Impotência X Disfunção Erétil

O tema é tabu e constrange homens Brasil afora. A disfunção erétil é um estigma, principalmente, por que o preconceito e o silêncio são alimentados diariamente justamente por quem é o alvo do problema: o homem.
Cada piadinha de mesa de bar, risadinha de corredor e tentativa de vender uma imagem superpoderosa significam atraso na resolução de um mal que afeta milhões de homens e que tem, não apenas solução, mas opções variadas de tratamento.
O primeiro passo para superar esse paradigma é tratar com naturalidade uma questão de saúde a que todos estão sujeitos, façam pose de machão ou não.

Números utilizados pela Sociedade Brasileira de Urologia (SBU) como referência da incidência da doença mostram que metade dos homens na faixa etária entre 40 e 70 anos sofre de algum grau de disfunção erétil – leve, moderada ou severa. Segundo o chefe do departamento de Andrologia da SBU, Dr.
Geraldo Eduardo Faria, um estudo da Massachusetts Male Aging Study (MMAS), realizado nos Estados Unidos, mostrou uma incidência de 52% e os estudos brasileiros encontram valores semelhantes.

Faria diz que as causas psicológicas são mais frequentes nos indivíduos jovens e correspondem a cerca de 80% dos casos. “No entanto, mesmo nos casos de disfunção erétil de causa orgânica, via de regra encontramos a associação de um componente emocional em razão do trauma psicológico desencadeado pela doença”, diz.

Um caso real: História de sucesso

“Foi através de uma pessoa que divulgou a experiência na internet que tive coragem de fazer a cirurgia peniana. Do mesmo jeito que fui beneficiado, quero ajudar outras pessoas também”. O depoimento é de Adelmo*, 54 anos, casado e duas filhas. Em 2010, ele fez a retirada total da próstata e desenvolveu a disfunção erétil.
“Tentei tratamento via oral, mas o resultado foi insatisfatório”.
Ele detalha e diz que a qualidade da ereção alcançada era pouca e exemplifica: “se num organismo normal a ereção é 100%, eu conseguia 40%.
Além disso, a duração não ultrapassava 15 minutos e vinha a frustração.
Eu começava a penetração e o pênis murchava”, explica.

Dois mil e doze entrou e Adelmo decidiu virar a página. “Sou muito novo, preciso de uma reposta”, pensou. Em conversa com a companheira veio o apoio que faltava e ele procurou a ajuda de um especialista. “São 24 horas de internação.
A recuperação é um pouco dolorida no início, quando os pontos estão mais ativos, mas imagino que isso deve variar de acordo com o organismo”, diz.
Ele recomenda que o paciente escolha um profissional competente porque a cirurgia é delicada.
São 10 dias de repouso e, no início, o órgão sexual tem que ficar totalmente ereto, segundo ele.

Adelmo optou pela prótese maleável, que pode ser dobrada e tem uma facilidade de ocultação maior. “É tranquilo, visualmente não agride ou constrange ninguém, mas a visão que se tem é de um homem com pênis grande”. Ele diz que ainda não usou calção de banho. “Vou escolher um mais folgado e não poderei usar sunga”, diz.
Outro ponto que faz questão de compartilhar é sobre o tamanho do pênis.
“O tamanho é 90% do que era antes”.
A satisfação psicológica é interessantíssima.
A gente volta a ser adolescente de novo”, afirma.

O plano de saúde só pagou a internação de Adelmo. Isso por que ele quis escolher a prótese de maior qualidade disponível no mercado. “Eles vão me reembolsar o valor do preço mínimo de uma prótese”, explica.

Minas Gerais é referência no tratamento

Marcelo Salim é médico-urologista há 25 anos. Ele faz parte da Sociedade Brasileira de Urologia e Sociedade Americana de Urologia e é referência no Brasil em cirurgia peniana. “Esse mês, operei homens de Recife, Brasília e Manaus”, conta.
O especialista explica que, apesar de o trabalho da medicina mineira não estampar manchetes em revistas, é divulgado pelo próprio paciente.
“Tratar em Minas significa sucesso com um custo mais barato”, afirma.

Se não é seu paciente mais famoso, tem grandes chances de ser o mais polêmico. No ano passado, o jornalista esportivo Jorge Kajuru declarou em entrevista a uma revista de circulação nacional que se submeteu ao procedimento na capital mineira e está “vinte e quatro horas à disposição”.
Salim explica que é uma opção dele já que a prótese é dobrável e fácil de ser ocultada.
A coincidência aqui é que foi o depoimento de Kajuru o empurrão que Adelmo procurava.

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A cirurgia peniana é o último recurso para tratar a disfunção erétil e o especialista afirma, por exemplo, que mais de 50% das queixas têm boas respostas ao uso de medicação. Ele explica ainda que o termo impotência sexual não é adequado. Para o indivíduo ser considerado impotente, precisaria manifestar disfunção erétil permanente.

E se existe uma “receita” para se prevenir o distúrbio, ela é simples: “manter uma boa saúde sexual significa manter vida saudável”, declara Salim.
O médico ressalta ainda que para se evitar a disfunção erétil de causa psicológica é necessário que homem tenha uma boa iniciação sexual, “que estabeleça sua primeira relação quando estiver realmente preparado para isso e não encaminhado “à força” para satisfazer aos colegas”, salienta.
”Manter uma boa saúde sexual significa manter vida saudável”, afirma o médico-urologista Marcelo Salim.

A seguir, leia a entrevista completa com o especialista Marcelo Salim:

 – O termo impotência sexual é adequado para tratar das dificuldades de ereção?

Marcelo Salim: O termo não é adequado, o mais adequado é disfunção erétil. A disfunção erétil é a dificuldade em obter ou manter um endurecimento do pênis suficiente para penetração na relação.
É importante a citação de ‘manter’ porque alguns homens acreditam que obtendo a ereção, mas não tendo a capacidade de mantê-la, tem outro problema, o que na verdade também é disfunção erétil.

 – Quais os tipos de disfunção erétil mais comuns?

MS: A disfunção erétil pode ter causa psicogênica ou orgânica. Os pacientes mais novos geralmente têm causas psicogênicas, ou seja, de fundo emocional. Já nos pacientes acima de 40 anos as causas tendem a ser de fundo orgânico.
Algumas doenças estão relacionadas ao aparecimento da disfunção erétil, como diabetes, doenças pulmonares, tratamento da hipertensão arterial, radioterapia pélvica, alterações hormonais e cirurgia radical da próstata.

 – Quais são os comportamentos preventivos para uma boa saúde sexual?

MS: Para que o homem não tenha um desenvolver sexual com comprometimento psicogênico é preciso que ele seja orientado na adolescência e que estabeleça sua primeira relação quando estiver realmente preparado para isso e não encaminhado “à força” para satisfazer aos colegas. Esse tipo de iniciação pode trazer sérios problemas futuros.

Manter uma boa saúde sexual significa manter vida saudável. A medicina hoje sabe claramente que a disfunção erétil não é, na maioria das vezes, uma doença ligada diretamente ao pênis.
Assim, vida saudável, controle da pressão arterial, da alimentação e do peso, evitar cigarro, abuso de bebidas alcoólicas, manter um sono regular trazem boa saúde e em conseqüência boa atividade sexual.

 – Os medicamentos para impotência resolveram quantos por cento dos problemas de ereção?

MS: Com o aparecimento dos medicamentos específicos para o tratamento de ereção houve uma revolução na resposta do tratamento. Mais de 50% das queixas têm boas respostas ao uso dessa medicação.

 – O quanto ainda é tabu a busca por tratamento de impotência sexual? Tem melhorado a forma como os homens e as mulheres lidam com a questão?

MS: Disfunção erétil ainda é um tabu, muitos homens ainda ficam envergonhados ao tratarem desse assunto e muitas vezes, na consulta, tratam de outros temas, e nós, médicos temos que – nas entrelinhas – detectar a verdadeira motivação da consulta.
Interessante é dizer que quando se esclarece o problema e encontra a solução a felicidade fica estampada e a inibição desaparece.

 – Como a companheira ou companheiro – no caso de casais homossexuais – pode ajudar?

MS: É importante que o parceiro(a) seja paciente, não traga inibição, seja participativo e dê estímulo.

 – Atualmente, quais as opções de formas de tratamento da disfunção erétil?

MS: A disfunção erétil tem o tratamento de acordo com a sua causa, mas de uma maneira esquemática podemos dizer que o tratamento passa pelas seguintes fases: verificação do estado emocional psicológico, ajustes hormonais, tratamento com drogas orais específicas para ereção, drogas injetáveis e implante de prótese peniana.
A cirurgia para disfunção erétil é a ultima opção terapêutica e consiste no implante de prótese dentro das suas variedades de modelos.

 – Qual a eficácia do procedimento cirúrgico? Por quantos anos ele é eficaz?

MS: A cirurgia para o implante de prótese peniana tem duração média de 1h30min, é um procedimento eficaz com resolução da disfunção erétil em 100% e em definitivo. Em raríssimos casos, faz-se a troca da prótese.

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 – Quando a cirurgia é contra-indicada?

MS: A contra-indicação é a mesma para todos os outros tipos de cirurgia, por exemplo, um fator que impeça uma anestesia.

 – Mas e nos casos de pacientes com câncer de próstata?

MS: A retirada da próstata não implica em disfunção erétil. Hoje em dia, em torno de 20% dos pacientes submetidos a prostatectomia radical – ou retirada total da próstata – podem desenvolver o problema. A incidência já foi bem maior. O importante é ressaltar que os pacientes se recuperam naturalmente e espontaneamente.
Eu não recomendo o procedimento cirúrgico antes de um ano pós-cirurgia do câncer porque, muitas vezes, essa alteração do nervo melhora com o tempo.
E lembrando que há outras alternativas terapêuticas antes de se decidir pela prótese peniana.

 – Os planos de saúde cobrem a cirurgia? Qual o preço?

MS: Muitas vezes o procedimento é coberto pelos planos de saúde. A prótese de implante peniana está enquadrada na tabela do Sistema Único de Saúde (SUS), que também cobre a cirurgia, mas os hospitais não têm a prótese disponível.

 – O jornalista Jorge Kajuru em entrevista a uma revista de circulação nacional contou que fez a cirurgia em Belo Horizonte com o Senhor e afirma que o pênis dele fica ereto 24 horas por dia.
Isso é uma opção do paciente?

MS: Sim, é uma opção de modelo de prótese peniana. Vale citar que essas próteses podem também permanecer em outras posições.

 – Quais os tipos de prótese?

 Existem dois tipos de prótese, mas de inúmeras qualidades. Existe uma que é maleável (ou semirrígida). Ela é dobrável. É nesse item que entra a diferenciação de uma prótese de melhor ou pior qualidade.

A prótese semirrígida pode deixar o pênis em posição erétil o tempo todo, se for a opção do homem, mas ela se dobra como se fosse um dedo. Existe um modelo, com anéis ao longo da prótese, que dá uma ocultação perfeita e fica imperceptível. Quanto pior a qualidade, mais difícil é a ocultação.

Outro tipo é a inflável, uma bolsinha que fica dentro da bolsa escrotal. Uma válvula comanda a prótese. Quando o homem for ter uma relação sexual ele aperta essa válvula. Ao final, é só apertar de novo que o pênis volta a ficar amolecido.

 – Qual o preço da cirurgia peniana?

MS: Varia muito. Com a prótese mais simples, o procedimento fica em R$ 6 mil. A cirurgia com a mais sofisticada fica em R$ 80 mil.

Inibição que atrapalha

Ele foi ao médico, mas não falou “daquele problema”: a disfunção erétil ou impotência, como é popularmente conhecida. Além de adiar a solução de um incômodo, esse homem perdeu também uma chance de diagnosticar um possível desequilíbrio em sua saúde.
Talvez o médico não tenha feito a pergunta: “Como anda a sua vida sexual?”.

Essa cena se repete nos consultórios: 64% dos pacientes que procuram um médico de qualquer especialidade têm disfunção erétil em algum grau, enquanto a incidência na população em geral é de 45,1%, mostra uma pesquisa inédita feita pelo Projeto Sexualidade, do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo.
Mas, embora já procurem ajuda para outros problemas, apenas 8% dos pacientes tratam a disfunção.

Esses são os primeiros resultados da pesquisa, denominada Estudo da Vida Sexual do Paciente, coordenada pela psiquiatra Carmita Abdo. Os dados foram coletados com a colaboração de clínicos gerais, cardiologistas, urologistas e ginecologistas de todo o país. Refletem o comportamento de homens entre 18 e 76 anos de idade.
”Existe um contingente que não está sendo tratado, seja porque não se manifesta ou porque o médico não fez a pergunta na rotina da consulta”, analisa a psiquiatra.

O silêncio nos consultórios anuncia o risco da automedicação. O estudo também indica que aproximadamente 1/3 dos homens com problemas de ereção tomou remédio sem prescrição médica.
Essa prática oferece riscos, porque os medicamentos para disfunção erétil, se combinados com algumas drogas de ação vasodilatadora, pode levar a acidentes vasculares ou infarto.

Outro aspecto negativo da automedicação é deixar de investigar a causa, que pode ser orgânica. Os médicos falam da necessidade de se fazerem exames para verificar os níveis de hormônios, glicemia, colesterol, pressão arterial e o funcionamento do sistema cardiovascular antes da prescrição de qualquer tratamento.
Como a disfunção erétil pode ser um sinal da presença de outras doenças, “mesmo que o homem não esteja preocupado com a atividade sexual, deve procurar um médico diante da dificuldade de ereção”, explica Carmita Abdo.

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A condição psicológica é outro aspecto fundamental. Apenas 10% dos casos são decorrentes de causas orgânicas até os 60 anos, diz o urologista e diretor do Instituto Brasileiro Interdisciplinar de Sexologia e Medicina Psicossomática, Celso Marzano. O estresse e a depressão influem de forma incisiva no desempenho sexual (veja quadro ao lado).
O profissional de saúde, do outro lado da mesa, tem papel importante na identificação da disfunção erétil de seus pacientes e suas causas.
“Na maioria das vezes o homem não se sente à vontade e fica aguardando que a pergunta sobre isso ocorra”, avalia Abdo.
Um estudo de 2003 apontou, entre as principais razões que levam o médico a não abordar o assunto, falta de tempo, falta de conhecimento específico e inibição pessoal.

O urologista e professor da Universidade Federal de São Paulo Joaquim Francisco de Almeida Claro explica que, no campo da disfunção erétil, falar com o paciente é fundamental. “Cada minuto de conversa é um minuto investido. É muito melhor do que fazer qualquer exame. Às vezes a conversa é o próprio tratamento.
” Há casos em que somente a orientação do médico ou a terapia psicológica breve consegue resolver, afirma a ginecologista e representante da Associação Mundial de Saúde Sexual, Jaqueline Brendler.
Se a causa é orgânica, a terapia pode complementar o tratamento, para devolver ao homem a autoconfiança.

Porém, principalmente nos serviços públicos de saúde e nas consultas por convênios, atendimentos rápidos e a dificuldade de encaminhar o paciente para um serviço de psicoterapia podem levar à prescrição de medicamentos para disfunção erétil sem a devida identificação da causa, analisa Brendler.
“Esses recursos têm indicações específicas”, explica.
A moderação na indicação do uso de remédios no tratamento também é defendida pelo psiquiatra formado pela USP Flávio Gikovate.
“Quando a causa é orgânica, o remédio é muito bem-vindo.
Se não, o homem falha porque tem que falhar mesmo.
Em geral, essa situação reflete o contexto, que deve ser uma fria.
O pênis tem sempre razão.

Problema duplo

O Viagra e outras drogas do gênero estão longe de resolver todos os problemas sexuais masculinos, afirma um grupo de médicos nos EUA.
Ao analisar dados obtidos com mais de 12 mil homens que participaram de testes de remédios para disfunção erétil, os pesquisadores verificaram que mesmo os que tinham problemas “muito leves” de ereção muitas vezes tinham dificuldades de ejaculação ou sofriam para atingir o orgasmo.

Os dados “sugerem que os problemas sexuais masculinos transcendem a disfunção erétil”, escrevem os autores do estudo, liderados por Darius Paduch e Alexander Polyakov, da Faculdade Médica Weill Cornell. Os homens estudados vivem em todos os continentes menos a África.
Os dados foram colhidos durante testes clínicos da droga tadalafila, cujo nome comercial é Cialis.
Seu mecanismo para enfrentar problemas de ereção lembra muito o do Viagra.

No total, 65% dos homens com disfunção erétil também não conseguem ter orgasmo (mesmo tendo sucesso na ereção), enquanto 58% têm problemas de ejaculação. Aliás, 15,6% dos homens que ejaculam normalmente dizem que o evento não é acompanhado da sensação de orgasmo. ”É preciso lembrar que se trata de uma amostra viciada.
Esses homens já tinham problemas de ereção”, destaca o urologista Sidney Glina, do Hospital Ipiranga e da Faculdade de Medicina do ABC.

De fato, segundo Glina, os fenômenos da ereção, do orgasmo e da ejaculação não estão necessariamente ligados. “Paraplégicos podem ter orgasmo sem ereção, e um camarada muito ansioso pode ejacular sem orgasmo.” O grupo da Weill Cornell sugere que seria interessante buscar drogas que atuem diretamente sobre o orgasmo.

Mas, para o urologista Carlos Alberto Bezerra, também da Faculdade de Medicina do ABC, a experiência clínica mostra que muitos homens não chegam ao clímax por falta de desejo pela parceira. “É preciso tratar o relacionamento também, com psicoterapia, por exemplo”, diz ele.

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