Anabolizantes e seus efeitos

A promessa é de ganho de massa muscular e energia, além da queima de gordura. Nos consultórios médicos, no entanto, pacientes tentam sanar problemas no fígado, rins e nos músculos.

A “ditadura do corpo perfeito”, pregada a ferro e fogo pela sociedade, tem se transformado em armadilha para aqueles que acreditam que a felicidade está em músculos grandes, em corpos magros e sem gordura. Em busca da beleza escultural, homens e mulheres ingerem e injetam substâncias capazes de fazer milagres.
Por um lado, deixam o corpo bonito, forte e aparentemente saudável em pouco tempo.
Em contrapartida, os produtos cobram um preço alto por isso: funcionam como um tsunami interno no organismo, causando doenças graves e, em alguns casos, até a morte.
Preocupados com o cenário que já se tornou uma obsessão global, muitos especialistas dizem tentar convencer as pessoas sobre os riscos que correm, mas o esforço, segundo contam, tem sido em vão, principalmente entre os jovens que buscam essa fórmula da beleza a qualquer custo.

Recentemente, o Brasil se chocou com o relato da ex-BBB Maria Melilo sobre seu estado de saúde. No mês passado, ela precisou retirar quase 70% do fígado por causa de um câncer provavelmente provocado pelo uso de anabolizantes durante 10 anos.
Outro famoso que faz parte desse drama é o cantor baiano Netinho, que, no início do ano, foi internado em estado grave com forte dor abdominal, em função de uma hemorragia no fígado.
De acordo com médicos, tudo leva a crer que seu quadro também foi provocado pelo uso de anabolizantes.
“As pessoas estão cada vez mais apostando que a felicidade está no físico e no culto ao corpo.
Há uma necessidade muito grande de cuidar da casca e elas acabam se tornando dependentes de substâncias que podem se transformar em um verdadeiro veneno”, alerta a especialista em nutrição clínica e alimentação detox Juliana Nakabayashi.

Segundo o cardiologista e médico do esporte do Minas Tênis Clube e do Clube Atlético Mineiro Haroldo Christo Aleixo, sempre há casos de internação grave devido ao uso dessas substâncias. Recentemente, vários jovens foram internados em Belo Horizonte, conforme destaca Haroldo.
“Quando você vê essas pessoas, elas estão bonitas por fora, porém, perderam o limite e o medo.
Usam estimulantes, anabolizantes e medicações perigosas”, alerta o médico, já preocupado com a proporção que isso tem tomado.
“Os usuários já sabem que sofrerão efeitos colaterais como calvície ou acne e, quando os efeitos demoram a aparecer, eles pensam que os anabolizantes não estão funcionando.
Daí, aumentam a dose”, lamenta.

Segundo explica Haroldo, o esteroide anabolizante, assim chamado, é usado com o objetivo de aumentar a massa muscular. “Mas há uma série de efeitos colaterais. Um deles, que temos observado com maior incidência em pacientes, é a hepatite.
O fígado é o órgão que metaboliza essas substâncias, mas essas megadoses superam sua capacidade de trabalho, sobrecarregando o órgão e podendo levar à falência hepática ou até à morte do indivíduo”, alerta.
Um dos perigos para quem toma os anabolizantes, segundo lembra o médico, é a falsa segurança de dizer que “faz exames regulares no corpo”.
“Muitos argumentam que estão com acompanhamento médico e fazem exames de rotina, porém, não existe essa segurança.
Quando o problema surge é tão rápido que ao se manifestar em exames é porque ele já está ocorrendo há um tempo”, diz.

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Nada de inocência

Mas nessa história os anabolizantes não são os únicos vilões. Os aparentemente inocentes suplementos também representam riscos, segundo os especialistas. “Eles têm a função de complementar a alimentação, muitas vezes com substâncias que vão auxiliar na queima de gordura.
Há riscos de problemas renais, insônia e irritabilidade”, avisa a nutricionista Juliana Nakabayashi, lembrando que não é preciso fazer uso disso, uma vez que por meio de uma boa alimentação se conseguem os resultados.
“O problema é que as pessoas querem alcançar seus objetivos muito rapidamente e acabam contaminadas pelo ambiente de academia”, critica.

Segundo destaca o cardiologista Haroldo Aleixo, hoje em dia o uso dos suplementos está tão enraizado que as pessoas já não acreditam que possam ser saudáveis sem eles. “Tive um cliente atleta que afirmou ser impossível ser atleta hoje em dia sem usar suplementos. Disse a ele que Pelé e Garrincha nem sabiam o que era isso”, comenta.
O médico destaca que os suplementos normais têm riscos menores, mas não podem ser negligenciados.
Em junho deste ano, um professor de fisiculturismo foi preso em uma blitz no Anel Rodoviário de Belo Horizonte com uma carga de anabolizantes, seringas, frascos e agulhas.
Mas os anabolizantes não são os únicos vilões

Sobrecarga

“Uma pessoa deve ingerir uma taxa de proteína de 1 a 2 gramas por quilo. Ou seja, se ela pesa 50 quilos, deve comer por dia 100 gramas. Mas, quando se ultrapassa essa quantidade, o excesso pode sobrecarregar ou lesar os rins a longo prazo”, esclarece.
Uma das febres entre os suplementos são os termogênicos, que oferecem energia e uma queima rápida de gordura aos usuários.
“Esses estimulantes provocam arritmias cardíacas.
Hoje em dia está difícil convencer esses usuários sobre esse problema”, acrescenta Haroldo.

Outro alerta recai sobre os produtos naturais.
“O grande problema deles é que eles entram para o mercado e para o modismo, assumindo funções antes de serem testados cientificamente”, critica Haroldo, que acrescenta: “Temos que ficar atentos também para a indicação de produtos por profissionais que recebem alguns benefícios ao prescrever aquela fórmula”.
Para ele, ninguém precisa de suplementos.
“A resposta para ter saúde e um corpo bacana está na alimentação adequada”.

Muito exagero nas atividades físicas

Além de todas as substâncias ingeridas por quem busca o corpo perfeito, há a dedicação extrema aos exercícios físicos. Aos 34 anos, a consultora de moda Tatiana Ferragini teve que largar a corrida, a academia e as aulas de muay thai.
Ela desenvolveu hérnia de disco e, segundo muitos médicos, o problema pode ter sido causado pelo excesso de atividades físicas.
Hoje, fazendo fisioterapia, ela reconhece que, muitas vezes, durante seus treinos, tentou ultrapassar os limites do corpo.
“Você sente aquela dorzinha, mas quer mais”, conta.
Tatiana diz que já usou termogênicos para ter energia e queimar gorduras.
“Uma nutricionista foi quem me passou. Mas não tomei muito. Sei que isso já virou febre nas academias”.

De acordo com o fisioterapeuta e especialista em coluna vertebral da clínica FortaleSer/ITC Vertebral Rodrigo Moura, com o fim do ano há aumento de lesões causadas por exercícios físicos.
“As pessoas tentam compensar em um período de dois e três meses um ano parado”, comenta, lembrando que o excesso muitas vezes é motivado por outros fatores, como os medicamentos tomados para o corpo ideal.
“Com os estimulantes, por exemplo, a pessoa se sente com mais energia e vai ultrapassando os limites corporais.
É uma energia perigosa, pois os músculos e tendões podem não estar preparados para esse treinamento.
O efeitos podem ser desde uma lombalgia mais simples até uma patologia grave, que deixa a pessoa incapacitada.
” O ideal, segundo ele, é fazer atividades físicas sem o consumo de substâncias e de forma gradual.

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Como os anabolizantes agem no organismo?

A principal ação é o aumento de água no interior das células musculares. O inchaço, associado à malhação, faz com que os músculos cresçam mais rápido. Mas essa é apenas uma das mudanças provocadas pelas “bombas”.
Mais corretamente chamadas de esteroides anabolizantes, elas são drogas artificiais, cujo ingrediente-chave é uma imitação da testosterona, o principal hormônio masculino.
Existem mais de 20 tipos de anabolizantes, para uso oral ou injetável.
Depois de entrar no organismo os esteroides invadem certas células – como as musculares e as do fígado – e provocam alterações bioquímicas.
Nos músculos, além de reter líquidos, os anabolizantes aceleram a atividade metabólica (veja no infográfico ao lado).
“As drogas incrementam o anabolismo, que é a fase pós-exercício, em que o corpo repõe a energia e reconstrói as células degeneradas”, diz o médico Bernardino Santi, coordenador estadual de doping da Confederação Brasileira de Futebol.
Se o sujeito pegar pesado na academia, pode ganhar até oito vezes mais massa muscular do que um malhador normal.
A “mágica” custa caro para o organismo.
Os efeitos colaterais são devastadores e podem levar à morte.
Mas os anabolizantes também podem ter efeitos positivos.
Sob controle médico, são indicados para quem sofre de doenças degenerativas, na reposição hormonal e até para astronautas após longas estadias no espaço.

Efeitos bombásticos

Drogas invadem células e provocam uma explosão nos músculos:

 – Os anabolizantes podem ser administrados por via oral ou por injeções. Uma vez na corrente sanguínea, as moléculas da droga circulam em todo organismo. Na viagem, penetram nas células que formam os diversos órgãos, como fígado e coração, e nos músculos

– Essas moléculas provocam alterações no citoplasma (o interior das células). Por meio da osmose, por exemplo, a água que está ao redor das células penetra em seu interior. Com isso, elas incham

– Devido à dose extra de hormônio, o metabolismo celular aumenta – é como se a célula estivesse com todas as funções aceleradas. A “pilha”, o inchaço e os exercícios intensos provocam hipertrofia muscular. Ou seja, os músculos crescem e aparecem

– Por ser elástica, a célula aumenta de volume muitas vezes. Durante algum tempo os músculos, que também são elásticos, aceitam essa tensão. Assim, o bombado ganha massa rapidamente

– Como os tendões são estruturas fixas e rígidas, não suportam o súbito aumento da massa muscular. Eles podem se romper ou, pior, se desprender dos ossos. O excesso de hormônio impede ainda o organismo de absorver cálcio, fragilizando os ossos.

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Usados sem orientação médica, os esteroides provocam efeitos colaterais devastadores:

Impotência: Por causa do excesso de testosterona, os testículos param de produzir hormônios e atrofiam. A libido diminui e o homem fica impotente e estéril.

Câncer no fígado: O órgão funciona como uma usina, processando tudo o que entra no organismo. O uso exagerado da droga causa uma pane geral, e o fígado não dá mais conta do trabalho. Em casos mais graves, a sobrecarga causa nódulos nas células, que provocam câncer.

Colesterol: Com a sobrecarga, o fígado produz mais colesterol ruim (o LDL) do que o bom (HDL). A gordura se acumula nas paredes das artérias do coração e do cérebro. Os canos entupidos podem causar derrame e acidente vascular.

Desequilíbrio hormonal: O corpo fica desajustado por causa do excesso de testosterona. A acne aparece e os cabelos caem de modo irreversível. As mulheres ficam masculinizadas e ganham pêlos pelo corpo. Nos homens, as mamas podem crescer.

Depressão: Além da dependência psicológica, as “bombas” podem provocar depressão, irritabilidade, ilusões, confusão mental e dificuldades de memória.

Problemas cardíacos: O coração aumenta de tamanho e pode ocorrer um ataque cardíaco por causa de artérias entupidas. A retenção de líquidos provoca pressão alta.

Os Anabolizantes ou Esteroides Androgênicos Anabólicos, são hormônios sintéticos produzidos a partir do hormônio masculino testosterona, que promovem o crescimento muscular.
Essas substâncias trazem vários males à saúde, desde problemas em curto prazo como aparecimento de acne, irritabilidade, falta de concentração, ginecomastia, até problemas mais graves como doenças do fígado, câncer, podendo levar até à morte.
Sua utilização vem crescendo e é algo que preocupa a sociedade, por se tratar de substâncias perigosas que são extremamente prejudiciais à saúde.

Segundo o profissional de Educação Física, Maicon dos Santos Assis, a questão estética pode ser a principal causa do uso de tais substancias.
“Nunca li muitos estudos que falam a causa disso, mas penso que em praticamente 100% dos casos é a questão estética mesmo, ou seja, a busca pelo ‘corpo perfeito’ sem ter a consciência dos reais riscos que isso traz à saúde”.

É importante estar atento quanto a esse tipo de risco, pois muitas pessoas até por inexperiência podem ser vítima dos anabolizantes. É recomendado que seja feito um acompanhamento médico e profissional quanto ao uso dos suplementos para evitar demais transtornos.
“Eu malho há pouco tempo, mas já tenho conhecimento do risco que os anabolizantes causam à saúde, por isso procuro sempre orientação médica sobre o assunto”, conta Lucas Ferraz.

Em competições esportivas é totalmente proibida sua utilização. “Se for constatado no exame antidopping que algum atleta fez uso de anabolizantes, o mesmo será excluído da competição podendo ficar sem participar durante anos da competição em algumas situações.
Além disso, a venda dessas substâncias é proibida e se comercializadas sem orientação médica pode levar até a cadeia.
Vejo que combater o uso dos anabolizantes é praticamente impossível, pois estamos vivendo em um mundo onde as pessoas estão cada vez mais preocupadas com a beleza e o culto ao corpo perfeito, sem se preocupar com as consequências.
E isso é um perigo, pois arma-se uma bomba contra si mesmo”, finaliza Maicon.

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