Sem temor: câncer ainda carrega estigma, mas terapias estão mais eficazes

No dia nacional de combate à doença, Inca divulga estimativa para 2016-2017. Visto como mortal, mal tem alta chance de cura quando detectado no início.

O Dia Nacional de Combate ao Câncer celebrado nesta sexta-feira (27/11) foi criado para mobilizar a população quanto aos aspectos educativos e sociais no controle da doença. Isso inclui um novo olhar sobre a ideia disseminada na sociedade de uma patologia simplesmente mortal.
As drogas-alvo e a imunoterapia representaram uma nova e eficiente abordagem do câncer, ampliando a sobrevida e a qualidade de vida mesmo de pacientes em estágio avançado da doença.
Mesmo assim, persiste a correlação entre receber o diagnóstico de câncer e a sentença de morte.

Nem o aumento de casos e o fato de sempre conhecermos algum paciente com câncer foram capazes de mudar o estigma sobre a doença. Só no Brasil, foram previstos 576 mil novos casos para 2015. Os números só crescem.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a doença registra, anualmente, e em todo o mundo, 14 milhões de novos casos e 8 milhões de mortes.
Uma análise da entidade aponta que o número de novos casos de câncer deve aumentar 70% nas próximas duas décadas, passando para 22 milhões.

O câncer ainda tem alto índice de mortalidade, principalmente por causa do diagnóstico tardio, quando a doença já se encontra em estágio avançado. Esse fato, contudo, não justifica a continuidade desse estigma.
Segundo a oncologista Carolina Rutkowski, da Oncomed, é importante explicar aos pacientes que o câncer, hoje, é uma doença crônica que se trata por muito tempo, sendo possível viver longamente.
“Diabetes, hipertensão e insuficiência cardíaca são doenças crônicas incuráveis, mas ninguém se assusta tanto como quando tem câncer.
É o caso de um câncer de próstata indolente em um senhor de 85 anos.
Certamente, não é isso que vai matá-lo, mas um diagnóstico de diabetes não reuniria todos os filhos no consultório”, diz.

Os efeitos colaterais do tratamento, o fato de o cabelo cair e o paciente poder ser reconhecido na rua reforçam o estigma. Segundo a psicóloga Francine Rosa Portela, especialista em psicologia oncológica, essa ideia é uma construção do senso comum. “Muitas vezes, a palavra câncer é usada como sinônimo de um mal da sociedade.
A doença ainda é vista como algo ruim, assim como foi a tuberculose no passado.
Os impactos do tratamento, visíveis fisicamente, também colaboram com essa visão”, afirma a coordenadora do Serviço de Cuidados Paliativos do Hospital Alberto Cavalcanti/Fhemig.

Apoio

Para Francine, a visibilidade de campanhas como o Outubro Rosa, nas quais as mulheres assumem a doença e lutam pela possibilidade de alertar sobre a prevenção do câncer de mama, tem ajudado a tornar o tema mais próximo do nosso cotidiano, assim como o exemplo de pessoas públicas que divulgaram ter o diagnóstico, falaram sobre as dificuldades de enfrentamento da doença e o tratamento, caso da apresentadora de TV Ana Maria Braga e do ator Reynaldo Gianecchini.
“Isso tem um impacto extremamente positivo, contribuindo na mudança para a imagem de que ter câncer é estar fadado à morte para: é possível ter câncer, realizar o tratamento, ter qualidade de vida e prosseguir” comenta.

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O apoio emocional e psicológico aos pacientes por profissionais de saúde especializados e uma equipe interdisciplinar é essencial para auxiliá-los no enfrentamento dessa doença crônica, ajudando a assimilar as etapas do tratamento e dando apoio para a qualidade de vida, não permitindo que a rotina se reduza à ideia de “tenho uma doença: o câncer”.
O apoio dos familiares, amigos e pessoas queridas é essencial, potencializando positivamente a adaptação a esse momento da vida.

Perfil mundial

Entre os homens, os cinco tipos mais comuns de câncer são pulmão, próstata, colorretal, estômago e fígado. Entre as mulheres, os principais são mama, colorretal, pulmão, cérvix e estômago.
De acordo com a OMS, um terço das mortes por câncer é resultado de cinco riscos comportamentais e alimentares: alto índice de massa corporal, baixo consumo de frutas e verduras, falta de atividade física, uso de tabaco e consumo de álcool.
O tabaco aparece como principal fator de risco, respondendo por cerca de 30% das mortes pela doença e por 70% das mortes por câncer de pulmão em todo o mundo.

Avanços no tratamento

A forma como as pessoas reagem ao câncer tem mudado. Persiste o estigma, mas ele já foi maior no passado. Mesmo assim, ainda existem pessoas que sequer pronunciam o nome da doença, que pensam que ela precise ser escondida ou, pior, são desinformadas ao ponto de achar que é contagioso.
Pouco tempo atrás, não havia muito o que fazer diante de um diagnóstico de câncer.
“Era descobrir e esperar a evolução”, conta a oncologista Carolina Rutkowski.
Segundo ela, há cânceres com elevadas taxas de cura.
Caso do de mama, que tem 90% de chances, se descoberto em fase inicial.
“Isso é mais do que muitas doenças com as quais ninguém se assusta”, diz.
Em termos de tratamento, houve grande mudança com a chegada de drogas que dão possibilidade de maior sobrevida e mais qualidade de vida a pacientes com a doença avançada.
 “As drogas-alvo mudaram paradigmas na oncologia.
A imunoterapia também é um novo caminho.
Antes, o câncer era abordado com quimioterapia, com medicações que agem na célula que replica muito, mas com muitos efeitos adversos”, explica.

Com a terapia-alvo, é possível identificar mutações ou receptores nos tumores e a droga passa a agir apenas sobre eles. “É um tratamento mais específico, eficaz e com menos efeitos colaterais”. A imunoterapia age de outra forma. “Tudo que é estranho ao organismo gera uma resposta imunológica, e o corpo combate.
A célula cancerígena gera artefatos para inibir o corpo de combatê-la, inibindo o sistema imunológico, e assim consegue se multiplicar.
A imunoterapia reativa esse sistema imunológico desativado, permitindo ao corpo voltar a combater a neoplasia”, explica a oncologista.

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Oncogenética

Outra esperança vem da oncogenética, que permite identificar indivíduos com risco de ter a doença. Para o oncologista Renato Nogueira Costa, diretor do Instituto Felício Rocho de Oncologia, esses devem merecer maior atenção médica e aderir mais intensamente a programas de prevenção.
“Dessa forma, poderão não apenas evitar a doença, mas promover sua cura em tempo hábil, antes que ela dê metástases”.
Para ele, a biologia molecular (campo de estudo das interações bioquímicas celulares envolvidas na duplicação do material genético e na síntese proteica) permite a detecção de um câncer muito antes que qualquer método sofisticado de imagem o faça.

“Ela é capaz de classificar o câncer em diversos subtipos e direcionar o tratamento. Precisamos estar cientes de que câncer é uma palavra que engloba centenas de doenças. E não se pode tratar doenças diferentes da mesma forma”, defende.

Confiante na cura

Aos 40 anos, a administradora Ana Carolina Queiroga (foto ao lado) está cheia de planos para quando terminar seu tratamento contra o câncer de mama, iniciado em 2011. Antes de tirar o tumor, ela congelou embriões para realizar o sonho de ser mãe, o que será possível depois de 2017, quando acaba o tratamento medicamentoso.
Ana descobriu que tinha câncer um mês antes de completar 35 anos.
E sim, teve muito medo.
“Senti o nódulo durante o autoexame.
Só de tocá-lo pensei que não era coisa boa e chorei”.
Da suspeita ao diagnóstico, ela viveu momentos de muita ansiedade.
“Fazia os exames na companhia do meu marido e chorava muito.
Tive muito medo de ouvir que era câncer e quando confirmaram, achei que ia morrer, que meus sonhos de ter família e crescer profissionalmente terminavam ali.
Parece sim uma sentença de morte.
Temos medo de morrer, do sofrimento, de ficar debilitados”, diz.
Mas a convivência com outros pacientes e as novas etapas do tratamento mudam o sentimento.
“Quando aceitamos a doença é que percebemos que não vamos morrer dela, necessariamente.
O diagnóstico é momento de medo.
Depois vem a revolta e a depressão.
Quando entendemos que não há muito o que fazer e aceitamos, as coisas fluem melhor.
Se temos a doença, devemos nos perguntar: faço o tratamento de cabeça erguida ou vou ficar me lamuriando?”

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Brasil deve ter quase 1,2 milhão de novos casos de câncer em dois anos

Envelhecimento da população é um dos fatores que contribuem para a incidência da doença no país.

Quase 600 mil brasileiros desenvolverão novos casos de câncer em 2016, estima o Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca). Para o ano seguinte, a previsão é que esse número se repita, chegando a quase 1,2 milhão de casos em dois anos.

A estimativa para os anos de 2016 e 2017 foi divulgada nesta sexta-feira (27/11), como parte da campanha do Dia Nacional de Combate ao Câncer. De acordo com o instituto, 300.870 mulheres e 295.200 homens devem apresentar a doença por ano. O câncer de pele não melanoma deve ser o de maior incidência no país para ambos os sexos, com 175.
760 casos previstos por ano, número que corresponde a 29% dos casos estimados.

O segundo câncer mais incidente em mulheres deve ser o de mama, com 57.960 casos em cada ano. Em homens, o de próstata deve vir em seguida, com 61.200 casos. As mulheres terão ainda entre os tipos mais incidentes o de cólon e reto, com 17.620, o de colo do útero, com 16.340, e pulmão, com 10.860.

Para os homens, o câncer de pulmão será o terceiro mais incidente, com 17.330, seguido do de cólon e reto, com 16.660, e do de estômago, com 12.920 novos casos estimados para cada ano.

Fatores relacionados

O envelhecimento da população é um dos fatores que contribuem para a incidência da doença no país, assim como a qualidade das informações e da assistência prestada, mas o instituto destaca que o excesso de gordura corporal está relacionado a casos como o de cólon e reto, mama, ovário e próstata.
O tabagismo é outro fator relacionado a casos de câncer, como pulmão, laringe e esôfago.

Para o vice-diretor-geral do Inca, Luiz Felipe Ribeiro, a prevenção do câncer deve ser um tema que mobilize não apenas o governo, mas também toda a sociedade: “Esse desafio é da população brasileira como um todo. Cabe a cada cidadão fazer o seu papel para que a gente possa reverter esses quadros.”

Comparativo

Segundo o Inca, não é possível comparar as estimativas para 2016 e 2017 com os anos anteriores, por mudanças na metodologia e na base de dados. As informações são usadas para o planejamento de políticas públicas de saúde. O instituto chama a atenção para o fato de que 60% dos casos de câncer no Brasil são diagnosticado em estágio avançado.

Atualmente, o câncer é a segunda maior causa de morte no Brasil, com 190 mil casos por ano, mas o Inca prevê que, em 2020, a doença ocupe a primeira posição.

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