Serviço noturno: vale a pena trocar o dia pela noite?

Privação do sono pode ser causa de problemas cognitivos até obesidade. Cada etapa da vida tem um período recomendado de descanso. Os efeitos também variam com a idade. ”Somos uma sociedade privada de sono.
E pagamos por esse problema muitas vezes de uma forma que não percebemos” – Aneesa Das, diretora assistente do Programa do Sono do Centro Médico da Universidade do Estado de Ohio.

Os bebês têm cansaço crônico, as crianças ficam hiperativas e os adultos ganham peso. Todos – sem exceção – pagam um preço alto por não dormir. É uma hora hoje, outra no dia seguinte e mais duas na próxima semana. Acumuladas ao longo dos meses e dos anos, fica impossível compensá-las. “Somos uma sociedade privada de sono.
E pagamos por esse problema muitas vezes de uma forma que não percebemos”, alerta Aneesa Das, diretora assistente do Programa do Sono do Centro Médico da Universidade do Estado de Ohio, nos Estados Unidos.
“Dependendo da idade, o sono pode afetar tudo: o peso, a pele, o coração; e levar algumas pessoas a desenvolver problemas de saúde muito graves.

Quando um indivíduo dorme, músculos e outros tecidos do corpo são reparados. Os hormônios que controlam o crescimento, o desenvolvimento e o apetite são liberados. A energia é restabelecida e as memórias, solidificadas. Todos esses processos justificam a necessidade da regularidade do sono.
Diferentemente do imaginado, as crianças que não dormem o suficiente nem sempre ficam letárgicas, como os adultos.
Em vez disso, se tornam hiperativas e irritáveis.
“Isso pode ter um impacto sério no desempenho escolar.
Se não for abordado, pode até mesmo afetar o sistema imunológico, o que significa que elas ficarão doentes com mais frequência.

Poucas horas dormidas durante a infância podem, inclusive, indicar transtornos psiquiátricos não diagnosticados.
Um estudo do programa de pediatria do Hospital Bradley, em Rhode Island, nos EUA, concluiu que dificuldades no sono, especialmente para adormecer, eram muito comuns em garotos e garotas que, ao longo dos anos, receberam tratamento clínico de uma grande variedade desse tipo de distúrbio.
O trabalho foi publicado na última edição da revista científica Psiquiatria Infantil e Desenvolvimento Humano.

Segundo o principal autor, John Boekamp, as dificuldades mais relatadas pelos pequenos são dificuldade para ir para a cama, para cair no sono e despertares noturnos frequentes. Juntos, esses problemas são chamados de insônias comportamentais da infância. “Essencialmente, essas crianças podem estar presas em um ciclo.
A interrupção do sono afeta seus processos psiquiátricos, que, desregulados, afetam a organização vigília-sono”, explica Boekamp.

Produtividade sonolenta

Mesmo conhecidos por dormirem demais, os adolescentes têm argumentos suficientes para que a implicância dos pais não seja suficiente para acordá-los. Um estudo sueco divulgado no início deste mês mostra que os jovens com distúrbios do sono ou mesmo que dormem menos que o habitual são menos propensos a ter sucesso acadêmico.
A pesquisa, divulgada na edição mais recente da revista Sleep Medicine por pesquisadores da Universidade de Uppsala, envolveu mais de 20 mil pessoas com 12 anos a 19 anos.
Cerca de 30% dos participantes relataram problemas de sono regulares.
À medida que esses adolescentes envelhecem, a dificuldade para dormir começa a cobrar um pedágio maior, associando-se, por exemplo, a doenças cardíacas, diabetes e depressão.

O resultado não é só uma queda na saúde individual, mas pode significar também um problema econômico para o país. Segundo Lallukka Said, pesquisador do Instituto Finlandês de Saúde Ocupacional Especializada, dormir de sete a oito horas por noite está associado ao menor risco de afastamento do trabalho por motivo de doença.
Sua atual pesquisa na área mostra que a possibilidade de uma ausência prolongada por motivo de doença aumenta fortemente entre profissionais que relatam dormir menos de seis horas ou mais de nove horas por noite.
Em uma análise mais aprofundada, Said chegou à duração do sono ideal: 7 horas e 38 minutos para as mulheres; e 7 horas e 46 minutos para os homens.

O sono insuficiente também contribui para o risco de várias epidemias de saúde pública, incluindo doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade. “Sintomas de insônia devem ser detectados cedo para ajudar a prevenir a ausência por doença e a deterioração da saúde, do bem-estar e do funcionamento do indivíduo”, acredita Said.
“O sucesso na prevenção da insônia não só promove a saúde e capacidade para o trabalho entre os funcionários, mas pode levar a economias significativas com a redução dos custos de ausência por doença.

Pior para o cérebro

O órgão que mais sofre com a falta do sono é o cérebro. Pesquisadores acreditam que poucas horas com a cabeça no travesseiro podem resultar no envelhecimento precoce dos neurônios ou até na diminuição do importante órgão. Com o passar do tempo, adultos mais velhos ou idosos dormem cada vez menos.
Mas, se a busca for pela jovialidade cerebral, é melhor prolongar a soneca.
Cientistas da Escola Médica em Cingapura da Universidade de Duke descobriram que, quanto menos os adultos mais velhos dormem, mais rápido o cérebro deles envelhece.

Os resultados, segundo eles, poderão justificar uma possível associação entre a perda de sono e sua contribuição para o declínio cognitivo, incluindo a demência. Estudos anteriores examinaram o impacto da duração do sono em funções cognitivas em idosos.
O aumento rápido do ventrículo cerebral é conhecido como um marcador para o declínio cognitivo e o desenvolvimento de doenças neurodegenerativas, como a doença de Alzheimer.
No entanto, novos trabalhos relacionaram os efeitos do sono sobre esse marcador.

Uma análise de ressonância magnética de 66 idosos chineses mediu o volume do cérebro, e uma avaliação neuropsicológica a cada dois anos testou a função cognitiva dos participantes. Além disso, a duração do sono foi registrada por meio de um questionário do sono.
Aqueles que dormiam menos horas apresentaram evidências de aumento do ventrículo e declínio mais rápido no desempenho cognitivo.
“O trabalho feito em outros lugares sugere que sete horas de sono por dia para adultos parecem ser o ponto ideal para um ótimo desempenho em testes cognitivos.
Nos próximos anos, esperamos determinar o que é bom para a saúde cardiometabólica e do cérebro também a longo prazo”, garantiu Michael Chee, diretor do Centro de Neurociência Cognitiva da Universidade de Duke-NUS.

Risco nos extremos

“A criança é mais sensível a essa privação do sono que o adulto, e a velhice também é uma faixa de idade sensível. São os dois extremos. A criança tem uma necessidade de sono grande porque está crescendo e se desenvolvendo. Ao dormir, hormônios do crescimento são liberados, a plasticidade cerebral se desenvolve, as memórias se consolidam.
Obviamente, essa privação terá efeitos fortes, principalmente no desenvolvimento neurológico, no aprendizado e no humor.
Nos adultos e nos idosos, acredita-se que dormir pouco afeta a saúde cardiovascular.
Também está associado a alterações metabólicas que podem, inclusive, resultar no diabetes”.
– Rosa Hasan, neurologista e membro da Associação Brasileira do Sono

Os riscos de trocar o dia pela noite

Seja por necessidade profissional, seja porque simplesmente gostam, muitas pessoas ficam ativas na madrugada. Especialistas explicam os danos causados por este hábito e como os notívagos devem se cuidar.

Já reparou que enquanto a maioria dorme à noite, uma parcela da população está em plena atividade? A vida noturna está em grande expansão nos últimos anos, com a ampliação de serviços 24 horas, como supermercados, pet shops, floriculturas, restaurantes, entre outros.
Além dos trabalhadores noturnos, há quem prefira, por questões pessoais e genéticas, ficar acordado durante a madrugada, seja em casa ou na rua.

O jornalista e estudante de direito Rodrigo Luchiari, 32 anos, de São Paulo, por exemplo, dorme apenas quatro horas por noite. Normalmente, durante a semana, ele vai para a cama entre 3 e 4 horas e acorda entre 7h30 e 8 horas para ir à faculdade. “Durmo tarde desde pequeno e não sinto sono”, afirma Luchiari.
Mesmo nos fins de semana, ele dorme pouco.
“Só vou dormir quando a energia acaba mesmo”, diz o jornalista.
“Às vezes, passo a madrugada estudando e vou direto para a faculdade fazer provas”, conta.
Apesar de dormir pouco, fumar e não fazer atividade física, ele garante que adoece pouco.
No entanto, preocupado com a saúde no futuro, Rodrigo quer largar o cigarro e também melhorar a qualidade de seu sono.
 A inquietação do jornalista é pertinente.
De acordo com os especialistas, essa inversão de horários realmente é um fator prejudicial à nossa saúde.
 “Nós fomos biologicamente programados para dormir à noite”, explica a pneumologista Lia Rita Azeredo Bittencourt, presidente da Sociedade Brasileira de Sono.
De acordo com Lia, a ausência de luz, a queda de temperatura do corpo e a secreção da melatonina (um neuro-hormônio responsável por regular o sono) são fatores que ocorrem nesse período e contribuem para o descanso.
“Pesquisas demonstram que, durante o dia, as pessoas dormem menos e com menor qualidade, já que o sono costuma ser mais fragmentado”, enfatiza.

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As conseqüências para o organismo humano são imediatas: fadiga, sonolência durante o dia, déficit de atenção, de memória e raciocínio, além de predisposição a problemas cardiovasculares e metabólicos.
 “O notívago pode ter hipertensão arterial, arritmias e outras doenças cardíacas, devido ao aumento de substâncias estressoras (catecolaminas) no organismo e por não haver descanso fisiológico suficiente do sistema cardiovascular, ou seja, a redução da pressão arterial e da freqüência cardíaca que ocorre à noite”, alerta a pneumologista.

Quem não dorme à noite ainda pode desenvolver predisposição à obesidade, pela dificuldade de ação da leptina (hormônio da saciedade), e ao diabetes, pela maior resistência à ação da insulina. As alterações metabólicas dos lipídios ainda podem aumentar o “mau” colesterol (LDL).

Segundo informações da Associação Nacional de Medicina do Trabalho (ANAMT), as doenças mais freqüentes em quem trabalha à noite são as de origem gastrintestinal (como azia, má digestão, úlceras gástricas, irritações do cólon e dificuldades em manter a regularidade intestinal), além das ligadas ao sistema cardiovascular.
Pesquisas revelam também uma maior possibilidade de desenvolvimento de câncer de mama e de colorretal nesses profissionais.
Há outros estudos, indicando que os riscos de acidentes aumentam com o trabalho noturno, particularmente se a jornada for prolongada.

O que pode ser pior

Mas ir para a cama todo dia em horários diferentes é ainda muito pior. É o que ocorre com o assistente de segurança alfandegário Everton da Silva Florencio, de 31 anos, que trabalha em sistema de turnos no Porto de Santos (SP).
A cada semana, ele muda o horário de trabalho: em uma, ele começa a trabalhar durante a noite; na outra, pela manhã; e na terceira, à tarde.
Consequência: ele não consegue ter um horário certo para dormir.
“Eu não tenho problemas de insônia; tenho sono pesado e durmo no horário que for preciso”, acredita Florencio.
“Mas, na semana em que passo a madrugada acordado, me sinto muito mais cansado”, admite.
“Se eu pudesse, só começaria a trabalhar pela manhã, pois acredito que sou muito mais produtivo nesse horário do que em outros”, afirma.
 “Quem, mesmo não dormindo à noite, mantém a regularidade nos horários de sono, não sofre tanto quanto aquele que tem ritmo irregular”, avisa o neurologista Luciano Ribeiro Pinto Jr.
, pesquisador do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

De acordo com o especialista, a regularidade é importante para a manutenção do ritmo circadiano (de 24 horas) do organismo. Esse ciclo é determinado pelos centros (células) do chamado relógio biológico, localizados no cérebro.
São essas células que, de forma harmônica e de acordo com o horário, anunciam como o organismo humano deve se comportar – quais hormônios devem ser produzidos, quando as células de determinados tecidos devem se dividir, qual a concentração de enzimas que deve haver em certo momento… Os ritmos internos do nosso organismo são sincronizados por marcadores externos, como a variação da luz, os momentos em que a pessoa está em atividade (trabalhando, comendo, etc) e a hora em que ela vai dormir.

A temperatura corporal, por exemplo, é determinada pelo ritmo circadiano – aumenta durante o dia e atinge o seu máximo no fim da tarde, iniciando uma queda lenta e gradual após às 18, 19 horas e alcançando o seu mínimo no meio da madrugada. A variação de temperatura oscila entre 1 e 1,5 graus entre a mínima e a máxima.
Também há uma pequena queda da temperatura entre 11 e 14 horas, que também corresponde ao horário do almoço.

É justamente porque a temperatura corporal está mais baixa que o ser humano sente sono durante a madrugada. Quando a pessoa passa várias noites acordada e dorme durante o dia, a curva da temperatura se altera, não subindo muito durante o dia, nem descendo muito à noite.
 Como a temperatura não diminui na intensidade ideal durante o dia, a pessoa tem dificuldade em cair no sono e mantê-lo.
A presença de luz nesse horário atrapalha ainda mais o descanso – pois é no escuro que o corpo produz o hormônio melatonina, regulador do sono.

Dormir cada dia em um horário diferente deixa o relógio biológico mais confuso. É por isso que o ser humano deve se habituar a dormir sempre nos mesmos horários, ainda que durante o dia. “Se o sono não ocorre na hora ideal, pelo menos que seja regular”, conclui Ribeiro Pinto (Unifesp).

Um quarto das pessoas que trabalham à  noite desenvolvem distúrbios de sono. As vítimas são aquelas que, por fatores genéticos, idade, problemas de saúde, uso de drogas e medicações, não se adaptam ao período noturno.

10 formas de se proteger a saúde dos notívagos

É possível minimizar os prejuízos à saúde causados pela vida noturna, seguindo os conselhos dos especialistas:

  • Durma sempre nos mesmos horários, mesmo nos dias de folga, para não afetar ainda mais o relógio biológico
  • Mesmo durante o dia, durma sem interrupções uma quantidade de horas mínima para o seu bem-estar – de seis a oito horas
  • Deixar o quarto escuro ajuda a dormir melhor.
    Feche janelas e cortinas, mas mantenha o ambiente arejado, porque o calor também atrapalha o sono
  • Use protetores de ouvidos, por conta do barulho feito durante o dia
  • Para que os trabalhadores noturnos não sintam sono à noite, é só tirar um cochilo algumas horas antes de ir trabalhar
  • Se puder, cochile no meio da madrugada, mesmo que por poucos minutos.
  • Avise sua família que ela precisa colaborar para a manutenção de um ambiente tranquilo para você dormir bem durante o dia
  • Apesar de ser difícil, quem fica acordado à noite não deve se descuidar da alimentação, para não atrapalhar ainda mais o sono durante o dia.
    É importante consumir vegetais ricos em fibras, muitas frutas e pouca gordura.
    Também é preciso fazer as três principais refeições (café da manhã, almoço e jantar) em horários adaptados.
    Antes de dormir, deve-se ingerir uma refeição leve
  • Evite tomar refrigerantes com cafeína, café, chá preto ou mate, tanto durante o trabalho noturno quanto antes de dormir
  • Praticar exercícios físicos regulares, evitar o fumo e o álcool e manter o peso também são medidas importantes.

Câncer de mama e trabalhadoras noturnas

Estudo realizado pelo Instituto do Câncer Epidemiológico, da Dinamarca, com sete mil voluntárias, de 30 a 54 anos, sugere que as mulheres que trabalham no período noturno têm 50% mais risco de desenvolver o câncer de mama.
Os pesquisadores constataram uma maior incidência de tumores malignos de mama entre aquelas que trabalharam durante a noite, por pelo menos seis meses.

No entanto, não foi comprovada a causa da relação entre a doença e o trabalho noturno, mas alguns médicos acreditam que a exposição à luz artificial durante a noite pode provocar alterações hormonais que aumentam o risco.

Outra pesquisa, realizada pela Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, mostra que o trabalho noturno durante os três primeiros meses de gravidez aumenta em 50% o risco de parto prematuro. Os pesquisadores acreditam que isso possivelmente se deve à interrupção da atividade normal do útero durante a noite.

Aproximadamente 10% da população é vespertina: por razões genéticas, essas pessoas sentem mais dispostas ao anoitecer e preferem acordar mais tarde.

 A sociedade 24 horas

Enquanto a maioria dorme, outros permanecem acordados para manter a produção e os serviços operando. Além de prejudicar a saúde física e mental de quem trabalha à noite, a inversão de horários expõe todos a um risco maior de acidentes “A claridade do dia me incomoda, o barulho me impede de ter um sono tranqüilo e o tempo de descanso é muito curto”.
A frase é de uma mulher de 45 anos que passa muitas noites em claro, não por insônia nem por diversão, mas porque é auxiliar de enfermagem de um hospital.
Seu depoimento ilustra as dificuldades de quem trabalha à noite, em turnos regulares ou não.
A maioria da população não tem idéia do que é isso, e não se lembra de que, todas as noites, um grande número de pessoas trabalha para manter funcionando o atendimento de saúde, o tratamento de água e esgoto, a produção de energia, as telecomunicações, a segurança pública, o recolhimento do lixo, o transporte de cargas, a extração de petróleo, a produção de alimentos, as lojas de conveniência, as portarias dos edifícios – a lista é enorme.

Poderíamos prescindir da produção e das atividades ininterruptas disponíveis 24 horas por dia? Apesar de ser uma tendência relativamente recente, surgida nos últimos 15 anos, dificilmente abriríamos mão dessas conveniências. Importante ressaltar, porém, que a despeito dos lucros, o custo da sociedade 24 horas é alto ? e não apenas o custo econômico.
O trabalho noturno afeta a saúde física e mental dos indivíduos e suas consequências podem ser sentidas pela sociedade toda.
Alguns exemplos: o acidente nuclear de Chernobyl e a explosão da Challenger, ambos em 1986, e um dos piores vazamentos de petróleo da história, no Alasca em 1989; todos desastres relacionados à privação de sono.

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O ser humano dorme à noite não por convenção social, mas porque seu organismo expressa ritmos que são resultado de um longo processo de adaptação de nossa espécie ao ciclo ambiental claro-escuro do planeta Terra.
A inversão dos horários de atividade e de repouso que o trabalho noturno impõe nunca é bem-sucedida do ponto de vista fisiológico e está relacionada a uma ampla gama de problemas de saúde: transtornos digestivos, cardiovasculares, reprodutivos, além dos mais óbvios, que são os distúrbios de sono.
 Mulheres sofrem mais com trabalho noturno: tolerância à inversão de turnos depende de características pessoais.

Ritmos desajustados

A síndrome metabólica (caracterizada por obesidade abdominal, resistência à insulina e um conjunto de fatores de risco cardiovascular) é mais comum nas pessoas que, por causa do trabalho, trocam o dia pela noite.
Uma revisão recente feita pelo pesquisador Anders Knutsson, da Universidade de Umea, Suécia, sugere que o risco de câncer de mama é maior em mulheres que trabalham no turno da noite.

No entanto, como não poderia deixar de ser, as queixas mais comuns dessas pessoas são os distúrbios do sono. Afinal, dormir de dia ? enquanto o mundo está acordado e fazendo barulho ? não é a mesma coisa. Diversos estudos mostram que além de a duração do sono dos trabalhadores noturnos ser menor, sua qualidade é pior.
De forma geral, eles sofrem de privação crônica de sono e as consequências são déficit cognitivo e motor, alterações de humor que podem levar a depressão, fadiga crônica, baixos níveis de alerta e aumento do risco de acidentes.
Agora pense nas possíveis conseqüências da combinação de todos esses fatores em um motorista de caminhão que dirige na mesma estrada que você ou em um médico que pode atendê-lo em um pronto-socorro.

Além de ter a saúde afetada, quem trabalha à noite está mais exposto a problemas de ordem psicossocial, já que seu cotidiano é muito diferente do de sua família e da comunidade em que está inserido. O desencontro de horários tende a restringir as oportunidades de interação social.
As dificuldades se agravam no caso dos turnos irregulares, como são os de motoristas de caminhão que fazem viagens interestaduais.
Como dependem da oferta de carga e das demandas de entrega, eles costumam trabalhar sem escalas predeterminadas e com jornadas extenuantes.
Nos longos trajetos, passam muito tempo longe da família e dos amigos.
Efeitos negativos nas relações sociofamiliares também são muito comuns em pilotos, comissários de bordo e controladores de vôos.

Segundo dois dos maiores especialistas no assunto, o americano Timothy Monk, da Universidade de Pittsburgh, e o britânico Simon Folkard, da Universidade de Swansea, Reino Unido, o trabalho noturno interfere em três aspectos da vida familiar: no cuidado doméstico ? que afeta principalmente as mulheres, pois a sociedade espera mais delas esse tipo de responsabilidade; na interação social ? que por razões culturais tende a acontecer à noite e nos fins de semana; e nas relações sexuais ? porque durante o dia dificilmente o cônjuge está disponível, além de as crianças estarem acordadas.
A mulher sofre mais com o trabalho noturno, já que a dupla jornada dificulta a reorganização de sua rotina diurna, especialmente se ela tem filhos.
As atividades domésticas e o cuidado com as crianças quase sempre têm prioridade em relação às necessidades de sono.

É possível adaptar-se ao trabalho noturno? Embora algumas pessoas digam que sim, na verdade não se trata exatamente de uma adaptação, mas de diferentes percepções das conseqüências desse “estilo de vida”, o que resulta numa tolerância extremamente variável entre os indivíduos.
Estudos mostram que a tolerância é influenciada por fatores intrínsecos (idade, sexo, estado de saúde, traços de personalidade, características relacionadas aos ritmos biológicos, como matutinidade e vespertinidade, entre outras) e extrínsecos (condições de moradia, satisfação com o trabalho, características do sistema de turnos, conciliação da vida pessoal com horários de folga etc.

Dado o número de variáveis que interferem na tolerância ao trabalho noturno, não há como prever quais pessoas serão mais ou menos tolerantes e que estratégias serão mais eficientes para combater os prejuízos à saúde e à vida social.
O que se nota, entretanto, é que geralmente os problemas tendem a se agravar com o envelhecimento devido a uma desregulação crônica dos ritmos biológicos, o que, além de piorar ainda mais a qualidade do sono, propicia o desenvolvimento de doenças.
É por isso que a avaliação médica periódica é especialmente importante nessa população, de modo a detectar precocemente os sintomas de intolerância, como problemas digestivos e reprodutivos, consumo elevado de medicamentos (especialmente estimulantes), depressão, distúrbios de sono e acidentes.

Mais folgas

Infelizmente não há solução para os problemas causados pelo trabalho noturno e em turnos, apenas recomendações que podem reduzir seus efeitos nocivos na saúde física e psíquica. Entretanto, cada tipo de turno apresenta vantagens e desvantagens, de forma que cada situação específica merece uma análise detalhada; isto é, não há receitas prontas.
Aumentar o número de folgas, regulamentar a aposentadoria precoce ou a transferência para turnos diurnos, por exemplo, são algumas formas de amenizar os problemas.
Pesquisas mostram que o número de noites consecutivas trabalhadas deve ser o menor possível.
A cada seqüência de jornadas noturnas, são necessários ao menos dois dias de folga, já que as primeiras 24 horas após a última noite de trabalho geralmente são usadas para o descanso em vez do lazer.
O ideal é que as folgas sejam aos finais de semana e não inferiores a 11 horas.
Uma tendência crescente nas empresas é a adoção de esquemas mais flexíveis, com jornadas diárias de duração variável, horários personalizados, alternância entre meio-período e período integral e transferência temporária para o turno diurno.
Além dos benefícios para o trabalhador, tais medidas também são vantajosas para as empresas, que acabam registrando número menor de acidentes e de ausências por motivo de saúde; logo, a produtividade aumenta.

Melatonina e fototerapia

Dois tipos de intervenção vêm sendo investigados para promover o ajuste dos ritmos biológicos ao trabalho noturno na tentativa de minimizar suas conseqüências para a saúde pública. Um deles é a administração oral de melatonina, hormônio produzido pela glândula pineal, localizada entre os dois hemisférios cerebrais.
A melatonina está diretamente ligada à regulação do ciclo vigília-sono, e a luz que incide na retina inibe sua secreção.
Diversas pesquisas indicam que, se administrado em determinados horários, esse hormônio pode melhorar a qualidade do sono diurno e diminuir a sonolência durante a vigília, facilitando a adaptação das pessoas ao trabalho noturno.

Outra possibilidade em estudo é fototerapia, isto é, a exposição a fontes de luz de alta intensidade, a chamada luz intensa ou bright light. De forma bem resumida, funciona assim: a exposição à luz forte em certos horários modifica a resposta do organismo ao ciclo claro-escuro, encurtando ou prolongando o dia ou a noite “internos”.
Os cientistas estão tentando descobrir quais intensidades de luz, comprimentos de onda, duração e horários são mais adequados para produzir efeitos positivos na qualidade do sono dos trabalhadores.
Algumas pesquisas indicam que a exposição à luz intensa durante o horário de trabalho aumenta os níveis de alerta durante a madrugada.
É possível que a fototerapia seja adotada por grandes empresas num futuro não muito distante.

A atividade física parece ser também uma boa estratégia para melhorar a tolerância ao trabalho noturno, como indicam as pesquisas realizadas por Mikko Härma, do Instituto de Saúde Ocupacional de Helsinque, Finlândia.
Em um dos estudos, 150 enfermeiras participaram de um programa de condicionamento físico moderado, com duração de quatro meses, que incluiu corrida, natação, ginástica e caminhada, de duas a seis vezes por semana.
Quando comparadas ao grupo controle, elas se sentiram menos cansadas e sonolentas, sem contar os benefícios musculares e cardiorrespiratórios.

Resultado semelhante foi obtido por uma de nós (Claudia Roberta de Castro Moreno) num estudo com mais de 10 mil motoristas de caminhão. O exercício físico, regular ou ocasional, foi um fator de proteção contra a apneia obstrutiva do sono, um dos distúrbios do sono mais comuns nessa população.

A remuneração extra é o principal atrativo do trabalho noturno, mas vale lembrar que ela reflete o reconhecimento dos efeitos nocivos do trabalho nesse horário.
Nem uma coisa nem outra ajudam as pessoas a dormir melhor e a lidar com os desafios psicossociais a que estão expostas, nem diminuem os riscos de acidentes que muitas vezes ameaçam toda a sociedade.
Por isso há um consenso entre os pesquisadores da área de que as ações relacionadas ao trabalho em turno não podem se restringir a uma simples questão monetária.
A privação de sono decorrente da sociedade 24 horas tem um preço ainda mais alto do ponto de vista social e da saúde pública.

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Tragédia num piscar de olhos

Pouco antes da 1 hora da madrugada de 25 de março de 1989, o petroleiro Exxon Valdez, da empresa americana Exxon, bateu num recife da costa do Alasca e derramou no oceano mais de 200 milhões de litros de petróleo.
As investigações de um dos mais trágicos acidentes ecológicos de todos os tempos revelaram que a tripulação estava submetida a jornadas diárias de trabalho de 12 a 14 horas e turnos inadequados.
As queixas de fadiga e sonolência eram comuns.
No dia do acidente, o terceiro oficial, que estava no comando do navio, cochilou em serviço.
O valor astronômico da multa paga na época pela empresa jamais compensará os prejuízos ambientais ainda observados na região 17 anos depois, como mostra estudo publicado em 2006 na revista da Sociedade Americana de Química.

No desastre nuclear de Chernobyl, Ucrânia, ocorrido em abril de 1986, os mesmos fatores estavam em jogo: longas jornadas de trabalho em turnos, privação de sono, sonolência excessiva; mas foram agravados pela pressão do governo para completar uma série de testes dentro de determinados prazos.
Para “ganhar tempo”, os procedimentos foram programados para a madrugada e, curiosamente, ninguém questionou o desligamento de vários sistemas de segurança.
O superaquecimento do reator foi constatado por volta da 1h30.
Na tentativa de religar os sistemas de segurança, os sonolentos operadores cometeram um erro fatal: desligaram o resfriamento de emergência.
A explosão espalhou lixo radioativo por mais de 3 mil km².
Cinco anos depois do acidente, a expectativa de vida dos ucranianos despencou de 74,5 anos para 63,3 anos.

Três meses antes de Chernobyl, o ônibus espacial Challenger explodiu menos de dois minutos depois de deixar o solo, matando toda a tripulação. A causa do acidente foi amplamente noticiada: um defeito numa peça do tanque de combustível ? problema que, aliás, havia sido detectado e aparentemente reparado antes do lançamento.
Menos divulgado, porém, foi o fato de não só a equipe de manutenção ter virado a noite para solucionar o problema, como os diretores que autorizaram a partida, a despeito das advertências dos engenheiros da Nasa, terem dormido muito pouco na noite anterior ao desastre.

Percurso de uma causa justa

O primeiro registro conhecido sobre as dificuldades do trabalho noturno está no livro do cientista alemão Georg Bauer (1494-1555) De re mettalica, de 1556, sobre atividades de mineração.
O médico italiano Bernardino Ramazzini (1633-1714) descreveu em De morbis artificum, de 1700, a situação dos padeiros: “Quando outros artesãos terminam a tarefa diária e se entregam a um sono reparador de suas fatigadas forças, eles trabalham de noite e dormem quase todo o dia”.

O grande impulso das atividades industriais e comerciais no final do século XVIII e início do século XIX, acompanhado da transição da sociedade agrária para a industrial, levou milhares de pessoas, de todas as idades, para as cidades. A jornada de trabalho se tornou cada vez mais longa e extenuante.
Os limites entre o dia e a noite e conseqüentemente o descanso dos trabalhadores deixaram de ser respeitados.
Mas até o final do século XIX o trabalho noturno representava um percentual mínimo da produção econômica mundial.
Esse cenário mudou radicalmente com a invenção da lâmpada elétrica por Thomas Edison em 1880.

Atualmente, em grandes empresas do setor químico, petroquímico e siderúrgico, os funcionários recebem escalas de trabalho e folgas com até um ano de antecedência.
Muitas empresas implantaram a “semana comprimida de trabalho”, na qual a jornada geralmente é de 12 horas, em turnos fixos ou rodiziantes, por três ou quatro dias consecutivos, seguidos de período igual de descanso.
A vantagem é o maior número de folgas consecutivas em comparação ao turno de oito horas.
A principal desvantagem é a duração da jornada, que pode ser muito fatigante.

Apesar dos avanços das últimas décadas, ainda há muito a ser modificado na legislação que regulamenta os horários de trabalho no Brasil. Segundo a Constituição Federal, o trabalho noturno (realizado entre as 22 h de um dia até as 5 h do dia seguinte) é proibido aos menores de 18 anos.
De acordo com a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a hora do trabalhador noturno é reduzida para 52 minutos e 30 segundos e remunerada 20% acima da diurna.
Nos turnos em revezamento, os funcionários devem trabalhar no máximo seis horas diárias, exceto quando houver negociação coletiva.
Muitas empresas pagam horas extras ou fazem acordos sindicais para aumentar essa jornada, que na prática fica entre oito e 12 horas por dia.

A décima revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) inclui o trabalho noturno e em turnos como agente etiológico ou fator de risco de natureza ocupacional no capítulo destinado às doenças relacionadas ao trabalho.
Essa relação tem sido cada vez mais reconhecida por autoridades de saúde e pela justiça do trabalho, a ponto de já existirem pelo menos dois casos, ambos de 2006, de parecer favorável para trabalhadores noturnos, demitidos por justa causa, por terem cochilado em serviço.
Nos dois processos, a ementa publicada pelo Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo diz que o sono faz parte da natureza humana.
Trata-se de uma necessidade biológica complexa e não de uma faculdade.
O fato de o empregado cochilar ou apresentar dificuldades cognitivas durante a jornada pode indicar afecções graves que devem ser tratadas e não simplesmente punidas.

Perigo nos plantões médicos

Longas horas de plantão médico afetam o raciocínio lógico e deterioram o desempenho.
Um estudo sobre o tema foi realizado na Universidade de Tübingen, Alemanha, onde uma equipe supervisionada pelo médico Thomas Lingenfelser observou 40 médicos jovens e comparou seu desempenho após uma noite de folga com o que apresentavam depois de 24 horas de plantão.
Os testes mediram rapidez de raciocínio e de resposta a determinados estímulos, poder de concentração e de processamento de informações em situações de distração.
Em todos eles os médicos que haviam feito plantões e estavam privados de sono tiveram resultados 5% inferiores.

Quando a equipe de Lingenfelser examinou as respostas dos médicos nas tarefas hospitalares, o efeito foi mais grave. Uma delas envolvia memorização. Ao examinar um paciente, o médico estabelece uma lista mental de coisas que precisa fazer.
Assim, quando está diante de uma contusão na cabeça, checa de imediato as reações da pupila e mais três ou quatro reflexos simples.
Verifica o raciocínio e pede uma radiografia do crânio para ver se há fratura.
Poderia completar com um eletroencefalograma (EEG), caso houvesse suspeita de dano cerebral.
Note que a lista de providências é grande e precisa ser guardada na memória de curto prazo.
Se algum dos itens for esquecido, uma parte importante da informação clínica será perdida.
Quando os médicos foram testados quanto a essas tarefas rotineiras, observou-se um resultado 8% pior daqueles com débito de sono.
Isso signifi ca que, em uma lista de checagem de 12 itens, um poderá ser esquecido.

É interessante comparar tal resultado com um estudo do psicólogo Ian Deary, da Universidade de Edimburgo, Escócia. Depois de uma noite de plantão, a capacidade do médico de lembrar uma série de fatos ? resultados de exames, por exemplo ? diminui cerca de 18%. Quer dizer: de cada cinco, um seria esquecido por causa do sono atrasado.

A segunda habilidade examinada pelos pesquisadores alemães foi a interpretação de eletrocardiogramas (ECG). Os médicos deveriam apontar, com base em um vídeo com traçados típicos de ECG, aqueles que apresentavam anormalidades.
Esse é um dos procedimentos mais comuns nos hospitais, pois os problemas cardíacos são causa frequente de emergências e também aparecem como complicadores associados a várias doenças ou ferimentos.
O estudo demonstrou que os profissionais descansados tinham probabilidade 14% maior de detectar falhas no ritmo cardíaco que os médicos com débito de sono devido a um plantão.
Ou seja, em cada sete problemas cardíacos, um não seria notado.

Outro estudo foi feito na Universidade Temple, na Filadélfia. Por meio de registro de EEG, a equipe do médico Leonard Goldman monitorou o ritmo cardíaco de cirurgiões enquanto operavam, a fim de detectar sinais de stress que prejudicam eficiência e coordenação.
Para observar os médicos em ação, 33 cirurgias foram filmadas por um sistema de circuito interno de TV.
Entre os voluntários testados, alguns tinham feito plantão e dormido menos de duas horas na noite anterior.
Os pesquisadores compararam seus resultados com o desempenho de profissionais sem déficit de sono e verificaram detalhes assustadores.
Os médicos com sono atrasado comportaram-se de modo indeciso e impreciso, utilizaram manobras cirúrgicas mal planejadas e desnecessárias durante quase um terço da operação, e 80% deles apresentaram ritmo cardíaco elevado, indicando severas condições de stress.

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