Dor neuropática: Ela surge sem explicação aparente, mas é real

O incômodo costuma ser causado por uma disfunção ou lesão no sistema nervoso. Na maioria dos casos, não há cura. A dor neuropática é um tipo de sensação dolorosa que ocorre em uma ou mais partes do corpo e é associada a doenças que afetam o Sistema Nervoso Central, ou seja, os nervos periféricos, a medula espinhal ou o cérebro.
Essa dor pode ser consequência, também, de algumas doenças degenerativas que levam à compressão ou a lesões das raízes dos nervos ao nível da coluna.

A dor muitas vezes surge sem uma explicação visível, óbvia, palpável. Nenhum corte, nenhuma lesão em algum tecido, nenhuma fratura que justifique o desconforto. Apenas há a dor, uma sensação de queimação ou de formigamento.
Assim pode ser definida a dor neuropática, um incômodo crônico que acontece quando existe algum comprometimento no funcionamento de parte do sistema nervoso responsável pelo processamento de informações sensoriais.
Justamente aquela que permite que o indivíduo reaja aos estímulos externos e sinta, inclusive, dores.

No entanto, essa reação é exagerada e sem trégua. “A dor neuropática não tem função protetora.
Ela existe quando há uma lesão estrutural ou funcional da via que transmite o sinal de dor ao córtex cerebral”, explica o ortopedista Douglas Kenji Narazaki, do Instituto de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP).
O resultado é uma sensação dolorosa persistente e aparentemente inexplicável, mas que pode esconder outros problemas, como diabetes, lesões no sistema nervoso central e até infecções.
O mal, se não tratado, também afeta a qualidade de vida e compromete o equilíbrio emocional do paciente.

No momento de uma lesão, o corpo humano põe um freio na dor aguda promovendo a liberação de opioides. Sem eles, a experiência dolorosa após uma cirurgia ou qualquer outro tipo de trauma seria muito pior. Essas substâncias podem ser derivadas do ópio ou produzidas naturalmente pelo corpo, como a endorfina e a dinorfina.
Algumas vezes, porém, mesmo com a ação delas, a dor aguda pode progredir para crônica, para a qual não há tratamento.

De acordo com estudo publicado, no mês passado, na Science, o alívio nesse caso pode estar intrinsecamente ligado à permanência da dor. Pesquisadores do Departamento de Fisiologia da Universidade de Kentucky (EUA) mostram que a dependência corporal a opioides naturais do organismo pode contribuir para o surgimento das dores crônicas.
O grupo liderado por Gregory Corder acredita que o bloqueio do uso excessivo de opioides naturais pelo organismo poderia impedir a transição para condições mais graves.

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Para explorar o papel dos opioides na dor crônica, os pesquisadores produziram uma inflamação nas patas de camundongos. A estratégia provocou dor, que foi diminuindo ao longo dos dias com a ajuda de opioides naturais. Em seguida, foram administrados bloqueadores dos receptores de opioides.
As drogas ressuscitaram os comportamentos associados à dor e à ativação neuronal de dor nas espinha dos animais mesmo quando lesão foi causada há mais de seis meses.

Dessa forma, os cientistas identificaram um receptor específico para o opioide que medeia a inibição da dor de longo prazo. Em camundongos com dor crônica, esse receptor parecia estar preso em um estado “ligado” ininterruptamente.
Quando foi fornecido um bloqueador a opioide, as cobaias exibiram sinais clássicos de abstinência aos opiáceos, como agitação e tremores.

Os pesquisadores descobriram que o bloqueio do receptor não apenas inicia a dor e a transmissão dela, como também a produção de uma proteína-chave encontrada na medula espinhal e conhecida por contribuir para a dor e sua dependência crônica.
Eles sugerem que, embora a dor aguda seja mantida sob controle com a presença desses receptores, é possível que também possa fazer com que o corpo se torne dependente dos próprios analgésicos, contribuindo para o desenvolvimento da dor crônica.

 

Características da dor neuropática

A dor neuropática se manifesta de várias formas, como sensação de queimação, peso, agulhadas, ferroadas, choques. Pode ser acompanhada ou não de “formigamento” ou “adormecimento” (sensações chamadas de parestesias) de uma determinada parte do corpo.

Como no sistema nervoso existem fibras “finas” e fibras “grossas”, as características das dores podem identificar qual o tipo de fibra que está acometida. Nas lesões de fibras finas geralmente predominam as dores em queimação, aperto e peso. Nas lesões de fibras grossas são mais comuns as dores em pontadas, agulhadas e choques.
Existe, ainda, situações em que existem ambos os tipos de dores, isto é, dores de fibras finas e grossas ao mesmo tempo, sendo chamadas de dores mistas.

Quando somente um trajeto nervoso está comprometido pela doença, por isso chamado de mononeuropatia, a dor é bem localizada, podendo afetar um lado do corpo ou da região (por exemplo, um lado da perna, do tórax, da face, etc.
Às vezes, mais de um nervo pode estar envolvido no processo, causando dores em mais de um segmento do corpo (mononeuropatia múltipla).

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Quando vários nervos estão alterados ou danificados, ou seja, nas polineuropatias, a dor aparece de forma difusa, generalizada, podendo provocar dor no tronco, nos braços e pernas ao mesmo tempo. A dor pode ser contínua (estar presente durante todo o tempo) ou intermitente (em crises, surgindo em horários intercalados).
A intensidade da dor varia de fraca a intolerável, dependendo do estágio da doença e do grau de comprometimento dos nervos.

Fatores desencadeantes

Doenças infecciosas: causadas por bactérias ou vírus que podem afetar os nervos pela liberação de toxinas ou pela degeneração provocada pela presença do micro-organismo.
Podem determinar dores agudas ou dores que persistem após a resolução do processo infeccioso, como, por exemplo, a neuralgia pós-herpética causada pelo vírus Herpes varicela zoster, vulgarmente conhecido como “cobreiro”.

Traumas: em trajetos nervosos por acidentes, fraturas ou cirurgias que levam a dores agudas de grande intensidade no período de convalescença ou no pós-operatório, as quais podem se tornar crônicas, caso não sejam tratadas adequadamente.

Diabetes mellitus: na fase degenerativa, pode lesar a capa que reveste os nervos (chamada de “bainha de mielina”), provocando a neuropatia diabética.

Acidentes: que afetem a coluna, determinando lesões da medula, podendo causar dor intensa e persistente.

Alcoolismo, deficiência nutritiva e de certas vitaminas: afetam a função nervosa de forma significativa desencadeando um quadro de dor.

Tratamento

O tratamento da dor neuropática varia de acordo com a doença e o estágio em que ela se encontra. O objetivo é tratar especificamente do nervo, ou a doença que está lesando o nervo indiretamente e/ou a dor oriunda dessas lesões ou visar somente o alívio da dor. Os medicamentos comumente usados são:

Anticonvulsivantes: substâncias usadas para tratar epilepsia (gabapentina, carbamazepina, lamotrigina) que atuam diminuindo a atividade elétrica dos nervos ou inibindo a passagem das dores por determinadas vias nervosas.

Anestésicos: como a cetamina e ropivacaína, que também diminuem a atividade elétrica dos nervos.

Antidepressivos: como a amitriptilina e imipramina, que estimulam certas partes do sistema nervoso que vão inibir a passagem das dores, além de atuar na depressão que geralmente acompanha a neuropatia ou qualquer dor na fase crônica.

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Os anticonvulsivantes e os antidepressivos são administrados por via oral e os anestésicos, pelas vias oral, intravenosa e peridural (na medula espinhal). No caso das medicações usadas pela via oral, os resultados de melhora começam a ser sentidos após duas ou três semanas de tratamento e depois de reajustes progressivos nas dosagens.
Esses medicamentos costumam, no início, provocar sonolência, tonturas, sensação de cabeça vazia e boca seca, as quais cedem dentro de cinco a sete dias.

Quando se faz uso de medicamento por via intravenosa (infusão pela veia), há necessidade de hospitalização por uns dias, para se controlar melhor as reações. Durante o tratamento, podem ocorrer efeitos colaterais, geralmente mais acentuados no início, que tendem a amenizar com a continuidade da terapia.
A persistência com o tratamento é muito importante para se obter bons resultados.

Cirurgia: Para alguns tipos específicos de dores neuropáticas o médico pode indicar algum tipo de tratamento cirúrgico sobre o nervo ou na medula espinhal ou até em nível cerebral (exemplos: implantes de eletrodos, estimuladores que funcionam como marca-passos do coração).

O tratamento objetiva a cura da doença e, quando não for possível, o alívio do sofrimento do paciente.
Vale lembrar que o controle adequado da dor favorece o paciente em vários aspectos: melhora as atividades diárias, proporciona sono tranqüilo e reparador, aumenta a capacidade para o trabalho, estimula o apetite sexual e de lazer e melhora a auto-estima.
Enfim, melhora a qualidade de vida.

Orientações gerais

  • É aconselhável buscar orientação médica;
  • Quando mais informações você tiver em relação ao seu problema, mais chances de um bom resultado você terá;
  • Tome as medicações nos horários recomendados, sem alterar as dosagens;
  • Pode ser que o tratamento seja de longa duração, porém, não desanime, procure seguir rigorosamente as orientações da equipe (médico, enfermeiro, etc).
  • Lembre-se: O sucesso do tratamento depende muito de você.

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Exemplos de doenças ou lesões que provocam dores neuropáticas:

  • Neuralgia do trigêmio.
  • Neuralgia do glossofaríngeo (nervo da língua e garganta).
  • Neuralgia facial atípica.
  • Neuralgia traumática (após acidentes).
  • Neuralgia incisional (de cicatrizes).
  • Radiculalgia pós-laminectomia (por cicatriz após cirurgia de hérnia de disco).
  • Neurite ou polineurite diabética.
  • Plexalgia ou plexite após radioterapia.
  • Tumores comprimindo nervos.
  • Síndrome talâmica (após derrames cerebrais em áreas específicas).
  • Disestesia do paraplégico (após lesões completas ou incompletas da medula espinhal).

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