Fibromialgia. Não. Não é psicológico

O maior problema de quem sofre de fibromialgia, além da dificuldade de diagnosticá-la e tratá-la, é o preconceito que a cerca. Há até mesmo quem duvide que a doença existe de fato.

Braços, pernas, coluna. Não há parte do corpo que não possa doer. E junto com as dores surgem sintomas como cansaço, dificuldade de concentração, ansiedade, formigamentos e dormências, depressão, tontura e alterações intestinais. É normalmente com esses relatos que os pacientes com fibromialgia chegam aos consultórios médicos.
As dores podem se arrastar por meses ou anos até que o diagnóstico seja definido, já que com a ausência de lesão nos tecidos fica mais difícil detectar o problema por meio de exames.
Embora ainda não tenha sido descoberta a cura, em muitos casos, os pacientes melhoram com o tempo e os sintomas retrocedem quase totalmente.
 Os médicos definem a fibromialgia como uma síndrome – conjunto de sinais e sintomas – que se manifesta com dores no corpo.
Ainda não existe uma causa definida da doença, mas há algumas pistas.

As dores da fibromialgia são (muito) reais, não têm nada de imaginárias e podem impedir a realização de atividades simples e cotidianas. “As portadoras da síndrome da fibromialgia – uso feminino pois a prevalência é: de cada 10 pacientes 9 são mulheres -, exibem diferentes formas de exacerbação da doença.
Algumas têm mais fadiga, outras sentem mais dores e há ainda aquelas que sofrem mais dificuldades de concentração e memorização.
Sendo assim, as tarefas diárias e o trabalho podem ser bastante impactados”, destaca Paulo Renato Barreiros da Fonseca, coordenador do serviço de anestesiologia do Hospital Balbino, no Rio de Janeiro.

Além de atingir mais mulheres, a incidência da doença se concentra na faixa de 25 a 45 anos. “Mas isso não é totalmente fechado, pois eu faço tratamento em uma menina que começou o quadro aos 13 anos. Como o diagnóstico nem sempre é fácil, os sintomas frequentemente o precedem em anos”, acrescenta Fonseca.

É causa, não consequência

Um dos fatores que mais contribui para que se confunda a fibromialgia com problemas psicológicos é o estado depressivo bastante comum em quem sofre com a síndrome. “O estado melancólico, a depressão e a ansiedade resultam da própria doença, assim como da dificuldade em obter bons resultados com o tratamento medicamentoso.
Apoio emocional familiar, psicoterapia, principalmente utilizando o método cognitivo-comportamental, é o que mais apresenta evidências científicas de bons resultados.
Terapia em grupos de apoio também são muito interessantes”, revela o anestesiologista.

Ou seja, não é uma depressão ou estado ansioso que causa a fibromialgia, mas o contrário. Assim, não é de se estranhar que entre 50% e 80% dos portadores da síndrome tenham também sintomas depressivos. E há consenso entre os especialistas de que as alterações no humor podem agravar as dores.

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É ou não é?

A dificuldade em diagnosticar a síndrome é outro fator que ajuda a reforçar o preconceito. “Não há exames laboratoriais que comprovem a doença, a não ser em nível ainda experimental.
Assim, o diagnóstico é essencialmente clínico e segue recomendações de critérios estabelecidos pela comunidade médica internacional, em que são avaliados os sintomas dolorosos, o exame físico e os impactos cognitivos”, explica Fonseca.

As informações do paciente e o olhar atento do médico são essenciais para se chegar à raiz do problema. O médico pode pedir exames para excluir doenças que se apresentam de forma semelhante à fibromialgia ou ainda para detectar outros problemas que podem ocorrer junto e influenciar na sua evolução.

Por outro lado, devido a alta incidência da doença na população (estima-se entre 2% e 5%), a ciência tem estudado cada vez mais a fundo o problema e com isso houve uma grande evolução tanto em termos de definição do que é realmente a síndrome, como na apuração do diagnóstico e, principalmente, possibilidades de tratamento.
E um dos principais pontos é a descoberta (ou confirmação) de que se trata de uma doença neurológica e não dos músculos, ossos ou até mesmo psiquiátrica.
“Durante muitos anos, acreditou-se que a fibromialgia era exclusivamente emocional, sem qualquer causa física.
Mas modernos exames de ressonância nuclear magnética funcional demonstraram as áreas acometidas no sistema nervoso central.
 São áreas que compartilham a interpretação da dor, das emoções e da memória”, detalha o anestesiologista.

Atividade física

Com tantas incertezas em relação às causa e ao diagnósticos, não é de se estranhar que também não haja consenso sobre o tratamento da fibromialgia. Isso porque muitas vezes o que funciona com uma pessoa, não faz qualquer efeito em outra. Mas há as medidas que costumam dar bons resultados para uma porcentagem grande.
“Trabalhos científicos recentes comprovaram que pacientes fibromiálgicos melhoram, a médio prazo, com atividade física aeróbica praticada regularmente.
Constatou-se alívio da dor, da fadiga e da depressão, já que aumenta os níveis de serotonina no sangue.
Muitos pacientes referem melhoras sintomáticas com atividades na água, desde que aquecida”, explica Fonseca.

É importante reforçar que os exercícios físicos devem ser aeróbicos (caminhada, corrida ou natação) de leve intensidade, pois qualquer sobrecarga muscular pode agravar ou até favorecer o surgimento de novas dores. A regularidade também deve ser observada: o ideal é fazer todos os dias, de preferência pela manhã.
Por fim, deve-se sempre observar a necessidade de fazer um bom aquecimento seguido de alongamentos antes do exercício em si, bem como um relaxamento muscular, através de exercícios de respiração e alongamento após o trabalho.

Alternativa

A hidroterapia em piscina aquecida é um dos tratamentos de melhor resposta para a fibromialgia. Dentro dessa lógica, alguns terapeutas introduziram o watsu como alternativa com ótimos resultados.
O nome deriva da combinação das palavras Water + shiatsu (técnica oriental que usa a pressão manual para estimular ou relaxar determinadas partes do corpo para aliviar sintomas como fadiga e estresse).
O watsu aplica essas técnicas na água aquecida e assim proporciona um relaxamento mais aprofundado.
De quebra, melhora a postura e até mesmo a qualidade do sono.

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Na raiz do problema

Nenhuma modalidade terapêutica isolada é reconhecida como capaz de curar a fibromialgia. O ideal é procurar um neurologista, que vai aceitar os medicamentos de acordo com a intensidade do problema e particularidades de cada um.
Os medicamentos mais usados atualmente são aqueles que interferem nos neurotransmissores responsáveis pelo estímulo doloroso.
A maioria é da classe dos antidepressivos, como a amitriptilina, mas também são empregados relaxantes musculares, anticonvulsivantes, analgésicos e até opiáceos (O opiáceo é uma droga que pode ser natural ou sintética e que pode ser usada para fins medicinais, como a morfina).
No entanto, devido aos efeitos colaterais e à necessidade de associação, não se deve jamais tomar remédios sem consultar um médico.

Encarando de frente

Apesar de estar longe de ser um problema psicológico, fazer terapia pode ajudar bastante no tratamento da fibromialgia. Nesse caso, o foco não é exatamente a dor, mas dar suporte para que o paciente a enfrente, mantenha os demais tratamentos e consiga reorganizar sua vida mesmo convivendo com um quadro de dor crônica.
Ou seja, é uma ação educativa em relação à doença.

A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é a mais recomendada para a maioria dos casos – sempre é preciso pensar na fibromialgia individualmente -, uma vez que entre seus preceitos está a ideia de que a maneira como os problemas são encarados é tão importante quanto os próprios acontecimentos.
Em geral, apenas após um “tratamento de choque”, por meio de medicamentos, para aliviar as dores é que se inicia uma abordagem psicoterápica.

Estudos mostram que os pacientes apresentam uma sensibilidade maior à dor do que pessoas sem a doença. É como se o cérebro das pessoas com fibromialgia interpretasse de forma exagerada os estímulos, ativando todo o sistema nervoso para fazer a pessoa sentir mais dor.
É uma dor diferente, em que não há lesão no corpo, e, mesmo assim, a pessoa sente dor.
A fibromialgia pode aparecer depois de eventos graves, como um trauma físico, psicológico ou infecções graves.
E situações como excesso de esforço físico, exposição ao frio, estresse, ou infecções podem piorar as dores.

Isso ocorre porque a interpretação da dor no cérebro sofre varias influências, entre elas das emoções. Sentimentos como alegria e felicidade, por exemplo, podem diminuir o desconforto da dor. A tristeza e a infelicidade podem aumentar este desconforto.
“Em parte isto é explicado pelos neurotransmissores – substâncias químicas cerebrais que conectam as células nervosas -, como a serotonina e a noradrenalina, que têm papel importante na interpretação da dor e na depressão”, diz.
Além de enfrentar as dores e todos os outros sintomas, o paciente enfrenta dificuldades nos relacionamentos cotidianos, porque tornam-se inseguros quanto ao desempenho pessoal, o que gera um estado crônico de revolta em relação a sua saúde.

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Um caso real

Veja o depoimento da vendedora Vera Cristina Cardoso, que começou a sentir os sintomas de fibromialgia em 2010 e, desde então, convive com o problema.

“No início, era um dor terrível nas costas quando eu me sentava ou deitava, parecia uma faca entrando nas costas! E muito cansaço. Eu achava que era fraqueza e comecei a comer mais… Só engordei com isso e não melhorou nada. No pronto-socorro me receitavam injeções para dor com anti-inflamatórios.
Ia em médicos diferentes e, com as consultas relâmpagos, sempre me davam remédio para dores de coluna.
Então, depois de dezembro, quando passei o dia fazendo a ceia de natal e a noite chorando de dor, resolvi ir a um médico que, vendo meu estado, me internou, fez todos os exames e chamou mais dois médicos para me examinar.
Aí sim deram o diagnóstico correto.
 
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A fibromialgia mudou meus relacionamentos familiares e pessoais. Como me sinto muito cansada e com dor, parei de sair. Não chamo ninguém para almoçar em casa, porque, só de ficar ansiosa se a comida vai dar, se vou conseguir limpar a casa, etc., os nervos vão vão se atrofiando e já começo a sentir mais dores. É muito difícil.
Tem o preconceito das pessoas, que, se veem um braço engessado, sabem que está quebrado e te ajudam, ou pelo menos te entendem.
A fibromialgia não! Você quer crescer profissionalmente, mas não consegue nem cuidar da casa.
Você fica pensando: por que eu? Não tem cura? E quando o medicamento não fizer mais efeito? Além disso, mesmo com esse problema, minha vida continua com os dilemas de sempre: filhos brigando, que não querem parar de ver televisão para tomar banho, querendo sair para tomar lanche, querendo que eu brinque com eles…Marido mal-humorado porque tem que lavar louças e estender roupa porque se faço isso sinto muita dor nos braços… A vida sempre vai continuar, independentemente do problema de saúde que você esteja passando… E se vai levando um dia de cada vez.

Para saber mais

Assista ao vídeo abaixo para entender melhor sobre a fibromialgia

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