Laparoscopia de portal único: técnica viável na área de ginecologia permite operar com uma simples intervenção pelo umbigo

Laparoscopia de portal único: técnica viável na área de ginecologia permite operar com uma simples intervenção pelo umbigo

 

É um desafio diagnosticar o câncer de ovário. A doença costuma evoluir silenciosamente e mais da metade dos casos são descobertos em fase avançada. Não existe um método seguro para rastrear o surgimento de tumores e a única maneira de confirmar a suspeita é recorrer à cirurgia, o que torna o processo ainda mais demorado e doloroso.
Especialistas ao redor do mundo estudam ampliar o uso da laparoscopia de portal único – que permite operar a paciente por um simples corte no umbigo – para casos oncológicos.
Em Belo Horizonte, a técnica começa a ficar frequente para a retirada de cistos ovarianos com baixo risco de malignidade.
Mais de 50 mulheres já foram submetidas ao procedimento.

Todo mês, o ovário produz um ou mais cistos que se rompem e liberam um óvulo, desaparecendo em seguida. Os que preocupam são aqueles que permanecem no abdômen.
“Qual o problema de ter um cisto ovariano persistente? A dúvida é se ele é benigno ou maligno”, esclarece o ginecologista Admário Silva Santos Filho, coordenador da recém-montada equipe para realizar a técnica no Hospital Life Center.
Além da persistência, alteração na forma, tamanho, conteúdo e vascularização apontam para a malignidade, mas nem os exames de imagem dão certeza.
Somente com a biópsia o médico consegue definir se o cisto é normal ou precisa ser retirado, por isso a necessidade de encaminhar a paciente para a cirurgia, que funciona como método terapêutico e de diagnóstico.

O procedimento, porém, não é indicado para toda mulher com cisto persistente. Em 70% dos casos, basta o acompanhamento clínico.
“Se você tem um cisto hoje e daqui a seis meses vê pelo ultrassom que ele cresceu, mudou de forma e está provocando dor, aí pode indicar a cirurgia”, pontua outro integrante da equipe, o também ginecologista Maurício Bechara Noviello.

Até então, a paciente que ia para a sala de cirurgia era submetida à laparoscopia convencional, com três ou quatro incisões no abdômen. O que muda é a possibilidade de operar com apenas uma. “Não é um tratamento diferente, apenas um modo diferente de chegar ao abdômen da paciente”, informa Admário Filho.
O médico faz um corte no fundo do umbigo de 2,5 cm a 3 cm, por onde passam a câmera e os instrumentos.
Aproveitando a elasticidade da pele, é possível retirar o cisto e até o ovário, se ficar constatado que ele está tomado pelo tumor.
O procedimento dura, em média, 40 minutos.

Depois de operar mais de 50 pacientes com cisto ovariano no Hospital da Baleia, pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a equipe mineira agora concentra os trabalhos no Hospital Life Center, atendendo por convênio ou particular. A expectativa é oferecer a cirurgia para pelo menos 10 mulheres por mês.

Com base nos resultados de um estudo realizado na Itália, os especialistas destacam que a laparoscopia de portal único oferece uma série de benefícios às pacientes, entre eles menos dor no pós-operatório e recuperação mais rápida. “Numa cirurgia minimamente invasiva, conseguimos agredir menos a paciente.
Assim, ela vai usar menos analgésico, ficar menos tempo internada e retornar às suas atividades mais rapidamente.
Hoje em dia, para mulher ativa isso é muito importante”, reconhece Noviello.
Normalmente, os médicos dão alta em 24 horas.
Há também o ganho estético, já que a cicatriz fica escondida no umbigo.

Estudo brasileiro

O ginecologista Sérgio Conti Ribeiro, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), comanda o estudo brasileiro, com previsão de ser concluído no fim do ano que vem, que vai comparar a laparoscopia convencional com a de portal único.
“Vemos que os resultados são semelhantes, mas há a vantagem estética e algumas pacientes tem recuperação ainda melhor”, adianta.
Há mais de três anos, o Hospital das Clínicas da USP utiliza a técnica em casos de menor complexidade: histerectomia (retirada de útero), cistos de ovário e doenças nas trompas uterinas.
Apesar de estar mais avançado que em Belo Horizonte, o centro paulistano também não tem experiência em casos oncológicos.
Ribeiro entende ser fundamental difundir a técnica em mais centros no Brasil.

Para pacientes com alta probabilidade de ter um tumor maligno, acredita-se que o benefício pode ser ainda maior. Já que as pesquisas apontam para uma recuperação mais rápida, a mulher submetida à laparoscopia de portal único vai iniciar mais precocemente a quimioterapia, principalmente nos casos em que não se vê vantagem em retirar o tumor.
Filho diz que isso é comum em câncer de ovário, pois o órgão circula livremente pelo abdômen e as células tumorais se espalham em pouco tempo.
“Às vezes, você abre a paciente e encontra nódulos do tumor ovariano dispersos em todo o abdômen, o que impossibilita a retirada completa.
Tem que partir para quimioterapia ou até operar de novo.

De acordo com o ginecologista, não dá para começar o tratamento com remédios logo depois da confirmação do diagnóstico. A quimioterapia interfere na cicatrização. Em cirurgia com corte tradicional de abdômen, é preciso esperar pelo menos um mês.
Já com a laparoscopia de portal único, em que a recuperação é mais rápida, a paciente consegue marcar uma consulta com o oncologista em duas semanas.
Mesmo comparando com a laparoscopia convencional, há ganhos: menos áreas que precisam ser cicatrizadas e menor chance de gerar metástase.
Isso porque, explica Filho, as células malignas podem se disseminar para a região que foi cortada, formando nódulos.

Apesar de ser uma técnica promissora, a laparoscopia de portal única não deve ser usada indiscriminadamente. O ginecologista da USP, por exemplo, não opera pacientes extremamente obesas ou com útero volumoso. “A indicação parte de uma avaliação criteriosa do médico.
Nem toda paciente pode fazer essa cirurgia, mas isso também ocorre com a laparoscopia convencional”, ressalta o coordenador da equipe do Hospital Life Center.
Frequentemente, uma laparoscopia convencional dá lugar a uma cirurgia com corte tradicional, pois o especialista avalia que é necessário apalpar a região.
Também existe a possibilidade de aumentar as incisões em uma paciente que seria operada por portal único.

Memória: técnica antiga que evolui

Realizada em 1941, a primeira laparoscopia (cirurgia com câmera) foi feita por meio de portal único. A intenção era ligar as trompas da paciente. Com a evolução da técnica, pesquisadores tiveram a ideia de fazer outros cortes menores no abdômen para facilitar o procedimento.
Na época, a intervenção com corte único no umbigo caiu por terra, pois já era uma novidade operar com apenas três incisões.
Mas a tendência da medicina é propor tratamentos menos invasivos, o que fez ressurgir a laparoscopia de portal único, hoje usada com frequência para a retirada de vesícula.
Especialistas dos Estados Unidos, Itália e Coreia do Sul, onde são desenvolvidos os principais trabalhos, conseguiram provar que a técnica, explorada internacionalmente a partir de 2010, era viável na área de ginecologia.