrescenta.
Oitenta e oito por cento das pessoas que participaram do estudo gostariam de saber a causa do incidente e se algo poderia ser feito para evitá-lo. Delas, 78% iam querer a informação mesmo que nada pudessem fazer para evitar um novo aborto no futuro.

Percepções erradas

Para fazer uma radiografia de como os casais percebem o tema, Williams e colegas elaboraram um questionário de 33 itens, sendo que 10 deles eram direcionados especificamente para mulheres que tinham passado pela experiência ou homens cujas companheiras tinham tido uma interrupção na gestação.
O levantamento foi feito pela internet para manter o anonimato e todos os participantes tinham mais de 18 anos.
Das 1.
084 participações consideradas válidas, recolhidas ao longo de três dias em 2013, 45% eram de homens e 55%, de mulheres.
Quinze por cento das pessoas relataram que elas próprios ou os parceiros tinham sofrido um aborto espontâneo.

Os resultados revelaram outras percepções erradas a respeito do aborto natural. Para 22% dos respondentes, por exemplo, o estilo de vida durante a gravidez – como fumar, usar drogas ou álcool – é a principal causa, superando fatores genéticos ou médicos.
E participantes menos instruídos, sem ensino superior, especialmente os homens, eram duas vezes mais propensos a acreditar que o comportamento da mãe é crucial.
E mais de 70% dos homens e mulheres também apontavam um evento estressante ou o estresse de longa duração como uma das maiores causas.

Kelly Paim, do Centro Wainer de Psicologia Cognitiva, em Porto Alegre, explica que aspectos emocionais influenciam na gravidez, mas não são determinantes para que a gestação seja bem-sucedida. “Quanto mais ansiosos ficamos, maior é a produção de cortisol.
Mas a ansiedade não prejudica a ponto de determinar ou não uma gravidez”, explica a especialista em casais e família.
Outras causas apontadas para o aborto, mas que não correspondem a realidade foram: levantar objetos pesados (64%), doenças sexualmente transmissíveis (41%), uso passado de um dispositivo intrauterino (28%) ou anticoncepcionais orais (22%).

Luto

Pesquisas anteriores indicaram que os níveis de dor psicológica que uma mãe sente ao sofrer um aborto espontâneo são semelhantes à perda de um familiar.
Os resultados de Williams reforçam a constatação: 36% dos participantes, incluindo os que nunca viveram a experiência, relataram que sofrer um aborto seria extremamente perturbador, o equivalente a perder um filho.

Nem todos, contudo, têm a mesma sensação. Rosângela Nascimento Paixão (foto ao lado), 38 anos, é um exemplo disso. “Eu acho que é diferente porque, por mais que sentisse o bebê mexer, não estava presente, convivendo comigo”, conta sobre as interrupções que vivenciou nas duas primeiras gestações.

Hoje mãe de Victor, 5 meses, ela não vê motivos para sentir vergonha. “Sempre confiei em Deus e recebi muito apoio dos amigos, da família e da igreja. E isso me ajudou a superar”, conta.

“Hoje, só tenho motivos para agradecer e dizer a outras mães que passaram por situações assim que tenham esperança e não se entreguem”, prossegue Rosângela, que busca ajuda mulheres que passaram pela experiência recentemente.
“Explico para elas que é normal, e que elas devem conversar com os médicos sobre isso, mas sem se preocupar.

Esse conhecimento foi valioso para Andressa de Menezes Silva Pereira, 29 anos, mãe de Enzo Netuno Silva Pereira, 1 ano e 2 meses, de quem ela engravidou pouco depois de passar por um aborto espontâneo. “Tive um sangramento e corri para o hospital. A médica disse que não havia batimentos cardíacos e que meu corpo expulsaria o bebê naturalmente”, lembra.
Não foi o que aconteceu, porém, e ela precisou passar pelo procedimento de curetagem, que é a remoção do feto pelo médico.

A história, ela observa, não deve deixar outras mães temerosas. “Nem todo aborto espontâneo tem complicações, e é bom frisar isso. Eu tive essa falta de sorte. Fora isso, meu médico conversou bastante comigo e me disse que é algo comum.
Às vezes, a pessoa perde sem nem saber que estava grávida, e esse esclarecimento me tranquilizou”, conta Andressa, formada em letras.

O apoio de Celso Daniel, o marido, fez toda a diferença. “Não temos familiares no Distrito Federal, sou de Sergipe e ele da Bahia.
Por isso, ele sempre foi meu porto seguro”, diz, assegurando que pretende ter mais um filho.”O pré-natal é fundamental.
As mulheres devem procurar um excelente obstetra, pois, pelo menos para mim e para minha superação, foi essencial.
Meu médico teve um papel muito importante”.

Quando um dos gêmeos morre no útero. Perder um dos bebês é uma coisa que ocorre com frequência?

Existe mais de um motivo para a perda de um dos bebês, já que a gravidez de gêmeos pode ter mais complicações que a de bebê único. Uma das ocorrências mais comuns de perda de um bebê gêmeo é quando a gravidez gemelar é detectada num ultrassom bem no começo da gestação, e no exame seguinte um dos bebês simplesmente desaparece.

O que acontece nesses casos é que um dos bebês para de crescer e se desenvolver. Por causa da tecnologia cada vez mais avançada dos ultrassons, muitas vezes dá para detectar a presença de dois sacos gestacionais já com 5 semanas.
Vinte por cento das gestações gemelares diagnosticadas cedo assim acabam se tornando uma gravidez de bebê único até o marco de 12 semanas.

O que acontece quando um dos gêmeos morre dentro da barriga?

Quando isso acontece no primeiro trimestre, o outro bebê continua a se desenvolver normalmente, e os níveis de hormônio permanecem elevados, o que impede que haja o aborto espontâneo. Pode haver, no entanto, um pouco de sangramento vaginal, sem que o outro bebê seja prejudicado.

Conforme o embrião que sobrou vai se desenvolvendo, a bolsa em que ele está envolto ocupa todo o espaço do útero, e o outro saco gestacional acaba sendo absorvido pelo organismo da mulher. O fato de não haver grandes sintomas não alivia a tristeza dos pais.
Cria-se uma grande expectativa com a descoberta da gravidez de gêmeos, e é difícil “mudar de canal”.

Quando a perda do bebê acontece durante o segundo ou o terceiro trimestre, os médicos podem decidir manter a gravidez do outro feto até que ele fique forte o suficiente para nascer. A mãe será monitorada com atenção para que seja detectado qualquer sinal de problemas, como uma infecção.
Ao menor indício de que a saúde do bebê remanescente está em risco, os médicos decidirão fazer o parto.
Na grande maioria dos casos a criança nasce saudável, mas há um risco ligeiramente maior de ela apresentar problemas cerebrais.

Para algumas pessoas, a ideia de que o bebezinho continua dentro da barriga mesmo sem o coração estar batendo é muito perturbadora. Para outras, é de certo modo reconfortante, pois prolonga o convívio. Vale a pena pedir ajuda especial ao médico, ao hospital ou à equipe de psicologia hospitalar para a programação do parto, nesse tipo de situação.

Muitos pais pedem para saber se o bebê (no caso de gêmeos do mesmo sexo) era idêntico ao outro ou não. É uma informação que pode ajudar a guardar lembranças da criança que morreu, e que pode ser útil também em caso de pesquisa de problemas genéticos.

O luto pela morte de um dos bebês

Não importa quantos bebês houvesse dentro da barriga. Para os pais cada um deles é igualmente importante. Mas é bem provável que você ouça, da família e dos amigos, que precisa se alegrar com o bebê que restou.
São duas as tristezas quando se perde um dos gêmeos: pela perda do bebê em si, e pela perda de uma experiência diferente, a de ter dois (ou mais) bebês ao mesmo tempo.

A dificuldade aumenta porque os pais não podem se concentrar na dor da perda de um dos bebês, porque precisam cuidar do outro, que ainda por cima pode estar em condições frágeis de saúde. Com tudo isso, é possível que a tristeza só vá aparecer mesmo algum tempo depois, ou que volte um dia inesperadamente, com mais força.
Para muitos pais, datas festivas como aniversário, Natal, “primeiros” (primeiro dente, primeiro passo…) acabam reacendendo a dor pela perda do outro bebê.

É normal ter sentimentos contraditórios. Eles podem ser:

Negação: acreditar, por exemplo, que os médicos se enganaram, e que no final os bebês vão nascer saudáveis.

Culpa: por que foi este bebê que morreu, não o outro? Pais que tiveram medo da experiência de criar gêmeos, ou que preferiam um sexo específico, podem se sentir culpados, como se tivessem “causado” a morte do bebê.

Nervosismo: os pais podem achar que não vão conseguir se relacionar direito com o bebê que sobreviveu.

Medo: e se o outro bebê ficar doente e morrer também?

Sentimento de fracasso: o fato de esperar gêmeos é de certa forma um sinal de status, por ser diferente, e o nascimento de um bebê só pode acabar sendo um pouco anticlimático.

Dar nome ao bebê que morreu e falar sobre ele pode ajudar a superar a dor. Amigos e familiares não devem ter medo de mencionar a perda, fingindo que aquilo não aconteceu e pensando só no bebê saudável. A presença do bebê que restou não alivia a dor dos pais pela perda do outro filho.

Devo contar ao meu filho que ele tinha um irmão gêmeo?

Em algum momento, no futuro, você terá de decidir se vai contar ou não. O mais recomendável é contar o quanto antes, e falar sobre o que aconteceu. Há famílias que se referem ao bebê que morreu pelo nome e guardam imagens de ultrassom, dependendo da fase em que a perda ocorreu.

A maneira como pai e mãe lidam com a situação serve de guia para os outros parentes e amigos. É verdade que é um assunto muito triste, mas que não deve ser evitado a todo custo ou enterrado no passado.

E se eu não conseguir me recuperar da tristeza?

Se alguns meses já se passaram e você não está conseguindo levar a vida, ou se seu dia-a-dia fica cada vez mais difícil, converse com um médico. Pode ser até o obstetra, ou um médico conhecido da família, ou um psiquiatra. Para toda morte, existe um tempo de luto normal.
Se a tristeza se estender por um período maior do que o esperado, pode se tratar de uma depressão, que pode ser abordada com terapia e ou medicamentos.
A gravidez e o pós-parto já são um período mais propenso à depressão (leia nossos artigos sobre depressão na gestação e depressão pós-parto).

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