Gravidez e álcool: uma combinação perigosa

Tomar um chopinho durante a gravidez, gesto aparentemente inofensivo, pode gerar danos irreversíveis no bebê. Doença causada pelo mau hábito materno, a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) afeta 30 mil crianças por ano no Brasil: três a cada hora.

Quando a futura mãe bebe, o álcool passa para a criança, pelo cordão umbilical. “O álcool é uma substância tóxica que impede o desenvolvimento das células, diminui o metabolismo e gera má formação nos órgãos”, explica José Mauro Braz, especialista em alcoologia, professor da UFRJ e diretor da clínica Evolução.
 Segundo ele, os principais sintomas são baixo peso e baixa estatura; má formação de crânio, coração e ossos; além de queixo, olhos e lábio superior menores.
O especialista alerta ainda que a síndrome leva a distúrbios de comportamento (déficit de atenção, teimosia e rebeldia), dificuldade de aprendizagem e expectativa de vida reduzida.
 “O diagnóstico é feito pela observação do médico e deve haver relato de consumo de álcool na gravidez”, disse, acrescentando que exames de imagem e raio-X podem auxiliar o médico.
“A doença não tem cura e a parte da má formação é irreversível.
Apesar disso, os danos cerebrais podem ser amenizados, com estímulos à criança”.
 Sobre o limite de álcool tolerável na gestação, o médico é taxativo: zero.
“A recomendação é não beber nada desde a gravidez.
Além disso, cerveja não é bebida fraca e é um erro achar isso”, alerta.

Dificuldade de aprender

Há cerca de 15 anos, Cíntia, 47, descobriu que a filha, então com 11 meses, sofria de SAF. A desconfiança surgiu no sexto mês de gestação, quando a mãe percebeu que o crescimento da primeira filha estava aquém do esperado. Dependente do álcool na época, Cíntia conta que bebia todos os dias.
Ela conta que a filha não desenvolveu sequelas físicas, mas apresenta processo cognitivo abaixo da média, imaturidade e faz análise.
 “Não consegui parar de beber durante a gravidez, porque tinha problemas com o álcool.
Nunca tinha ouvido falar na síndrome”, disse, acrescentando que está em tratamento.

O uso do álcool durante a gestação pode ser muito perigoso para a mãe. Não existe uma dose limite pré-estabelecida para a ingestão do álcool pela gestante que não prejudique o bebê. O álcool é uma substância com livre passagem pela placenta e, portanto, livre passagem para o feto.
O fígado do bebê que está em formação metaboliza o álcool duas vezes mais lentamente que o fígado da sua mãe, isto é, o álcool permanece por mais tempo no organismo do bebê do que da sua mamãe.
Viu o perigo?.

O aborto espontâneo e o trabalho de parto prematuro, assim como outras complicações da gravidez, também estão relacionados com o uso do álcool, mesmo em quantidades menores. O risco de aborto espontâneo quase dobra quando a gestante consome álcool.
 Os prejuízos causados no feto pelo álcool podem causar desde gestos desajeitados até problemas de comportamento, falta de crescimento, rosto desfigurado e retardo mental, dependendo da fase da gravidez e também da quantidade de álcool ingerido.

Síndrome Alcoólica Fetal (SAF): é a consequência no feto do consumo de álcool durante a gravidez e é irreversível.
Caracteriza-se por retardo no crescimento intra-uterino, retardo do desenvolvimento neuropsicomotor e intelectual, distúrbios do comportamento (irritabilidade e hiperatividade durante a infância), diminuição do tamanho do crânio (microcefalia), malformações da face como nariz curto, lábio superior fino e mandíbula pequena, pés tortos, malformações cardíacas, maior sensibilidade a infecções e maior taxa de mortalidade neonatal.
 Por vezes, o bebê ao nascer não apresenta algum defeito físico, mas alguns sintomas podem não serem óbvios até que o bebê complete entre 3 e 4 anos.

Alteração no peso: O peso de um bebê que foi exposto ao álcool é normalmente inferior ao dos bebês de mães que não beberam durante a gravidez. O peso ao nascimento de bebês afetados pelo álcool é de aproximadamente 2 quilos e dos bebês saudáveis é de 3,5 quilos.
 Conforme a criança cresce, outros prejuízos começam a aparecer, entre os quais a memória fraca, falta de concentração, raciocínio fraco e incapacidade de aprender com a experiência.

A exposição do feto, seja em que época da gravidez, ao álcool não tem como consequência necessariamente a SAF. Como já foi falado, não se conhecem níveis seguros de consumo de álcool durante a gravidez.
 Na maioria dos recém-nascidos prejudicados pela ação do álcool antes do nascimento não ocorre anomalias faciais e a deficiência do crescimento que identificam a SAF.
Mesmo assim, todos os pequenos que são expostos ao uso de álcool portam danos cerebrais e outros comprometimentos tão significativos quanto os que ocorrem nos portadores da SAF.
 Nem todas as mães que bebem terão bebês com algumas sequelas.
Qualquer quantidade de álcool é um risco, mas qualquer abuso exagerado do álcool é prejudicial para o feto, principalmente durante os primeiros três meses.

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Não esqueça disso:

  • O álcool deve ser evitado durante a gestação e durante todo o período de amamentação, pois o álcool pode passar para o bebê através do leite materno.
  • Como o álcool passa rapidamente para o sangue, o drinque da mamãe já atua sobre o bebê após 10 minutos.
  • A extensão do dano causado pelo álcool no feto está relacionada com a duração e quantidade da ingestão de álcool.

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O consumo de álcool durante a gravidez é uma questão polêmica, porque, embora a abstenção total de bebidas seja a recomendação oficial do Ministério da Saúde e da maioria dos médicos, na prática muitas grávidas sempre acabam ouvindo de alguém que um pouquinho de cerveja aqui ou uns golinhos de vinho ali não fazem mal nenhum.
 Mas, infelizmente, essas medidas “aqui e ali” são subjetivas e podem levar a abusos por parte da mãe e graves consequências futuras para o bebê.
O álcool contido em vinhos, cervejas, cachaças, drinques com frutas, uísque e outras bebidas passa facilmente através da placenta para o feto em desenvolvimento, que pode vir a nascer com problemas motores, físicos e mentais, além de comportamento.

Esse conjunto de distúrbios pode ser diagnosticado como síndrome alcoólica fetal (SAF) ou como um quadro de outros transtornos ligados ao consumo de álcool na gestação.
Essas condições existem desde que o mundo é mundo e as pessoas bebem, mas só foram mais recentemente “batizadas” e assim descritas pela comunidade médica internacional, tornando o diagnóstico nem sempre fácil.
 Acredita-se que a SAF e esses outros transtornos afetem milhares de crianças por ano em todo o globo, mais do que a síndrome de Down, distrofia muscular e espinha bífida somadas, segundo a organização não-governamental The National Organization on Fetal Alcohol Syndrome (Nofas).
”Há uma estimativa de que um em cada cinco casos de deficiência mental no mundo seja causado pelo álcool consumido pela gestante”, diz Dartiu Xavier da Silveira, co-fundador e coordenador do Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes (Proad) da Universidade Federal de São Paulo.

Em muitos casos, as mães não conversam com os obstetras sobre seus hábitos de beber e nem com os pediatras depois que os filhos nascem, o que complica ainda mais a situação dessas crianças e as perspectivas de tratá-las da melhor maneira possível.

Características da síndrome alcoólica fetal

Bebês nascidos com a síndrome costumam apresentar malformações na face (lábio superior bem fino, nariz e maxilar de tamanho reduzido, por exemplo, cabeça menor que a média, anormalidades cerebrais (apresentando falta de coordenação motora e distúrbios de comportamento, até retardo mental), malformações em órgãos como rins, pulmões e coração.
Quando vão para a escola geralmente enfrentam dificuldades de aprendizado, memorização e atenção.
 ”As dificuldades de aprendizagem geram problemas muito abrangentes para o futuro da criança.
A repercussão é para a vida toda.
Elas acabam com menos oportunidades profissionais, de manter relacionamentos afetivos ou fazer amizades”, afirma Hermann Grinfeld, pediatra com mais de 40 anos de experiência e pesquisador dos efeitos do consumo de álcool na gravidez.
 Crianças que se encontram no chamado “espectro” dos distúrbios provocados pelo álcool podem ter alguns dos problemas descritos acima, porém não chegam a preencher todos os requisitos para classificá-los como portadores da síndrome – o que nem por isso é menos sério para o seu desenvolvimento.

Existe alguma maneira de prevenir a síndrome?

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Gravidez e álcool: uma combinação perigosa

Sim, a única forma de impedir que seu filho venha a sofrer da síndrome é não consumir bebidas alcoólicas na gestação.
E, caso você esteja só pensando em engravidar, já vale parar de beber para não correr riscos (muitas mulheres que consomem grandes quantidades de álcool não menstruam regularmente e por isso às vezes engravidam sem saber), porque o álcool pode causar danos logo nessas primeiras semanas de gravidez, principalmente no cérebro do bebê.
 Pode até parecer exagero, mas os cuidados com um bebê começam muito antes do nascimento, das noites em claro e trocas de fraldas sujas.

A verdade é que desde o momento em que pensa em ter um filho, uma mulher precisa preparar seu corpo a fim de ter as melhores chances de gerar uma criança saudável e com todas as possibilidades de crescer feliz e sem limitações físicas ou psicológicas.
 ”A futura mãe precisa pensar que a gravidez é só o começo da história com aquele filho e tem que decidir como vai ser a relação com ele no futuro.
O álcool afeta esta relação para sempre”, diz a psicóloga Mônica Lazzarini Ferreira Valente, coordenadora de ações e projetos da Associação Parceria contra Drogas.
“Às vezes é difícil não beber, mas é possível e vale por amor a um filho”.

E se eu beber sem saber que estava grávida?

Não entre em pânico e já fique achando que causou problemas irreversíveis ao feto. Pare imediatamente, porque isso diminuirá as chances de o bebê vir a sofrer alguma consequência do consumo de álcool.
Procure também conversar abertamente com seu médico se achar que está tendo dificuldades para se abster das bebidas, porque ele pode orientá-la ou recomendar algum tipo de ajuda especializada.
 ”O prejuízo de não falar sobre álcool para o médico é muito maior que a vergonha “, observa Mônica.

Os profissionais costumam fazer algumas perguntas básicas para poder determinar se existe abuso de álcool, muitas vezes sem a própria mulher se dar conta. Não tenha vergonha de se expor ou de ser julgada, já que a função dos médicos é justamente estar a seu lado em busca de uma vida saudável para você e seu bebê.
 Peça também a colaboração de seu companheiro e de pessoas próximas para que não bebam por perto, assim você não passa vontade.
Muitas vezes é necessário ainda se afastar de um grupo que bebe demais e com o qual toda a diversão é somente liga ao consumo de álcool e nada mais.

Saiba mais…Síndrome Alcoólica Fetal (SAF): os Perigos do Álcool para o Feto

Gravidez e álcool: uma combinação perigosaA Síndrome Alcoólica Fetal (SAF) caracteriza-se por microcefalia, dismorfias craniofaciais e retardo mental, foi descrita em 1968 e ratificada em trabalhos científicos de 1973. Outros sinais e sintomas associados, tais como malformação cardíaca e baixo peso, podem estar presentes.
A SAF decorre do eventual abuso do álcool durante a gravidez, sendo que, pela intensidade das manifestações, as lesões ocorrem, na forma clássica, predominantemente nos primeiros três meses.

Considera-se que a ocorrência de aborto e parto prematuro pode ser consequência de maior comprometimento fetal como um todo. A incidência de SAF é estimada em um em cada mil nascimentos e o abuso de álcool durante a gravidez produz um risco de 30% a 50% de possibilidade de lesões fetais em relação às mães que não bebem neste período.
Mas o quadro mais problemático é aquele nos quais lesões mais graves não são observadas, mas sim discretas alterações cerebrais.
Nestes casos, com o crescimento natural, a chegada da idade escolar e as exigências mais complexas, verificam-se sinais de certa imaturidade cerebral.
Estima-se que, nestes casos, muitas crianças possam apresentar distúrbios cognitivos e comportamentais relacionados com pequenas alterações resultantes da ação do álcool sobre o cérebro fetal.

Acredita-se, de acordo com opinião de diversos especialistas, que manifestações neurocognitivas semelhantes à Síndrome de Déficit de Atenção (DAS), com ou sem hiperatividade, possam ser secundárias à ação de etanol sobre o cérebro em formação embrionária.
Nestes casos, não seria necessário grande consumo de bebidas alcoólicas pela mãe, mas eventuais abusos ou uso continuado acima do recomendado.
Deve-se chamar atenção para estes casos, pois a crença popular, partilhada por muitos profissionais da saúde, não vê problema no uso de bebidas alcoólicas durante a gravidez.

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Segundo alguns autores, o álcool seria uma das principais causas de déficit neurocognitivo nas crianças em idade escolar, caracterizado, sobretudo, por déficit de atenção e distúrbio de conduta (ansiedade, resistência a absorver regras sociais, compulsividades, irritabilidade, maior dependência). As consequências são graves.
O baixo rendimento escolar, por exemplo, causando repetência e exclusão da escola, é um dos fatores favoráveis para o surgimento de comportamento anti-social, delinquência e adesão às drogas e ao crime.
Esta situação é evitável pelo trabalho de prevenção.

Portanto, as bebidas alcoólicas consumidas na gravidez podem representar um fator de risco significativo a ser melhor considerado por todos nós. Já existem centros, como o da Universidade de Washington e o da Universidade de Lille (Centro Hospitalar de Tourconing), nos Estados Unidos, que vêm desenvolvendo importantes trabalhos neste campo.
No Brasil, o problema vem despertando maior atenção, com a vinda de especialistas estrangeiros a encontros organizados por universidades.
O Brasil é um dos maiores consumidores de bebidas alcoólicas do mundo e aqui a cerveja contém a mesma quantidade de álcool puro por dose-padrão: uma caneca de chope equivale a uma taça de vinho, a uma dose de cachaça ou de uísque.

Consumo de álcool antes da primeira gravidez aumenta o risco de câncer de mama

A bebida alcoólica já havia sido relacionada anteriormente à doença, mas nova pesquisa revelou que o período entre a primeira menstruação e a primeira gravidez pode deixar a mulher mais vulnerável ao câncer.
 Embora estudos científicos já tenham associado o consumo de bebida alcoólica ao câncer de mama, um novo dado pode facilitar a compreensão dessa relação.
De acordo com pesquisa, mulheres que bebem álcool no período compreendido entre a primeira menstruação e a primeira gravidez correm maior risco de ter a doença do que aquelas que passam a beber somente depois da primeira gestação.
Para os autores, é possível que isso aconteça pois os tecidos mamários são particularmente sensíveis ao processo de formação do câncer.

Conheça a pesquisa

O estudo, feito na Faculdade de Medicina da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, está presente na edição do periódico Journal of the National Cancer Institute. Ele se baseou nos dados de 91.005 mulheres que deram à luz quando tinham de 25 a 44 anos e que nunca haviam apresentado câncer.
As participantes responderam a um questionário sobre consumo de álcool e estilo de vida em 1989 e voltaram a ser avaliadas vinte anos depois.

Quantidade perigosa: Ao final da pesquisa, foram registrados 1.609 casos de câncer de mama. O estudo descobriu que mulheres que ingeriam pelo menos 15 gramas de álcool diariamente – uma quantidade equivalente a duas doses de uma bebida destilada – apresentaram um risco 34% maior de ter câncer de mama do que aquelas que nunca bebiam.

A pesquisa também concluiu que quanto maior o período compreendido entre a primeira menstruação e a primeira gravidez, mais elevado o risco de câncer de mama.
Entre as mulheres que não bebiam, aquelas que levaram mais de dez anos para engravidar a partir da menarca tiveram um risco de 26% a 81% maior de desenvolver a doença em comparação com as participantes cujo período foi menor.
Para os autores do estudo, reduzir o consumo de álcool durante esse período pode ser uma estratégia de prevenção contra o câncer de mama.

Resultado: O risco de câncer de mama é maior entre mulheres que começaram a consumir bebida alcoólica antes da primeira gravidez do que depois.
Essa chance também é mais elevada entre aquelas que não bebem e cujo período entre a menarca e a primeira gravidez ultrapassou os dez anos em comparação com as mulheres que não bebem, mas cujo período foi menor.

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