Joanete – Além da estética

O joanete é a patologia mais comum do pé adulto. Mais do que um incômodo visual, a protuberância óssea ao lado dos dedos dos pés costuma provocar muita dor. O problema pode ser amenizado, mas apenas uma cirurgia corrige a deformidade.

Pé de bode, pé de chaleira, pé de bailarina. Esses são alguns dos apelidos com os quais Ana Maria Costa Araújo, 40 anos teve que conviver durante a maior parte da vida por conta de uma protuberância no pé que chegou a entortar seus dedões, o joanete.
Há três décadas, a publicitária carrega em seus dois pés o problema, que se manifesta desde os 7 anos.
“Eles são enormes, as coisas mais horrorosas que já vi”, conta, aos risos.
“Ter joanete não é fácil.
Você quer escondê-los e, às vezes, não tem como.
Já pensei em fazer cirurgia por questões estéticas, mas desisti, com medo do pós-operatório”, conta.
Ana Maria relata que até os 20 anos só usava sapato fechado.
“Morria de vergonha dos meus pés.
Achava que eles chamariam a atenção.
E de fato chamaram”.
Isso porque quando a publicitária resolveu “assumir” os joanetes, surgiram os apelidos.
“No entanto, o que me incomoda mesmo são as dores e o inchaço no local.
Tem dia em que não consigo calçar sapatos”, diz.

A história de Ana Maria é semelhante à de milhares de pessoas que sofrem com a deformação no pé. Conhecido cientificamente como hálux valgo, o joanete é a patologia mais comum do pé adulto, embora também possa ocorrer em crianças e jovens, apesar de serem raros os casos – como o de Ana Maria.
Diferentemente do que muita gente pensa, o joanete não é um osso que cresceu, ou que surgiu, mas um desvio do primeiro metatarsiano (ossos do pé) e das falanges (ossos dos dedos), que se expressa como uma saliência na lateral do pé.
“A deformidade deve-se a desalinhamentos articulares e desequilíbrios musculares, causando o mau posicionamento dos ossos”, explica o ortopedista Marcelo Monteiro de Barros.

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As causas do joanete vão desde a predisposição genética, o pé plano (pé chato) e o pé egípcio – no qual o dedão é maior que o segundo dedo – até o uso de calçados inadequados, como os de bico fino, e o uso prolongado de salto alto.
“Normalmente, há um distúrbio básico no pé, como a predisposição para o aparecimento da deformidade e, com o uso prolongado do sapato inadequado e do salto, isso acaba acelerando o surgimento do joanete”, esclarece o ortopedista Denys Aragão.
No caso da publicitária Ana Maria, todas as mulheres da família têm joanete.
“Não poderia sair ilesa”, afirma.

De acordo com os médicos, a estimativa é de que 33% da população urbana tenham algum grau de deformidade. A incidência do joanete, porém, é muito menor – em torno de 2% – entre indivíduos que não têm o hábito de usar calçado fechado, como os índios. Em geral, para cada cinco mulheres, um homem desenvolve o joanete.
O próprio ortopedista Marcelo Monteiro de Barros passou pelo problema.
O médico atribui o surgimento do seu joanete ao tipo de pé.
“Na minha família, não há caso do problema, tampouco do uso repetido de salto alto.
O fato é que o meu pé é largo e grande.
Meu metatarso poderia ser varo e, com a sobrecarga mecânica do esporte e de contusões, pode ter desencadeado um desequilíbrio das forças musculares que provocaram o aparecimento do joanete”, explica.
O metatarso varo, ao qual Barros se refere, é a causa do hálux valgo juvenil – que, como o próprio nome sugere, ocorre em adolescentes e jovens.

Nesse caso, o joanete aparece por conta de algumas alterações que os médicos chamam de primeiro metatarso varo – o pé para dentro, que lembra a posição do membro dentro do ventre da mãe. “No hálux valgo juvenil, o metatarso aponta para dentro, deixando o pé mais largo.
No joanete, ocorre o contrário: o metatarso aponta para fora”, define o ortopedista.

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Prevenção

As queixas mais frequentes são as dores e o incômodo causados pelo joanete quando a pessoa calça sapatos fechados. Para isso, não há remédio. Alguns cuidados são essenciais para aliviar a dor. O mais importante é evitar o uso de salto alto e de calçados com bico fino. “Eles agravam o problema”, afirma Barros.
Os médicos recomendam também o uso de órteses (almofadas) entre o dedão e o segundo dedo ou no antepé e de sapatos confortáveis, feitos com materiais flexíveis e adequados ao tipo de pé.

Barros afirma, no entanto, que o problema é progressivo e que, com o tempo, vai se acentuar. “Não há um tipo de correção que se possa fazer do joanete que não seja o cirúrgico. Existe uma série de produtos no mercado para amenizar, mas eles não vão corrigir o problema. Isso funciona para quem vende, não para quem compra”, afirma o médico.

Segundo Aragão, contudo, a fisioterapia pode restringir outras deformidades causadas pelo desvio instalado. Na avaliação, identifica-se o grau de dor, os grupos musculares encurtados ou fracos e a alteração da postura, uma vez que ela gera compensações na forma de descarregar o peso e de pisar.
“Não adianta tratar somente o pé, uma vez que o conjunto de desequilíbrios está contribuindo para a deformidade.
O tratamento envolve o alongamento e o fortalecimento de grupos musculares das pernas, do quadril e da coluna”, explica a fisioterapeuta Viviane Leoncy.

Quando a dor se torna intolerável, é hora da cirurgia. “A indicação cirúrgica jamais será a estética”, diz Aragão. A administradora Nanete Ribeiro, 56 anos, operou o joanete há dois. “Deixei de usar salto alto e achei que o problema poderia regredir, mas estava enganada.
Chegou um momento em que não conseguia ficar de sapato, tamanha a dor.
Aguentei muitos anos de dores a toa”, relata.

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O que faz a maioria dos pacientes fugirem da cirurgia é a triste fama de que o pós-operatório é doloroso. No entanto, a técnica evoluiu. Hoje, existem equipamentos melhores, técnicas cirúrgicas mais bem desenvolvidas e mais cuidados na fase de recuperação. “Me diziam que o pós-operatório era péssimo, de muita dor.
Não é nada disso.
Não senti dor.
A única coisa ruim é que eu precisei ficar 30 dias sem pisar no chão”, lembra.
“Meu joanete desapareceu e o dedo voltou para o lugar, ficou retinho”, comemora.

Esse longo repouso após a cirurgia ocorre para não colocar em risco o procedimento. Por exemplo, se o paciente fez uma osteotomia – corte do osso – (veja infografia), que reposiciona o dedão, ele não deve pisar no chão. “O osso foi cortado e reposicionado.
Se houver uma carga em cima dele, o paciente vai ficar sem um bom posicionamento do dedão.
O uso de sapatilhas corretas, com palmilhas, é indicado por pelo menos quatro semanas após a cirurgia”, explica o ortopedista.

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