Raiva – Saiba o que é, sintomas e tratamentos

Algumas infecções de raiva podem não ser letais, mas tome muito cuidado com mordidas de cachorro.

No ano passado uma equipe de pesquisadores do Peru e dos Estados Unidos fizeram uma descoberta que desafiou um dos pressupostos mais difundidos sobre a raiva: que o vírus é quase sempre fatal, a menos que médicos administrem a vacina antes de ele atingir o cérebro.
Com base em resultados de exames  de sangue cientistas souberam que meia dúzia de moradores de uma parte remota da Amazônia peruana foi infectada, provavelmente por mordidas de morcegos hematófagos, comuns na área; mas em vez de sofrer a morte agonizante que concedeu fama à raiva, eles se recuperaram e parecem ter desenvolvido imunidade a novas infecções.

A descoberta colocou os peruanos num pequeno conjunto de pessoas que sobreviveram à raiva sem vacina. O mais conhecido membro desse seleto grupo é Jeanna Giese, adolescente de Wisconsin que superou a doença em 2004, também após contato com um morcego.
O médico de Giese, desesperado, improvisou um tratamento arriscado que incluiu colocar a garota em coma induzido, o que aparentemente permitiu tempo suficiente para que seu corpo destruísse o invasor microscópico.
Desde então, médicos refinaram o tratamento, agora conhecido como protocolo de Milwaukee, e o experimentaram em pelo menos outros 40 pacientes não vacinados.
Mais de cinco sobreviveram.

As taxas variáveis de sucesso e o estudo de 2012 no Peru ressaltam a falta de conhecimento científico sobre a raiva, apesar de seu longo histórico como ameaça para a humanidade. Baseados no acúmulos de evidências, porém, cientistas agora reconhecem que nem todas as infecções de raiva são iguais ou universalmente fatais.
Muitos animais diferentes, inclusive cães, morcegos, raposas e guaxinins, portam  várias cepas do vírus causador da doença.
As variedades em morcegos e raposas parecem mais fracas, e o sistema imune de algumas pessoas pode ser capaz de derrotá-las sem vacina.
Os cães, no entanto, carregam uma cepa mais virulenta raramente vencida sem intervenção médica.
Até o momento os caninos permanecem o maior e mais perigoso grupo de hospedeiros da raiva em todo o mundo.

Mesmo se os médicos chegarem a aperfeiçoar um tratamento para os últimos estágios da raiva o procedimento seria provavelmente complexo e caro.
A maioria dos especialistas em saúde pública acredita que a melhor forma de controlar a raiva é vacinando os hospedeiros mais perigosos: todos os cães domésticos e de rua, especialmente no mundo em desenvolvimento.
Um desses programas veterinários nas Filipinas reduziu drasticamente mortalidade humana pela doença, e outros estão em andamento na Índia e na Tanzânia.

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Doença temida

A raiva mata cerca de 55 mil a cada ano em todo o mundo, número reconhecidamente menor que, por exemplo, a aids ou a influenza. A reputação terrível do vírus é, no entanto, merecida. Os sintomas de contaminação surgem lentamente em poucas semanas a mais de um ano (em casos raros) após um contato com um animal infectado.
O vírus da raiva desloca-se de célula a célula nervosa cobrindo a distância entre o local da picada ou do ferimento até o cérebro.
Aos poucos, fadiga, febre e calafrios dão lugar a alucinações, ansiedade, convulsões violentas e à reveladora espuma na boca, assim que o vírus atinge as glândulas salivares.
A morte é dolorida e terrível, motivo pelo qual a prática médica padrão determina manter o paciente sedado nas últimas fases da doença.

O desenvolvimento de uma vacina antirrábica por Louis Pasteur, em 1885, impedia essas consequências terríveis se os médicos agissem rapidamente.
Mais de um século depois, a maioria das mortes por raiva no mundo industrial – inclusive uma ou duas a cada ano nos Estados Unidos – ocorre ocorre porque a mordida não foi reconhecida ou não levada a sério.
Mas o sucesso de Pasteur levou a uma consequência não intencional.
A raiva passou a ser uma doença de baixa prioridade para a pesquisa biomédica florescente, de acordo com o livro Rabid: a cultural history of the world’s most diabolical virus [Raiva: a história cultural do vírus mais diabólico do mundo], (Viking Adulto), publicado em 2012.

Então, quando Giese, de 15 anos, entrou no Children’s Hospital of Wisconsin, Milwaukee, em 2004, com raiva totalmente desenvolvida um mês após a mordida de um morcego da igreja que frequentava, ainda não havia um tratamento bem-sucedido. Ela estava febril, semiconsciente e se contorcia involuntariamente.

Seu médico, Rodney E. Willoughby Jr., especialista em doenças infecciosas infantis, nunca havia visto um caso de raiva. Vasculhou a literatura escassa e encontrou um fio de esperança: um experimento em que ratos anestesiados, de alguma forma, conseguiam se recuperar de infecção.
O vírus da raiva interrompe a comunicação elétrica e química entre neurônios no tronco cerebral que, então, perde a capacidade de regular o coração e os pulmões.
Talvez, raciocinou Willoughby, silenciando eficazmente o cérebro com anestésicos gerais e mantendo a paciente em uma máquina de circulação extracorpórea e respirador mecânico – o sistema imune tivesse tempo suficiente para destruir o vírus.
Ele decidiu experimentar.

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Contra todos os prognósticos a terapia foi bem-sucedida. Giese sobreviveu à tempestade viral, embora tenha sofrido dano cerebral e passado dois anos reaprendendo afalar, levantar e andar. Ela se formou na faculdade em 2011 e agora trabalha cuidando de animais e fazendo palestra motivacionais.
Enquanto isso Willoughby continuou a aperfeiçoar sua intervenção, mas mesmo ela admite ser improvável ajudar muitas pessoas com ela, que exige muitos recursos.

Alguns pesquisadores questionam se o protocolo de Milwaukee é verdadeiramente eficaz.
Esses opositores propuseram que o verdadeiro segredo para a sobrevivência de pelo menos alguns pacientes é o fato de terem sido mordidos por outros animais que não cães, transmissores de quantidades muito pequenas do vírus da raiva ou de cepas que o sistema imune humano pode eliminar por conta própria.

Portadores caninos

Enquanto médicos debatem em torno do protocolo de Milwaukee especialistas em saúde pública concordam que a forma mais eficaz de lidar com a raiva é deter a fonte da doença. Globalmente, os cães domésticos e de rua são responsáveis por quase todas as 55 mil mortes anuais por essa contaminação, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS).
A carga tende a cair mais fortemente sobre pessoas (especialmente crianças) em áreas rurais, com acesso limitado às vacinas antirrábicas aplicadas anualmente a mais de 15 milhões de pessoas para tentar impedir a doença após a exposição.

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Isso deixa a prevenção da raiva em cães como a melhor opção para reduzir o número de mortes em humanos. Com base puramente econômica, a vacinação em massa de cães certamente faz sentido.
Vacinas caninas não são apenas mais baratas que injeções para pessoas, mas muito menos caras que o tratamento crítico de cuidados intensivos em um caso de raiva humana.
Mas, politicamente falando, pode ser difícil chamar a atenção para a saúde e o bem-estar de cães quando as necessidades das pessoas são mais evidentes em muitas partes do mundo, avalia Charles Rupprecht, ex-chefe de Controle da Raiva no U.
S Centers for Disease Control and Prevention e agora diretor de pesquisas da organização sem fins lucrativos Global Alliance for Rabies Control (GARC).
“A medicina aborda questões de sáude humana e a agricultura trata da pecuária – cães não integram nenhum dos dois grupos.
É preciso enxergar que esse é um problema de saúde pública: vacinar cães diminui casos de raiva humana, e os recursos para a saúde pública pode ser aplicados em outras áreas.

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Apesar dos números assustadores – segundo um estimativa, o número de cães de rua no mundo é de 375 milhões -, pesquisadores do GARC acreditam que os programas de vacinação de cães são logisticamente viáveis e criaram projetos-pilotos na África e na Ásia (alguns com apoio da Fundação Bill & Melinda Gates).
Na ilha filipina de Bohol (população humana de 1,3 milhão) pesquisadores vacinaram cerca de 70% da população canina.
Antes de 2007, cerca de dez pessoas morriam de raiva a cada ano; desde 2008, apenas uma pessoa foi vítima da doença.

Convencer pessoas a vacinar seus animais de estimação nem sempre é fácil. Lidar com cães de rua é ainda mais desafiador.
Devido ao aumento incessante do número de mortes por raiva na China rural, principalmente no sul, o país organizou várias matanças de cães, que especialistas em controle de doenças e ativistas dos direitos dos animais criticaram duramente.
Mesmo que a eliminação seja eficaz em curto prazo é inevitável que as populações de rua voltem a crescer , assim como o vírus.
Enquanto isso, a popularidade de manter cães como animais de estimação – cerca de metade dos quais pode não ser vacinado – continua a aumentar à medida que trabalhadores chineses melhoraram seu padrão de vida.

Talvez a vacinação de cães se torne mais viável quando pesquisadores descobrirem como eliminar as injeções, que exigem cercear animais, além de refrigeração e armazenamento adequados das vacinas.
Alguns projetos especialmente promissores usam alimentos com vacinas, semelhantes a blocos de farelo de peixe tratados, utilizados para controlar a raiva em guaxinim, nos Estados Unidos.
Alguns dos alimentos incluem contraceptivos para reduzir o número de recém-nascidos não vacinados e diminuir o tamanho das populações de ruas.

Rupprecht destaca que se essas vacinas para cães, ainda em desenvolvimento, puderem ser comercializadas encontrariam mercado pronto na China e na Índia, países com as maiores populações de cães de rua e mais mortes por raiva.
O Know-how comercial necessário e a capacidade técnica já estão lá: China e Índia são os maiores países fabricantes de vacina no mundo em desenvolvimento.

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