Câncer de mama: cientistas buscam biomarcadores para otimizar tratamento

As descobertas têm diminuído as sessões de radioterapia e ajudado médicos a prescrever intervenções mais personalizadas.

É necessário manter a radioterapia para evitar a volta do câncer de mama mesmo quando a paciente é considerada de baixo risco? O que é mais eficiente: baixas doses recorrentes de radiação contra o tumor ou altas doses em poucas sessões? Comuns nos consultórios, essas e outras dúvidas acometem também os cientistas.
O sentido das pesquisas e dos experimentos é o mesmo procurado desde que começa a terapia contra a doença: intervenções menos hostis, mas efetivas.
Simpósios internacionais indicam que a resposta pode estar nos biomarcadores genéticos, capazes de prever a evolução e a agressividade da doença, otimizando os tratamentos.

Esse debate fez parte, em outubro de 2013, do Congresso Europeu de Câncer, em Amsterdã, e continuou no 36º Simpósio de Câncer de Mama San Antonio, realizado em dezembro, nos Estados Unidos. Segundo Kent Osborne, diretor do Centro de Câncer Dan L.
Duncan e do Centro de Câncer Lester e Sue Smith, da Faculdade de Medicina Baylor (EUA), foram apresentados os resultados do ensaio Prime II, que discute o papel da radioterapia em pacientes idosas.
O estudo compara a recorrência do câncer e a qualidade de vida em um grupo de mulheres com pelos menos 65 anos e submetidas ou não à radioterapia preventiva depois da cirurgia contra a doença.
“Vimos em muitos estudos recentes que a ideia é de cada vez menos tratamento para um certo grupo de mulheres.
O Prime II nos dará mais dados se as pacientes mais velhas precisam da radioterapia após cirurgias na mama”, avalia Osborne.
Essas pacientes de câncer são consideradas de baixo risco, assim como as avaliadas por Trine Tramm, do Hospital Universitário Aahus, na Dinamarca.
O oncologista apresentou os resultados dessa análise no Congresso Europeu de Câncer.

Segundo ele, a radioterapia pós-mastectomia é administrada de acordo com uma estimativa do risco de recorrência local. Vários perfis moleculares podem auxiliar na decisão sobre o tratamento, mas ainda não existe uma comprovação que guie a decisão do oncologista.
“Nosso objetivo foi identificar o benefício da previsão genética para a radioterapia em termos de controle local”.
No estudo, foram analisadas as expressões genômicas de 191 amostras de tumores.
O resultado levou a um “perfil de radiação” baseado em sete genes cujas expressões estão associadas ao risco de reincidência do tumor e à administração da radioterapia.

As pacientes de alto risco tiveram 57% de chances de reincidência local apenas com a cirurgia e as de baixo risco, 8%. A radioterapia pós-mastectomia, portanto, pode ser usada para reduzir o risco de recorrência no primeiro grupo. O perfil foi validado em mais 112 pacientes.

Segundo o presidente da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica, Anderson Silvestrini, já é possível encontrar testes genéticos que demonstram se o paciente com câncer de mama é de alto, médio ou baixo risco, e, assim, definir a terapia mais adequada.
“A gente percebe, há um bom tempo, que duas pacientes com o mesmo tumor e as mesmas características fazem o mesmo tratamento, mas um vai muito bem e o outro não.
Vemos que isso tem muito a ver com a questão genética do tumor.
Hoje, começamos a entender um pouco mais sobre esse processo, especialmente para tumores que têm uma incidência maior, como o de mama”.

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Eficácia

Câncer de mama: cientistas buscam biomarcadores para otimizar tratamento

A otimização da radioterapia também é alvo de pesquisa de John Yarnold, do Instituto de Pesquisa em Câncer, em Londres. Ele apresentou, no mesmo congresso, um estudo, chamado Start, que poderá beneficiar todos os pacientes com câncer de mama em estágio inicial.
Segundo Yarnold, na última década, foi avaliada a eficácia da radiação hipofracionada, que expõe as pacientes a doses diárias maiores de radioterapia ao longo de um período mais curto.
Roteiros diferentes de intervenção seguindo a mesma filosofia foram investigados em quase 6 mil mulheres.
“Até recentemente, o câncer de mama, assim como o de próstata, não era considerado de crescimento rápido.
Portanto, a fim de poupar o tecido saudável em relação ao com tumor, sempre foram dadas pequenas frações (de radioterapia) por um período extenso”, contextualiza.
Yarnold sugere que as taxas de proliferação do câncer de mama após a cirurgia são maiores e que é possível que uma parte significativa da dose curativa de radioterapia diariamente “esgote” o tumor.
“A nossa hipótese é de que uma programação mais curta, com uma dose mais elevada, sendo a dose total acumulada até menor que o convencional, torne o regime de tratamento mais eficaz.

Os resultados obtidos na fase B desse ensaio clínico mudaram o cronograma de radioterapia-padrão no Reino Unido em 2009. “Poderíamos ser capazes de encurtar a duração de um curso de radioterapia ainda mais.
Regimes menores – talvez com radiação confinada ao leito do tumor, em vez de toda a mama – contribuem para menos efeitos colaterais, além de ser mais conveniente para o paciente o sistema de saúde pública.

Esses são exatamente os pontos enfatizados por Silvestrini. Segundo o oncologista, estudos fortalecem o melhor aproveitamento da radioterapia em países em que o acesso à ela é dificultado.
“Aqui no Brasil, onde existe carência de aparelhos e filas de pacientes que precisam do procedimento, você consegue liberar o equipamento antes e deixar que mais pessoas sejam tratadas.
Isso é interessante.

Cadela ajuda homem a descobrir câncer de mama; doença não é exclusiva do sexo feminino

Mesmo raro, o câncer de mama masculino pode ser muito perigoso. Sem obter qualquer incentivo para a realização de exames preventivos como a mamografia, a detecção da doença é feita em estágio avançado na maioria dos casos, o que dificulta o tratamento e aumenta as chances de metástase.

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Não fosse por uma patada da sua cadela Layka (Foto ao lado) o belo-horizontino Evandro de Azevedo, hoje morador de Campo Belo-MG, jamais teria sentido dor. Não fossem a dor e a queimação sentidas, ele não teria sequer procurado um médico.
Afinal, que homem, aos 59 anos, completamente saudável, sem nunca ter adoecido gravemente, poderia desconfiar de um câncer na mama?.

Nenhum. Afinal, o câncer de mama raramente acomete pessoas do sexo masculino. Para cada 100 mulheres, apenas um homem é diagnosticado com a enfermidade, e mesmo assim, na faixa etária a partir dos 65 anos. Evandro, apesar de mais jovem, foi surpreendido pela doença.

Câncer de mama: cientistas buscam biomarcadores para otimizar tratamento

No ano passado, ele estava brincando com a Layka, sua cadela de 6 anos, da raça bernese, quando ao ficar de pé, ela apoiou uma das patas em seu peito, no lado esquerdo. Ele conta que neste momento sentiu um dor terrível, muito forte, mas não chegou a se preocupar.
Cerca de três dias depois do episódio, ele sentiu um caroço se formando, mas imaginou que pudesse ser um machucado, reflexo da contusão que sofrera.
Com o tempo, no entanto, o caroço foi crescendo e Evandro começou a sentir uma espécie de queimação no local.
“Eu massageava, não contava para ninguém, pensava que ia passar, mas não passava”, lembra.

Foi só no meio deste ano que ele decidiu mostrar o machucado para a família, que recomendou imediatamente a procura por um médico. Assim o fez, e após passar por uma bateria de exames em Campo Belo, o médico pediu a realização de uma biópsia, em Lavras. Com o resultado, ficou constatada a neoplasia na mama esquerda, ou o câncer de mama.

De acordo com a médica oncologista, Dra. Carolina Rutkowski, o caso de Evandro não é padrão, já que o câncer de mama nem sempre se apresenta de forma dolorosa.
Nos homens, a forma mais comum de se descobrir a doença é ao notar a presença de um nódulo endurecido, que pode ser fixo ou móvel, característica que varia de acordo com o estágio da enfermidade.
“Como o homem não tem a mama volumosa, como a da mulher, fica mais fácil a descoberta”, explica a médica.

Por outro lado, a falta de recomendação por cuidados com a doença pode agravar a maioria dos casos. “Nas mulheres, o câncer de mama pode ser precocemente diagnosticado através da mamografia. Nos homens, não há recomendação para a realização do exame devido ao baixo índice de casos registrados.
Dificilmente, ao notar um caroço na mama, o homem pensará em câncer.
E é neste período que a doença pode evoluir”, alerta.

Evandro não imaginava que a dor que sentia no peito poderia ser um câncer, tanto que demorou a marcar a consulta com o médico. Felizmente, no caso dele, apesar do longo tempo percorrido desde a descoberta do nódulo até a realização da biópsia, a doença não se espalhou para outros órgãos.
Quando isso ocorre, acontece o fenômeno que os médicos chamam de metástase, uma fase muito mais perigosa e a principal causa de morte entre pacientes com câncer.

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Causas

Nos homens, assim como nas mulheres, o câncer de mama não tem uma causa única, mas fatores de risco associados, tais como a mutação do gene BRCA, que é muito rara (caso da atriz Angelina Jolie), o tabagismo, o alcoolismo, a obesidade e a predisposição genética.
Nos homens, porém, algumas patologias como a síndrome de Klinefelter e a ginecomastia podem elevar as chances de desenvolver a doença.
O uso de hormônios também é considerado um fator de risco.

Tratamento

O tratamento do câncer de mama masculino geralmente segue os mesmos princípios do utilizado na população feminina. A cirurgia ainda é a principal ferramenta terapêutica, sendo que a quimioterapia e a radioterapia podem ser indicadas.
Evandro (Foto ao lado) já passou por duas etapas do processo, tendo feito a cirurgia, e a primeira, das quatros sessões de quimioterapia.
Apesar de ambos os métodos apresentarem uma variedade de efeitos colaterais e exigirem uma série de cuidados, a única coisa que tira Evandro do sério é o trajeto até Belo Horizonte.
“São quatro horas de viagem e acaba ficando muito cansativo”, diz, lembrando não ter sentido “absolutamente nada” após a primeira sessão de quimioterapia.

Para a Dra. Carolina Rutkowski, apesar deste ser um fator muito individual, que varia de paciente para paciente, é também graças aos avanços da medicina que os efeitos da quimioterapia têm ficado mais brandos, ao passo que as chances de cura da doença têm aumentado cada vez mais.
“Graças às infinitas opções de tratamento, a taxa de sobrevida para pessoas que tiveram um câncer têm aumentado ao longo do tempo.
Para os cânceres descobertos ainda no estágio 1, por exemplo, há 95% de chances de cura”, comemora.

Com fé nas estatísticas, nos médicos que o acompanham e em Deus, Evandro não tem mais do que se queixar. Para ele, a vida segue normalmente, e seu único objetivo neste momento é terminar logo o tratamento. Assim, ele terá mais tempo para desfrutar ao lado de Layka e da esposa Vera. “Quanto antes for diagnosticado, melhor o prognóstico.
Pois, como na mulher, os índices de cura para o diagnóstico precoce são de cerca de 80% a 90%, enquanto que, se descoberto tardiamente, este índice cai brutalmente, atingindo apenas 10% a 20% dos casos”, revela o cirurgião oncológico do Hospital e Maternidade São Luiz (São Paulo), Renato Santos.

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