Alergia alimentar. Por que acontece? Cresce no país alergia a produtos como ovo e trigo

Alergia alimentar. Por que acontece? Cresce no país alergia a produtos como ovo e trigo

Cada vez mais crianças e adultos apresentam uma reação exagerada a certas comidas. Sensibilidade excessiva acomete cerca de 8% das crianças com até 3 anos. Especialistas tentam desvendar causas da intolerância.

A lista de alimentos que contêm ovo, leite de vaca e trigo é bastante extensa: o pão de todos os dias, o queijo no café da manhã, o bolo do lanche da tarde, salgadinhos, macarrão. Fica praticamente inimaginável uma mesa brasileira (e de quase todo o mundo) sem esses itens.
Entretanto, o sabor prazeroso tem se tornado cada vez mais uma experiência amarga para uma parcela crescente da população.
O motivo é a explosão das alergias alimentares, condição que acomete principalmente as crianças.
De acordo com a Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia (Asbai), de 6% a 8% dos meninos e meninas com menos de 3 anos sofrem do problema.

Pesquisadores internacionais debruçaram-se sobre o tema durante o Encontro Científico Anual do Colégio Americano de Alergia, Asma e Imunologia ocorrido na Califórnia, nos Estados Unidos.
A busca pela causa de alergias específicas, os mecanismos por trás da aquisição de tolerância e as formas possíveis de tratamento figuram entre os assuntos debatidos pelos especialistas.

Um dos vilões da intolerância alimentar, o ovo foi o tema principal de um dos estudos apresentados no encontro. Segundo o autor principal do artigo, Rushani Saltzman, alergista do Hospital da Criança da Filadélfia, aproximadamente 600 mil americanos têm alergia ao ovo da galinha.
“Felizmente, a maioria dos pacientes consegue superar a alergia até o fim da infância.
No entanto, até que isso ocorra, evitar o alimento pode causar significativas limitações dietéticas e impactos consideráveis na qualidade de vida”, observa.

Alguns estudos recentes têm mostrado que a maioria das crianças com alergia a ovo pode tolerar o alimento se ele for extensivamente aquecido. Isso porque, em temperaturas elevadas, há uma alteração na estrutura da proteína alergénica.
A partir dessas hipóteses, Saltzan e sua equipe realizaram testes de indução de tolerância em ambiente hospitalar a fim de verificar se meninos e meninas alérgicos a ovo poderiam tolerar bem pratos que levam o ingrediente e são muito aquecidos ou assados, como bolos e pães.
O resultado mostrou que 56% das crianças não tiveram reação alérgica com uma ingestão diária de dois quintos de ovo quando o alimento era aquecido a 350°C por um tempo mínimo de 30 minutos.
Além disso, os pesquisadores perceberam que aqueles que toleravam o alimento cozido conseguiram superar a alergia ao ovo cru em um ritmo muito mais acelerado do que os alérgicos que evitam rigorosamente o alimento.

De acordo com o alergista do Hospital Universitário de Brasília (HUB) Alexandre Ayres, apesar de apresentar resultados positivos, a indução de tolerância é um procedimento que deve ser realizado com cautela e somente em ambiente hospitalar.
Além disso, o tratamento é indicado somente no caso de alergia grave ou quando envolve um alimento de uso corriqueiro, como o ovo.
“O tratamento dura aproximadamente uma semana, mas varia em cada caso.
Depois que o paciente tem alta, ele tem de permanecer com o tratamento pelo resto da vida.
No caso do ovo, a pessoa tem que ingerir uma pequena quantidade todos os dias.
Se ela passar um, dois ou três dias sem ingerir, perde a tolerância”, ressalta.
Para os casos de alergia leve, Ayres recomenda evitar o alimento ao máximo.

Excesso de limpeza

Mesmo crescentes, as alergias alimentares apresentam mistérios. Suas causas ainda são controversas e guardam várias teorias. Uma delas é a controversa hipótese da higiene. Criada há quase 20 anos, ela prega que a exposição a micro-organismos nas primeiras fases de vida é importante para a “educação” do sistema imunológico.
Dessa forma, um excesso de limpeza seria prejudicial, pois minimizaria as defesas naturais do corpo.
Um recente estudo da Universidade de Hong Kong buscou associar tal teoria com a alergia de crianças ao amendoim, alimento bastante comum na dieta norte-americana.
Segundo os pesquisadores, os resultados mostraram que as taxas de alergia foram maiores em famílias mais ricas.

Para a médica Ana Paula Moschione, diretora da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia, a associação de qualquer alergia alimentar a fatores socioeconômicos é extremamente limitada. “Dizer que uma coisa leva a outra é muito complicado, é uma associação simplista. Você faz essa constatação e não explica direito o porquê.
Essas alergias são multifatoriais”, critica.

Ainda que seja difícil identificar as causas exatas, a médica ressalta que é perceptível que as crianças estão ficando cada vez mais alérgicas e por um período de tempo cada vez maior. De acordo com a Asbai, os principais alimentos envolvidas na alergia alimentar no Brasil são o leite de vaca, o ovo, a soja, o trigo, os peixes e os crustáceos.

Reação ao leite é a mais curada

Ao tentar compreender a tolerância alimentar, um grupo de pesquisadores da Northwestern Feinberg School of Medicine, nos Estados Unidos, tenta buscar novas perspectivas para o tratamento e o controle da alergia alimentar.
A equipe de Ruchi Gupta, busca compreender os fatores associados ao fato de, depois de algum tempo, algumas pessoas se tornarem tolerantes a alimentos que antes causavam reações alérgicas.
“Os estudos anteriores apresentam limitação no tamanho da amostra e nos métodos utilizados, focam em um alimento específico e, mais importante, não têm identificado preditores que podem influenciar no desenvolvimento de tolerância”, explica Gupta.

Para solucionar tais defasagens, a equipe se propôs a descrever os fatores associados ao desenvolvimento de tolerância em nove alimentos triviais usando dados de uma amostra nacional composta por cerca de 40 mil crianças.
Os resultados de aproximadamente oito meses de observação e de análise mostraram que as crianças com alergia severa ou alergia alimentar múltipla são significativamente menos propensas a desenvolverem tolerância alimentar.
Enquanto 15,9% conseguiram se livrar dos sintomas alérgicos, 44,1% permaneceram intolerantes.
Já aquelas com alergia leve a alguns alimentos ou apresentam poucos eczemas desenvolvem tolerância mais facilmente.
Na amostra estudada, a alergia ao leite foi a situação mais revertida, 41,1% das crianças passaram a tolerar a lactose, logo em seguida veio o ovo, com taxas de tolerância de 40,2%.

Segundo Gupta, sua equipe também conseguiu constatar que certos grupos demográficos são menos propensos a desenvolverem tolerância. “Isso ocorre entre o sexo feminino e as pessoas negras, que têm mais dificuldade para se livrar das intolerâncias.
O fato serve como um lembrete de que os efeitos da alergia alimentar não são sentidos igualmente em todas as pessoas”, pondera.
De acordo com a pesquisadora, a idade em que aparecem as primeiras reações alérgicas também é crucial.
“O efeito não é linear e sugere que existe uma estreita janela de recuperação da tolerância para aquelas crianças que desenvolveram alergia alimentar tardiamente”.

Alergia alimentar. Por que acontece? Cresce no país alergia a produtos como ovo e trigo

Alergia alimentar: o que está por trás disso?

Falar em reações alérgicas deflagradas pela ingestão de um belo prato de camarão, um copo de leite ou um punhado de amendoim lembra um filme de suspense.
É que o enredo tem mistérios ainda não completamente desvendados pelos especialistas: por que determinados alimentos são encarados como inimigos pelo organismo de algumas pessoas? E por que o fenômeno vem se tornando tão freqüente?.

Alergia alimentar. Por que acontece? Cresce no país alergia a produtos como ovo e trigo

Nos Estados Unidos, chama a atenção o alarmante crescimento de alergias provocadas pelo amendoim, item obrigatório na mesa dos americanos lá são nada menos do que 1,8 milhão de pessoas que passam mal quando comem qualquer coisa à base dessa oleaginosa. No Brasil os casos de alergia alimentar também aumentam.
Só que, aqui, não há uma estimativa exata dos afetados, compara a alergista Renata Cocco, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp.

Os genes têm culpa no cartório. Se os pais apresentam algum tipo de reação, mesmo que não tenha a ver com comida como asma ou dermatite , o filho tem 75% de risco de desenvolver uma manifestação do gênero, incluída a alergia a algum tipo de alimento, conta.
Ela ocorre quando o sistema imunológico passa a enxergar a proteína de determinado ingrediente como uma ameaça (veja a animação).

A incidência do distúrbio cresce principalmente em regiões industrializadas. Por isso, uma das hipóteses é a chamada teoria da higiene, revela Scott Sicherer, pesquisador do Hospital Monte Sinai, em Nova York, nos Estados Unidos. De acordo com ela, os hábitos de limpeza, as vacinas e os antibióticos tornam as pessoas menos expostas a infecções.
Isso levaria o organismo a, digamos, perder a noção de relevância e atacar algo que não representa real perigo, como a proteína de um alimento.

Muitos especulam que o crescente consumo de produtos industrializados contribuiria para a maior incidência da alergia alimentar mas nada ainda foi comprovado.
Evandro Prado, presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunopatologia, tem uma explicação na ponta da língua para esse fenômeno: Estamos fazendo mais diagnósticos de alergias, o que aumenta a prevalência do problema, avalia.
 Em tese, industrializado ou não, qualquer alimento é capaz de desencadear uma bela reação alérgica.
Mas existem aqueles, como o leite e os frutos do mar, que se transformaram em protagonistas de boa parte dos episódios.
Acredita-se que suas proteínas sobrevivam à digestão e, assim, sejam mais facilmente reconhecidas (e atacadas) pelo sistema imune, diz Sicherer.

O curioso é que a reação alérgica pode desaparecer à medida que a criança cresce ou, então, no outro extremo, se manifestar apenas na fase adulta. Ainda não se sabe o motivo, mas na infância algumas células passam a produzir substâncias que bloqueiam os anticorpos, pondo um ponto final na alergia em muitos casos. Estamos falando de crianças.
Com adultos, uma vez iniciada, a história não tem fim.
 ”Uma pessoa pode comer camarão a vida inteira e só aos 30 anos reagir a ele”, ressalta Ariana Yang, responsável pelo Ambulatório de Alergia Alimentar do Hospital das Clínicas de São Paulo.
Bem, a partir dessa primeira crise… Ela vai apresentar os sintomas toda vez que ingerir o crustáceo, Ariana lamenta informar.
E boa pergunta: por que a aversão ao bicho só dá as caras na fase adulta? Porque qualquer reação vai depender da dosagem dos anticorpos específicos.
E pode levar uma semana ou mais de dez anos até que o organismo forme uma considerável quantidade deles, diz Evandro Prado.

As falsas alergias

Você provavelmente também já ouviu alguém comentar que basta comer uma gelatina, uma bala ou uma salsicha para ficar todo empipocado. Não são poucas as pessoas que descrevem ter acordado um vulcão no organismo depois de consumir alimentos com corantes e conservantes. Essas reações são superestimadas, relativiza Renata.
E, aliás, elas nem são alergias propriamente ditas.
O que caracteriza uma alergia é a participação dos anticorpos contra as proteínas, explica.

Os aditivos químicos não são proteínas e nem sequer são recrutados agentes de defesa no sangue para dar cabo desses elementos estranhos. Até o momento ninguém decifrou como o corpo reage a ingredientes como a tartrazina, o corante amarelo um dos que mais provocam estranhezas do gênero.
O que já se sabe é que, assim como no caso das alergias verdadeiras, por vezes são liberadas histaminas, substâncias que originam coceiras e inchaços no rosto.
Mas as alergias ou falsas alergias do ponto vista médico na prática são sempre uma chateação.

Diagnosticar a alergia a um alimento ou a reação adversa a um corante, que seja não é tarefa fácil. Os médicos recorrem ao histórico do paciente e pedem diversos testes de pele. Já por meio de um exame de sangue, podem calcular a quantidade de anticorpos envolvidos.
E há mais duas estratégias de que se valem os especialistas antes de bater o martelo: a dieta de restrição e o teste de provocação oral.
A primeira consiste em retirar o alimento suspeito do cardápio durante seis semanas.
E a segunda, em reintroduzi-lo aos poucos tudo sob supervisão médica.
A quantidade de anticorpos não determina obrigatoriamente a intensidade da reação, esclarece Evandro Prado.
Isso significa que uma pessoa com níveis baixos de um anticorpo específico não está livre de um quadro mais sério, como um choque anafilático.

Aqueles que são, sem nenhuma sombra de dúvida, alérgicos a um determinado alimento só têm uma saída: evitar o dito-cujo. Isso até que se descubra a cura para a doença. No caso sobretudo das crianças, o controle rigoroso da dieta é imprescindível.
Não adianta só retirar o leite, quando é caso de alergia a esse item, mas também os seus derivados, como iogurte e queijo, exemplifica a nutricionista Renata Pinotti, professora da Universidade Metodista de São Paulo.
Ler o rótulo dos produtos, acredite, faz a diferença.

Sintomas da alergia

As reações alérgicas variam de pessoa para pessoa e se manifestam em diversas partes do corpo

Pele: Bolinhas espalhadas por toda a superfície corporal são os sinais mais famosos da crise. Além de coceiras leves ou intensas, aparecem manchas avermelhadas que ressecam algumas regiões.

Inchaços: Eles se manifestam normalmente nos lábios, nas orelhas e na região em torno dos olhos. Trata-se de um extravasamento de líquido para fora dos vasos. O mais perigoso é o edema de glote: a laringe fica inchada, impedindo que o ar passe.

Sistema digestivo: Desarranjos por lá também podem indicar alergia. Surgem dores abdominais, náusea, vômitos e até mesmo diarreia. Muitas vezes esses sintomas são confundidos com outro tipo de reação, a intolerância.

Respiração e choque: As vias aéreas também sofrem. E aí vêm falta de ar, chiados no peito e tosse. Já o choque anafilático é causado pelo excesso de histamina no sangue. A substância dilata os vasos, derrubando a pressão e levando ao desmaio.

A cura da alergia

Hoje, para conter as substâncias que disparam as manifestações da alergia, são receitados os anti-histamínicos os populares antialérgicos. Para os casos mais graves como aqueles em que um inchaço na garganta impede a passagem de ar , já estão no mercado canetas de adrenalina. Uma picada impede a piora do quadro.
De qualquer forma, diante de uma reação alérgica severa, é sempre prudente correr para o hospital.

Os cientistas investigam há tempos, e com grande interesse, os resultados da imunoterapia. O objetivo é expor o organismo gradualmente à proteína do alimento e assim treinar o sistema imune para não reconhecê-la como inimiga, explica Sicherer. Além disso, já se estuda uma vacina recombinante.
Ela é feita com base na modificação das proteínas do alimento, que deixam, assim, de ser vistas como elementos estranhos.
Por enquanto, esse imunizante ainda é uma promessa.
Quando virá? Ninguém sabe.
E a cura permanece um enigma.