Osteoporose: o perigo de uma nova fratura

Números mostram que quem já teve fratura por osteoporose fatalmente terá outras. A principal forma de prevenção é cuidar dos ossos desde criança para preservá-los na velhice.

Com a idade, o corpo passa a ficar cada dia mais delicado. A osteoporose, doença que diminui a densidade dos ossos, tornando-os mais propensos a fraturas, é uma das condições que podem surgir com o avanço da idade. Lidar com o problema é complicado e exige atenção redobrada, uma vez que o principal objetivo é evitar que as fraturas aconteçam.

Viviane Peterle, reumatologista do Hospital Regional do Paranoá e coordenadora do Programa de Atenção à Saúde do Idoso, explica que já existem estatísticas que provam que quem já teve uma fratura por osteoporose fatalmente terá outras. “Quando o paciente se fratura, significa declínio da qualidade de vida”, completa.
“Se um osteoporótico cai, a fratura pode levar a comorbidades maiores, como ficar de cama.

O que deve ser feito, segundo a médica, é deixar o osso mais forte. “A melhor forma de fazer isso é cuidar dele desde criança”, ensina Peterle. Criar um osso considerado bom desde a infância ajuda a preservá-lo na velhice. Ainda de acordo com a especialista, um osso adequado tem densidade e qualidade.
“O osso é composto por uma matriz óssea formada por 90% de colágeno e 10% de outras proteínas”, detalha.
A relação entre esses componentes e os minerais ósseos define um osso saudável: constantemente, durante toda a vida do indivíduo, acontece a remodelação óssea, processo em que o osso muda de tamanho e de forma durante o crescimento.
“Esse processo de remodelação acontece sequencialmente e começa pela reabsorção, seguida da formação de um novo osso”, diz Viviane Peterle.
“Na osteoporose, há um desequilíbrio, uma vez que o organismo reabsorve mais do que forma um novo osso.

Pesquisa avalia equilíbrio e força muscular em mulheres com osteoporose no início da menopausa

A pesquisa avaliou se mulheres que estavam no período inicial da menopausa e tinham osteoporose lombar apresentavam menos equilíbrio ou força muscular na comparação com pessoas na mesma faixa etária (entre 55 a 65 anos) que não desenvolveram a doença.
 Depois de testes com 126 mulheres entre 2009 e 2010, uma pesquisa avaliou se aquelas que estavam no período inicial da menopausa e tinham osteoporose lombar apresentavam menos equilíbrio ou força muscular na comparação com pessoas na mesma faixa etária (entre 55 a 65 anos) que não desenvolveram a doença.
O resultado é que, no início da menopausa, as mulheres não têm alteração desses fatores, o que quer dizer que, se mantiverem o equilíbrio e a força, há menos risco de terem quedas ou fraturas no futuro.

O autor da pesquisa, Guilherme Carlos Brech, ortopedista do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, lembra que mulheres com osteoporose apresentam mais risco de quedas e fraturas.
“Mais exercícios no início da menopausa vão ajudar a fortalecer os músculos e estabelecer maior firmeza e força, com menos perda de equilíbrio e quedas.
Em mulheres com osteoporose isso seria ainda pior”, disse.

De acordo com o médico, a análise partiu de um estudo no qual foram comparados dois grupos de 15 mulheres cada. Em um deles, as mulheres sofriam de osteoporose e no outro, não.
Na análise principal, foram avaliadas 126 pacientes que viviam no período pós-menopausa, com idade entre 55 e 65 anos, atendidas no Instituto de Ortopedia e Traumatologia (IOT) e no Instituto Central do Hospital das Clínicas.

As participantes da análise responderam a questionários sobre o nível de atividade física e foram submetidas a uma avaliação do equilíbrio postural, força muscular de joelho, nível de vitamina D, entre outros pontos. Mesmo para mulheres com osteoporose, a prática de exercícios se aplica.
“Sabemos que em uma fase mais avançada da menopausa, as mulheres com osteoporose têm uma queda da força e do equilíbrio.
Isso ainda não aparece no início da menopausa, então se for mantida uma rotina de exercícios desde o início dessa fase possivelmente no decorrer [da menopausa] não vão ter esse risco de queda aumentado”, explicou Brech.

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O ortopedista ressaltou que outros estudos estão sendo feitos para aprofundar as questões de força muscular e equilíbrio associados à osteoporose. “Queremos entender por que em uma fase tardia da menopausa elas têm essa perda de equilíbrio e força.
Se é pela falta de atividade física ou por outro tipo de incapacidade, por medo de sair na rua e quebrar um osso”.

Campanha mundial em hospitais públicos busca prevenir fraturas de repetição

Objetivo é identificar as pessoas que já tiveram fratura por osteoporose. A Fundação Internacional de Osteoporose (IOF, a sigla em inglês) lançou em julho de 2013 no Rio a campanha mundial Capture the Fracture, que será  implantada nos hospitais públicos de todo o país.
Em um primeiro momento, a campanha abrangeu os hospitais públicos do estado do Rio.
O objetivo é identificar as pessoas que já tiveram fratura por osteoporose (doença que afeta os ossos, com perda de massa óssea).
 “Porque essas pessoas têm risco muito maior de ter uma segunda fratura do que aquelas, por exemplo, que têm osteoporose e nunca tiveram uma fratura antes”, disse à Agência Brasil o vice-presidente do Comitê de Doenças Osteometabólicas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia (Sbot) e chefe do Serviço de Ortopedia do Hospital Federal de Ipanema, Bernardo Stolnick.

A unidade do Ministério da Saúde já implementou a campanha há dois anos, por meio do Programa de Prevenção a Refraturas (PrevRefrat), considerado referência no mundo entre os serviços de excelência que adotam o parâmetro. O PrevRefrat servirá de modelo para os demais hospitais brasileiros, porque adota a linha e a filosofia da campanha da IOF.

A campanha informativa da Sbot regional Rio de Janeiro, lançada na mesma época,  em todos os hospitais públicos do estado que tenham ambulatório de ortopedia ou emergência ortopédica.
O objetivo é orientar as pessoas que já tiveram fratura por fragilidade óssea, ou seja, que decorre de uma queda simples, a ligar para o Prevrefrat para agendar consulta e tratamento.
O programa do Hospital Federal de Ipanema tem, no momento, 250 pacientes em tratamento, sendo que apenas cinco tiveram refratura.
“Ou seja, temos uma taxa de refratura de 2%.
Provavelmente, é a melhor taxa do mundo”, avaliou Stolnick.

Segundo o especialista, já está comprovado o sucesso da filosofia da campanha da IOF em relação à gestão pública dos pacientes que têm osteoporose.
Além de maior risco de ter as chamadas fraturas de repetição, esses pacientes apresentam mais taxas de internação e reinternação, “gerando um custo social, humano e financeiro grande para todos os países”.

A pior das fraturas é a de fêmur, que exige cirurgia e internação e tem elevada taxa de mortalidade. Stolnick informou que 50% das pessoas que tiveram esse tipo de ocorrência, “antes disso tiveram outra fratura qualquer”.
Ele explicou que, se houver a intervenção em pacientes depois desse primeiro caso, consegue-se reduzir entre 50% e 60% a ocorrência de fratura de fêmur.
 Stolnick disse ainda que existe o compromisso de reduzir em 20% a incidência de fratura de fêmur em todo o mundo até 2020.
“A única forma de fazer isso é intervindo em relação a esses pacientes” – daí a importância de lançar a campanha no Brasil.
O chefe do Serviço de Ortopedia do Hospital Federal de Ipanema ajudou a elaborar o painel de boas práticas da campanha.

Dados da IOF mostram que uma fratura por osteoporose ocorre a cada três segundos no mundo, correspondendo a 25 mil casos por dia ou 9 milhões por ano. Stolnick acrescentou que uma fratura vertebral ocorre a cada 22 segundos. “Uma em cada quatro mulheres depois dos 50 anos de idade vai ter uma fratura osteoporótica e um a cada cinco homens também”.
Só que os homens não parecem se preocupar com a osteoporose.
Ele alertou que, com o aumento da longevidade da população, haverá mais gente com essa deficiência óssea e tendo fraturas.
No Brasil, a estimativa é que 10 milhões de pessoas tenham osteoporose hoje.

A projeção para 2050 é que haverá uma fratura de quadril na América do Sul a cada 72 segundos, com base no crescimento da população e no aumento da longevidade. “Então, é imperioso que você reduza esse número de fraturas. E a melhor forma, mais efetiva e mais barata é intervir em relação aos pacientes que já tiveram fratura por osteoporose.
Esta é a base da campanha”, reiterou.

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O que é o Prevrefrat?

Iniciativa pioneira no país pode gerar economia na saúde pública ao prevenir fraturas subsequentes à primeira em casos de osteoporose.
 Premiado internacionalmente, o programa Prevrefrat, implantado no Hospital Federal de Ipanema por um dos membros da comissão científica da ABRASSO, já evitou que mais de 90% dos portadores da doença atendidos no local quebrassem algum dos ossos novamente em função de acidentes de baixo impacto.

Quando uma pessoa com 45 anos ou mais sofre algum tipo de fratura em função de uma queda da própria altura ou menor, ela provavelmente tem osteoporose ou algum outro tipo de doença osteo-metabólica. Mesmo assim, a maior parte dos médicos que atende casos como esse costuma lidar apenas com a lesão, em si, sem investigar as causas do problema.
Como resultado, esse mesmo paciente tende a sofrer uma nova fratura por baixo impacto em cerca de dois ou três meses, já que ainda permanece como portador de fragilidade óssea.
“Esse processo demanda, além de mais remédios, um novo atendimento.
Por isso, aumenta a fila nos hospitais públicos, onde alguns dos gastos mais altos são gerados, justamente, em função desse tipo de problema.
E, isso, tanto no Brasil, quanto no exterior”, revela o ortopedista, Bernardo Stolnicki, membro da comissão científica da Associação Brasileira de Avaliação Óssea e Osteometabolismo (ABRASSO) e presidente do Comitê de Doenças Osteometabólicas da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Osteometabolismo (SBOT).

Origem

Com o objetivo de reduzir o impacto sócio-econômico da doença, o Dr. Stolnicki implantou, de maneira pioneira no país, o Programa de Prevenção a Refraturas (Prevrefrat).
Presente em países da América do Norte e Europa, esta iniciativa promove ações de diferentes tipos com o objetivo de evitar fraturas subsequentes à primeira em pacientes com osteoporose.
“Essa estratégia pode reduzir significativamente os custos da doença ao SUS, ao evitar novos cuidados com o mesmo paciente”, afirma o Dr.
Bernardo.
“Além disso, traz melhoras significativas à qualidade de vida dos idosos, à medida que reduz bastante as chances de fraturas de difícil tratamento, como as de quadril, por exemplo”, explica o ortopedista da ABRASSO.

Resultados

Desde que foi iniciado no Hospital Federal de Ipanema, o Prevrefrat já atendeu 320 pacientes. Destes, mais de 90% jamais quebraram um osso novamente, desde que foram encaminhados ao programa, após a primeira fratura causada pela osteoporose. “Em função desse desempenho fomos premiados pela International Osteoporosis Fundation (IOF)”, conta o Dr.
Bernardo.
“Tal reconhecimento nos incluiu dentro do mapa de melhores práticas da instituição, onde somos apontados como um dos principais Prevrefrats do mundo”, comemora o médico.

Metodologia

Para atingir resultados tão expressivos, o programa propõe ações preventivas relativamente simples. A primeira delas é sugerir que pacientes com o perfil de quem costuma ter osteoporose sejam encaminhados ao Prevrefrat, logo após a sua primeira fratura. Ao chegar, a pessoa faz um Rio-X da coluna e passa por uma densitometria óssea.
Se a osteoporose for identificada como doença primária, o individuo avança para a próxima fase do programa.
Se não, é reencaminhado.
“Assim fazemos uma triagem e selecionamos quem realmente precisa do tipo de tratamento que oferecemos.
Afinal, muitos apresentam perda de massa óssea como consequência de outros problemas de saúde.
Por isso, precisam solucioná-los primeiro antes de nos procurar”, explica o Dr.
Bernardo.
“Vale lembrar que essa espécie de “pente fino” também traz economia para o SUS, ao evitar que quem não tem osteoporose primária consuma medicamentos ou realize procedimentos médicos em vão”, esclarece o ortopedista da ABRASSO.

Conscientização

No segundo estágio, o paciente com diagnóstico compatível com o programa passa a ser medicado e a tomar suplementação de cálcio e vitamina D. Paralelamente, recebe dicas de como praticar atividades físicas leves com auxílio de um DVD educativo. Em seguida, é orientado a retornar ao Prevrefrat de três em três meses, durante um ano.
A intenção é apresentar ao paciente a sua própria evolução e alertá-lo constantemente sobre os riscos de não prosseguir com o tratamento.
“Por incrível que pareça, a maioria das pessoas com osteoporose não sabe que pode ter uma nova fratura em função da doença e deixa de tomar os remédios que precisa”, conta o Dr.
Bernardo.
“Por isso, quando nossos pacientes retornam às consultas mostramos de forma clara quais chances eles têm de sofrer novas lesões no estágio em que estão do tratamento.
Isso cria em cada um a consciência de que precisam continuar se cuidando até que se recuperem totalmente”, afirma o dr Bernardo ressaltando que, desde março, o Preverefrat conta com uma nova unidade no Hospital Regional do Paranoá, em Brasília.

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Brasileiros desconhecem perigo da osteoporose

Caracterizada pela redução da quantidade e da qualidade da massa óssea, a osteoporose apresenta estatísticas alarmantes. Mais de 30% das mulheres na pós-menopausa e 15% dos homens acima de 50 anos são acometidos pela doença no Brasil.
Se não bastasse, a osteoporose é, hoje, a principal causa de fraturas por baixo impacto, especialmente em mulheres na pós-menopausa e em idosos, e pode levar a complicações sérias como dores crônicas, dificuldade para locomoção e, conseqüentemente, deterioração da qualidade de vida.

Apesar da gravidade, os brasileiros desconhecem esta enfermidade. Segundo um estudo realizado pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), 90% dos entrevistados já tinham ouvido falar em osteoporose mas não sabem de detalhe algum sobre o assunto.
Em torno de 70% das mulheres e 85% dos homens que já haviam apresentado uma fratura por fragilidade óssea desconheciam que a mesma tinha sido causada pela osteoporose.
A pesquisa conclui que os brasileiros já ouviram falar da doença, sim, mas não sabem como preveni-la, como tratá-la ou mesmo a especialidade médica que deve procurar.

Batizada de Brazos (The Brazilian Osteoporosis Study), a pesquisa da UNIFESP entrevistou 2.420 pessoas acima de 40 anos, em 150 municípios de todas as regiões do país. O que chamou a atenção dos pesquisadores é que apenas 6% dos entrevistados sabiam que eram portadores da doença – o indicado por padrões internacionais é de 30%.
“Esta é uma pesquisa muito pertinente porque as pessoas só costumam se consultar quando sentem dores constantes.
Mas a osteoporose é conhecida como uma epidemia silenciosa.
Na maior parte das vezes, a dor surge apenas quando ocorrem numerosas fraturas, geralmente na coluna, o que traz dor crônica e até incapacidade”, avalia o fisiatra e reumatologista Haim Maleh, do CREB – Centro de Reumatologia e Ortopedia Botafogo.

Outra estatística reforça a gravidade do assunto: fraturas vertebrais aumentam em até 8 vezes a taxa de mortalidade. E não é só. Estudos apontam que 40% das mulheres acima dos 50 anos vão desenvolver osteoporose em algum momento de suas vidas. Mas desse total, apenas 3 em cada 10 terão a doença diagnosticada.
“É importante divulgar a osteoporose, seus efeitos e tratamentos.
A doença pode ser tratada e podemos oferecer ao paciente a qualidade de vida desejada.
Os principais fatores de risco são idade avançada, baixo peso, raça caucasiana, histórico familiar, deficiência hormonal, dieta pobre em cálcio, uso de determinadas medicações como corticóides, fumo, álcool e uma vida sedentária”, diz o médico.

O diagnóstico da osteoporose, diz o Dr. Haim, é feito através da densitometria óssea, um exame preciso, simples e indolor que pode ser comparado a uma “radiografia” do corpo. “Centros modernos fazem o exame onde é possível prever o risco de fratura do paciente pelos próximos 10 anos.
Assim, é possível prevenir sérios problemas no futuro”, avisa o médico.
“A prevenção começa cedo.
É preciso ter uma dieta rica em cálcio desde a infância, manter atividade física regular, além de evitar o consumo de álcool e fumo”, finaliza ele.

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