Saiba o que é esclerose múltipla, sintomas e tratamentos

Uma doença autoimune ocorre quando o sistema imunológico de uma pessoa reconhece como inimigo e passa a atacar o seu próprio organismo. No caso da esclerose múltipla, o sistema de defesa do paciente provoca danos ou a destruição da mielina, uma substância que envolve e protege as fibras nervosas do cérebro, da medula espinhal e do nervo óptico.
Quando isso acontece, são formadas áreas de cicatrização (ou escleroses) e aparecem diferentes sintomas sensitivos, motores e psicológicos, que vão desde dormência nos membros até paralisia ou perda da visão.
A doença prejudica a condução das mensagens que controlam todos os movimentos conscientes do organismo.

O que é esclerose múltipla

O que é esclerose múltipla

É uma doença inflamatória crônica que afeta o sistema nervoso central. Esse processo se inicia no linfócito (célula de defesa), que é ativado por algum estímulo imunológico, como no ataque de um vírus, por exemplo.
A esclerose múltipla ocorre quando o organismo ataca de forma anômala uma fração da mielina, proteína que compõe o sistema nervoso central, causando a desmielinização focal (A desmielinização é característica de muitos distúrbios neurológicos e poderão produzir-se lesões locais, isquemia, tóxicos ou alterações metabólicas).

A esclerose múltipla (EM) é uma doença inflamatória que não tem cura e extremamente invasiva. Atinge as fibras nervosas responsáveis pela transmissão de comandos do cérebro a várias partes do corpo, provocando um descontrole interno generalizado.
Muitas vezes o termo esclerosado é usado para as pessoas que perdem a memória ou apresentam outras confusões mentais quando vão envelhecendo.
Não tem nada a ver! A esclerose múltipla não tem nenhuma relação com as limitações que surgem com o envelhecimento.
Trata-se de um problema comum em adultos jovens, na faixa de 20 a 40 anos.
O maior pico é por volta dos 30 anos.
Raramente pessoas na terceira idade desenvolvem a doença.

A esclerose múltipla não é um processo degenerativo contagioso e, na maioria dos casos, não é fatal. Apesar de não ser herdada, atinge pessoas geneticamente predispostas a doença e se manifesta de diferentes modos. Atualmente, há cerca de 35 mil brasileiros que sofrem deste mal.
E, em geral, as mulheres são as mais atingidas (na proporção de duas mulheres para um homem).

Como se desenvolve

Cerca de 80% dos casos evoluem com a sucessão dos episódios da doença. Estes surtos, inicialmente, costumam se reverter por intervenção médica ou espontaneamente. São casos conhecidos como surto-remissivo, que não deixam sequelas.
O passar do tempo e a repetição dos episódios, entretanto, são fatores que diminuem gradativamente a capacidade cognitiva dos pacientes.
O restante dos casos é diagnosticado como primariamente progressivos desde seu início, forma mais agressiva e pouco responsiva às terapias atualmente disponíveis.

A esclerose múltipla pode se manifestar de 4 formas:

  • Remitente-recorrente: é a manifestação clínica mais comum, caracterizada por surtos que duram dias ou semanas e, em seguida, desaparecem.
  • Progressiva-primária: apresenta uma progressão de sintomas e comprometimentos (sequelas) desde o seu aparecimento.
  • Progressiva-secundária: pacientes que evoluíram da forma remitente-recorrente e vão piorando lenta e progressivamente.
  • Progressiva-recorrente: do tipo progressiva com surtos.
    Desde o início da doença, mostra a progressão clara das incapacidades geradas a cada crise.

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A ciência ainda não descobriu a causa da doença nem sua cura (atribui-se à doença a uma reação auto-imune do organismo, que em algum momento e por algum motivo, começa a atacar o Sistema Nervoso Central). Acredita-se que o motivo mais provável seja um vírus não identificado até o momento.

Entendendo o desenvolvimento da esclerose múltipla

Ainda não se sabe o porquê do ataque ao Sistema Nervoso Central, que é dirigido à mielina – uma substância gordurosa que cobre as fibras nervosas do cérebro e facilita a comunicação entre as células. Esse ataque acontece silenciosamente e recebe o nome de desmielinização (o processo de destruição das camadas da mielina).
Uma vez que as camadas da mielina vão sendo destruídas, as mensagens que saem do cérebro são atrasadas ou bloqueadas de vez, alterando, assim, o funcionamento da região que esperava um comando de ordem.
Onde quer que a camada protetora seja destruída, forma-se um tecido parecido com uma cicatriz.
Daí o nome esclerose.
E é múltipla, pois atinge várias áreas do cérebro e da medula espinhal .
A gravidade de cada caso está relacionada com a área afetada.
Se atinge a medula, o paciente geralmente manifesta fraqueza, dormência ou paralisia dos braços e pernas.
Não se tem como avaliar o desgaste da mielina; por isso, o diagnóstico é basicamente clínico, baseado nas queixas dos pacientes, em seu histórico médico, na avaliação dos sintomas e na existência de sinais neurológicos (através de testes para avaliação de coordenação, reflexos e sensibilidades).
Exames como ressonância magnética, avaliação do líquido da medula espinhal (líquor) e potencial evocado também são fundamentais neste momento.

  • Em geral, os primeiros sintomas da doença aparecem entre 15 e 45 anos.
  • Pais com esclerose múltipla têm de 1% a 1,5% de chance de terem filhos com a enfermidade.
  • Em todo o mundo, são cerca de 2 milhões de pacientes com esclerose. No Brasil, estima-se que a patologia atinja 30 mil.
  • Entre os brasileiros, cerca de 15 mil estão em tratamento.
    Os demais não sabem que têm esclerose ou tratam a doença de forma errada.
  • Uma pessoa demora, em média, sete anos até conseguir o diagnóstico correto.
  • Memória – Santa Lidwina: A primeira descrição de um caso de esclerose múltipla possivelmente refere-se à Santa Lidwina de Schiedam, que viveu na Holanda nos séculos 14 e 15 (1380-1433).
    A doença da Santa Lidwina começou pouco depois de uma queda enquanto ela patinava, aos 16 anos.
    A partir desse episódio, Lidwina desenvolveu dificuldade a andar, cefaleias e dores violentas nos dentes.
    Três anos depois, suas pernas estavam paralisadas e surgiram problemas de visão.
    Durante os 34 anos seguintes, até sua morte, aos 53, sua condição piorou lentamente, apesar de ter apresentado períodos aparentes de remissão.
    Os sintomas da doença, descritos em vários textos, são consistentes com os da esclerose múltipla, bem como a idade de início dos sintomas, duração e evolução da doença.

O que fazer para ajudar

  • A atenção da família e de pessoas próximas é essencial ao doente. Como o indivíduo perde a capacidade de fazer coisas simples, o apoio familiar ajuda a manter sua vida quase normal e sua saúde mental em melhor condição.
  • É importante controlar o estresse físico e emocional.
  • Sessões de fisioterapia auxiliam no tratamento.
  • Procurar reduzir o excesso de peso e praticar algum tipo de atividade física (caminhada, hidroginástica, por exemplo).

Principais sintomas da esclerose múltipla

A fase inicial da esclerose múltipla é bastante sutil. Os sintomas são transitórios, podem ocorrer a qualquer momento e duram aproximadamente uma semana. Tais características fazem com que o paciente não dê importância às primeiras manifestações da doença que é remitente-recorrente, ou seja, os sintomas vão e voltam independentemente do tratamento.

Os sinais (surtos) da esclerose múltipla dependem da localização da lesão inflamatória no sistema nervoso central. Os sintomas da doença podem variar desde uma alteração visual, fraqueza ou dormência muscular, distúrbios de linguagem, alterações de equilíbrio e da sensibilidade em um momento ou mesmo em uma metade corporal.

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A pessoa pode passar dois ou três anos apresentando pequenos sintomas sensitivos, pequenas turvações da visão ou pequenas alterações no controle da urina sem dar importância a esses sinais, porque, depois de alguns dias eles desaparecem.
Com a evolução do quadro, aparecem sintomas sensitivos, motores e cerebelares de maior magnitude representados por fraqueza, entorpecimento ou formigamento nas pernas ou de um lado do corpo, diplopia (visão dupla) ou perda visual prolongada, desequilíbrio, tremor e descontrole dos esfíncteres.

Febre, banhos quentes, exposição ao sol e estresse podem desencadear ou piorar os ataques. É comum que a doença retorne (recaída). Contudo, a doença pode continuar a piorar sem períodos de remissão.
Como os nervos de qualquer parte do cérebro ou da medula espinhal podem ser danificados, os pacientes com esclerose múltipla podem ter sintomas em muitas partes do corpo.
Sintomas musculares:

  • Perda de equilibrio
  • Espasmos musculares
  • Dormência ou sensação anormal na zona
  • Problemas para movimentar braços e pernas
  • Dificuldade para andar
  • Problemas de coordenação e para fazer pequenos movimentos
  • Tremor em um ou mais membros
  • Fraqueza em um ou mais membros

Sintomas da bexiga e do intestino

  • Constipação e incontinência fecal
  • Dificuldade para começar a urinar
  • Necessidade frequente de urinar
  • Forte vontade de urinar
  • Incontinência urinária

Sintomas nos olhos:

  • Visão dupla
  • Incômodo nos olhos
  • Movimentos rápidos dos olhos incontroláveis
  • Perda de visão (geralmente afeta um olho de cada vez)

Dormência, formigamento ou dor

  • Dor facial
  • Espasmos musculares dolorosos
  • Formigamento ou ardência de braços e pernas

Outros sintomas nervosos ou do cérebro:

  • Atenção e capacidade de julgamento diminuídas, perda de memória
  • Dificuldade para raciocinar e resolver problemas
  • Depressão ou sentimentos de tristeza
  • Tontura e problemas de equilíbrio
  • Perda de audição

Sintomas sexuais:

  • Problemas de ereção
  • Problemas com a lubrificação vaginal

Sintomas da fala e de deglutição:

  • Fala arrastada ou difícil de entender
  • Dificuldade para mastigar e engolir

A fadiga é um sintoma comum e incômodo à medida que a esclerose múltipla progride. Muitas vezes piora no fim da tarde.

Formas de diagnosticar a esclerose múltipla

A avaliação deve ser realizada por um neurologista especializado, pois é necessário uma extensa rotina de testes para que se obtenha um diagnóstico minucioso. A bateria de exames para detectar a doença inclui análise neurológicas e paraclínicas (líquido cefalorraquidiano, eletrofisiologia, potenciais evocados visuais e ressonância magnética).

O diagnóstico não é simples e pode levar alguns anos para ser feito corretamente, pois os sintomas se assemelham, em alguns casos, com outros tipos de doenças do sistema nervoso (devido aos sintomas iniciais, muitas vezes o paciente nem procura orientação médica).

Entre os principais sintomas da doença estão alteração no controle de urina e fezes, comprometimento da memória, depressão, dificuldades de movimentos, fala e deglutição, dores articulares, dormências, fadiga intensa, mudanças de humor, paralisia total ou parcial de uma parte do corpo, perda da visão em um ou ambos os olhos, queimações, sensações de formigamento, tremores e tonturas.

Segundo o neurologista Dagoberto Callegaro, “estes sinais podem levar horas ou dias para aparecer.
Em média, a doença inicia com um surto por ano ou um a cada dez meses.
Chamamos de surto um novo sintoma neurológico que provoca uma alteração sensitiva ou motora”.

A forma mais comum de esclerose múltipla é a recorrente-remitente (quando os surtos podem deixar sequelas ou não). A primário-progressiva é a pior forma de esclerose, onde a evolução da doença é galopante. A rápida progressão pode causar paralisia dos membros, perda da visão ou demência se não for tratada a tempo.

O tratamento da esclerose múltipla

tratamento da esclerose múltipla

Não há tratamentos preventivos para a esclerose múltipla. Os imunomoduladores são medicamentos usados para reduzir o impacto dos surtos.
Porém, um recente estudo clínico, chamado Benefit, feito com 468 pacientes, revelou que a intervenção precoce com betainterferona – quando surgem as primeiras queixas de memória e sinais como fadiga excessiva – é capaz de melhorar a função cognitiva de pacientes com até dois anos de diagnóstico da doença.

O tratamento da esclerose múltipla (EM) tem por objetivo diminuir a atividade do sistema imunológico e evitar que este destrua ainda mais a mielina. É por isso que são utilizados corticoides e imunomoduladores (interferon-b).
Além disso, o tratamento irá melhorar a qualidade de vida do doente através da redução dos distúrbios (motores, incontinência urinária, reeducação por cinesioterapia).

Corticoides: os corticoides são geralmente administrados por perfusão em um meio hospitalar. Mas eles também podem ser tomados por injeção intramuscular e por via oral.

Interferons-b : O interferon-b é uma proteína que possui propriedades antivirais e imunomoduladoras. Sua ação é importante na esclerose múltipla, doença de caráter auto-imune. Os doentes devem injetar o medicamento por via sub-cutânea. O medicamento é indicado para reduzir as fases de surtos.

O acetato de glatiramer: Trata-se de um imunomodulador.

Reeducação por cinesioterapia: o doente sofre frequentemente com distúrbios motores. Uma reeducação é geralmente necessária e pode melhorar a sua qualidade de vida. Além disso, o médico poderá prescrever baclofeno para reduzir os episódios espásticos.

É claro que este tipo de medicação implica em um rigoroso acompanhamento médico.

Esclerose múltipla: novos medicamentos garantem qualidade de vida a pacientes

A luz no fim do túnel

Atualmente não existe a cura para a doença. Entretanto, como vimos, as pesquisas não param. Existem avanços na área e novos medicamentos que possam, pelo menos, tornar os efeitos da esclerose múltipla menos agressivos. É o caso dos remédios chamados imunomoduladores e imunossupressores (capazes de aliviar ou reduzir os sintomas da esclerose).

O acompanhamento terapêutico também é fundamental ao paciente de esclerose múltipla, cuidar da mente é tão importante quanto tomar a medicação correta. O neurologista Cícero Galli Coimbra afirma que, “O sistema imunológico é ativado toda vez que enfrentamos uma situação de estresse grave.
Avisado de que algo está errado em nosso organismo, ele começa a vasculhá-lo na tentativa de identificar ‘invasores’ como vírus e bactérias.
Por fim, acaba atacando a bainha de mielina que envolve os neurônios.
Com a estabilidade emocional, 85% dos surtos podem ser reduzidos.
Psicoterapia e terapia ocupacional são indicadas para organizar os pensamentos e as atividades”.

Não há como prevenir a esclerose múltipla. Nem se pode afirmar quem ou não é propenso à doença. A recomendação é manter uma dieta equilibrada. E para aqueles que já foram atingidos pelo mal, uma dieta adequada é recomendada:

  • As fibras presentes em cereais integrais e leguminosas ajudam a fazer a digestão.
  • Dietas de baixo teor de gorduras saturadas (presente em produtos de origem animal) e ricas em ômega 3 podem retardar a evolução da doença (baseado em estudos realizados).
  • Evite ingerir alimentos duros, pois são difíceis de digerir e podem provocar engasgos.
  • Refeições pastosas ou líquidas (purês e/ou sopas) são as mais recomendadas.

Cientistas testam novo tratamento contra esclerose múltipla

Cientistas testam nova abordagem para tratar o problema que, ao contrário das terapias atuais, não danifica o sistema imunológico do paciente. Primeira fase de testes clínicos da terapia experimental mostrou que abordagem é segura e, diferentemente dos tratamentos disponíveis hoje, não debilita o sistema imunológico do paciente

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Uma equipe internacional de cientistas está testando uma nova abordagem para tratar pessoas com esclerose múltipla, uma doença autoimune cuja causa é desconhecida e para a qual não existe cura.
Os resultados da primeira fase dos testes mostraram que a terapia experimental é promissora por atenuar os sintomas da doença sem que o sistema imunológico do paciente seja debilitado, o que é um efeito adverso dos tratamentos disponíveis atualmente.
Os responsáveis por essa pesquisa acreditam que a terapia também poderia ser aplicada para tratar outras doenças autoimunes e alérgicas. O estudo completo foi publicado na revista Science Translational Medicine.

Essa nova pesquisa foi desenvolvida por pesquisadores da Alemanha, Áustria, Suíça e Estados Unidos. A primeira fase dos testes clínicos (ao todo, são necessárias três etapas para que um tratamento se prove eficaz) foi realizada na Alemanha, com nove pacientes que apresentavam esclerose múltipla.

A equipe usou células de glóbulos brancos dos participantes para “injetar” bilhões de antígenos de mielina em seu organismo. O objetivo era que o sistema imunológico dos pacientes os reconhecesse como inofensivos e desenvolvesse uma tolerância. O tratamento conseguiu reduzir a reatividade do sistema imunológico à mielina de 50% a 75%.

De acordo com o estudo, os participantes que receberam a dose mais alta de células de glóbulos brancos com o antígeno tiveram a maior redução na destruição da mielina. Os resultados mostraram que o tratamento é seguro e bem tolerado. A injeção intravenosa não provocou efeitos adversos e os pacientes não tiveram uma recaída, e sua imunidade a patógenos não foi afetada.

“Nosso enfoque deixa intacta a função do sistema imunológico normal. O tratamento detém a resposta autoimune que já está ativada e previne a ativação de novas células autoimunes”, diz Stephen Miller, professor de microbiologia e imunologia da Escola de Medicina da Universidade Northwestern, Estados Unidos, e um dos autores do estudo.

Segundo os cientistas, porém, é preciso lembrar que o número de pacientes nesse teste foi pequeno e ainda não é possível determinar se o tratamento previne, de fato, a progressão da esclerose múltipla. Por esse motivo, é preciso que sejam concluídas as próximas etapas da pesquisa clínica.
De acordo com o pesquisador, estudos não clínicos (feitos com animais ou culturas de células) anteriores apontaram que a terapia também é eficaz no tratamento do diabetes tipo 1, da asma e da alergia ao amendoim.

Novo Medicamento

Há um novo medicamento contra a esclerose múltipla: o Fingolimod (nome da molécula), disponível no Brasil. Este medicamento desenvolvido pelo laboratório farmacêutico Suíço Novartis seria de acordo com eles 52% mais eficaz do que os medicamentos convencionais, tais como o interferon.

O mecanismo de ação desse medicamento é diferente dos tratamentos existentes até hoje no mercado, tais como o interferon. Para simplificar o Fingolimid impede a liberação de células de defesa que atacam a bainha de mielina (ver definição de esclerose múltipla).

No entanto, este medicamento também pode causar sérios efeitos colaterais, especialmente ao nível cardíaco. Este medicamento deve ter uma reforçada monitorização cardíaca no prazo de 24 horas após a primeira dose, de acordo com a Agência francesa de medicamentos (Afssaps).

Buscando ajuda médica

Ligue para seu médico se:

  • Você desenvolver sintomas da esclerose múltipla.
  • Os sintomas piorarem, mesmo com o tratamento.
  • A doença piorar na medida em que o cuidado doméstico deixe de ser factível.

 

Esclerose múltiplaA revista Multiple Sclerosis publicou um estudo acompanhado, por 11 anos, pelos comitês Americano e Europeu para Tratamento e Pesquisa em Esclerose Múltipla em Boston, Massachusetts.
O resultado revela que o tratamento precoce com betainterferona-1b diminui os efeitos das complicações motoras e sensitivas dos pacientes em estágio inicial da doença.
Para saber sobre o tema, leia a entrevista com o médico Roberto de Magalhães Carneiro de Oliveira (foto ao lado), coordenador da Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz (SP):

O que traz de inédito essa pesquisa se a betainterferona-1b está no mercado há 25 anos?

Esse foi o primeiro estudo longo com pacientes na fase inicial da doença, que mostrou benefícios no tratamento precoce com a beta-interferona-1b. É importante ressaltar que o fato dessa droga estar há tanto tempo no mercado somente reforça sua eficácia na prevenção de surtos por causa da doença.

Como agem as medicações mais modernas e eficientes, disponíveis hoje para o tratamento da esclerose múltipla?

Quando se fala em medicações mais modernas, não estamos falando necessariamente de medicações mais eficientes. Precisamos entender o tratamento da esclerose múltipla como ele é preconizado hoje no mundo inteiro. Em primeiro lugar, ele deve ser individualizado, ou seja, para cada paciente é necessário avaliar qual a estratégia mais adequada.
Isso inclui o medicamento de maior eficácia e melhor aderência, sem esquecer do princípio hipocrático primo non nocere (primeiro não agredir).
Não é interessante expor o paciente a um remédio que pode favorecer o aparecimento de câncer ou infecções fatais, por imunossupressão, indicando que, com essa droga, ele não terá surtos.
As medicações mais novas agem de diferentes formas e a maioria delas é imunossupressora.
Podemos analisar o caso do fingolimode, que retira as células de defesa de circulação, prendendo-as nos linfonodos.
Costumo dizer que é como retirar a polícia das ruas, deixando-as dentro das delegacias esperando que os bandidos vão até lá para serem presos.
Não por acaso, nos estudos pivotais dessa droga ocorreram casos de melanoma e câncer de mama, além de zoster sistêmico.
A teriflunomida, outro medicamento por via oral, tem na sua bula nos Estados Unidos, a advertência da possibilidade de causar insuficiência hepática fatal.

Por que as mulheres adultas são consideradas o maior grupo de risco?

A incidência da esclerose múltipla é maior em mulheres (seis para cada homem), a partir da terceira e quarta décadas de vida. Muitas vezes, a doença se manifesta mais cedo, mas o diagnóstico é feito tardiamente.

É possível com o tratamento impedir a progressão da doença?

O advento dos imunomoduladores mudou a história da esclerose múltipla há mais de 20 anos. Antigamente, ter um diagnóstico desse era quase uma sentença de incapacidade física em 10 anos. Hoje, vemos pacientes com 20 e tantos anos de doença levando a vida com independência e poucas limitações.
É importante ressaltar que cada caso é diferente do outro, e, mesmo que em um único paciente, o comportamento da doença pode variar com o tempo.
A patologia pode começar de maneira mais tranquila e ficar agressiva ou começar agressiva e responder bem ao tratamento.
Hoje, dispomos de medicamentos de primeira linha, os imunomoduladores.
Caso eles não surtam o efeito esperado, vamos para os de segunda linha (natalizumabe, daclizumabe, alentuzumabe, fingolimode, teriflunomida).
Se ainda assim não houver controle, aí então passamos para os de terceira linha (imunossupressores como ciclofosfamida) ou até mesmo para transplante autólogo de medula óssea.

Quais são os desafios hoje para descobrir a causa e a cura da esclerose?

A esclerose múltipla, ao que sabemos hoje, é uma doença multifatorial, que envolve predisposição genética, alterações ambientais (como deficiência de vitamina D) e infecções virais. Quando se tem muitos fatores associados, entendemos que a doença seja consequência da somatória deles.

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Necessariamente, o paciente de esclerose terá mais perdas motoras e cognitivas quanto mais tempo viver?

Isso dependerá da atividade da doença e da resposta ao tratamento.

Quais são as expectativas para o futuro em relação à doença, em termos de pesquisas e novos medicamentos?

Temos boas perspectivas de novas drogas para a esclerose múltipla. Hoje, falamos em pacientes livres da doença e pacientes sem evidência de atividade da doença. Devemos ter medicamentos mais eficazes e seguros dentro de alguns anos.

Por que ainda é tão difícil diagnosticar a patologia?

O passo mais importante no diagnóstico é suspeitar da doença. O diagnóstico demora, na maioria das vezes, por conta de consulta a profissionais de outras especialidades, que acabam por desconhecer os sintomas variados da esclerose múltipla.

O diagnóstico tardio é um problema do Brasil?

Não somente no Brasil, como em todo o mundo. Como para chegar ao diagnóstico correto da doença é necessário realizar exames de imagem (ressonância magnética) e laboratoriais, há também uma limitação econômica para o público de baixa renda.

Além da medicação tradicional, há tratamentos paliativos e alternativos que comprovadamente trazem qualidade de vida aos pacientes com esclerose?

Quando se pesquisa sobre tratamento da esclerose múltipla, é possível encontrar tratamentos alternativos com picada de abelha, ingestão da própria urina, injeções de sangue no músculo e doses ultraelevadas de vitamina D. Não há comprovação científica de eficácia de qualquer uma dessas possibilidades.
Já atendi a pacientes com oito vezes o limite normal de vitamina D e apresentando surto intenso.
Diga-se de passagem, a vitamina D em doses elevadas pode levar até à morte.
O consenso no tratamento é de que pacientes com níveis abaixo do normal devem receber suplementação.
Quanto às outras formas de tratamento, como a psicoterapia e a acupuntura, entendo que são complementares ao convencional. Acredito que não é possível substituir um pelo outro.

Novos medicamentos garantem qualidade de vida a pacientes

Enquanto a ciência busca as causas e a cura para esclerose múltipla, novos medicamentos garantem qualidade de vida aos pacientes. Sem cura, há o controle da doença somado aos mistérios da genética que fazem com que uns respondam melhor ao tratamento e possam conviver anos sem o mal se manifestar.

Enfrentar a esclerose múltipla é combater um inimigo muito próximo: o próprio organismo. Tão intrínseco que fica impossível entrar na luta sem se ferir e provocar prejuízos a si mesmo.
A forma é metafórica, mas não deixa de ser uma representação do que enfrentam os pacientes que convivem com uma doença autoimune, que ataca a mielina (proteína que reveste as fibras nervosas e permite a condução dos impulsos nervosos), provocando inflamações e, com o tempo, a degeneração dos tecidos do sistema nervoso.
O resultado pode ser a perda progressiva dos movimentos do corpo, do equilíbrio, o comprometimento da visão, da fala, da memória e de tantas outras atividades que garantem a autonomia do corpo.

A enfermidade ainda não tem cura. Há o controle da doença somado aos mistérios da genética que fazem com que uns respondam melhor ao tratamento e possam conviver anos sem o mal se manifestar. “A doença nasce da relação entre o sistema nervoso e o sistema imune. Ambos ainda são grandes desafios para a ciência.
É necessário saber em que momento o sistema imune começa a agredir a mielina como se ela fosse estranha.
Por quê? Seria um vírus parecido com essa proteína? Seria um defeito genético? Quais fatores do ambiente que realmente podem desencadear a esclerose múltipla e quais poderiam proteger? A partir das respostas a essas perguntas, poderia se procurar a cura da doença”, esclarece a médica Elizabeth Regina Comini Frota, coordenadora do Departamento Científico de Neuroimunologia da Academia Brasileira de Neurologia.

As medicações disponíveis têm objetivo de evitar as crises que provocam lesões nas células nervosas. Sequelas muitas vezes irreversíveis e, por tantas outras, limitantes. São surtos motores, como paralisias; ou sensitivos, que provocam dormências, por exemplo.
Para amenizar os riscos de tê-los, só mesmo recorrendo a injeções aplicadas diariamente, em dias alternados ou ainda uma vez por semana. Elas oferecem uma proteção de 25% a 30% contra as crises e podem provocar uma série de efeitos colaterais, como dores de cabeça e baixa do sistema imunológico, por exemplo.

Por isso, as pequenas conquistas dos pacientes são muito importantes. Graças a uma luta conjunta por direito a mais qualidade de vida, eles se mobilizam por alguns ganhos enquanto a ciência não pode oferecer nenhum conforto definitivo.

Uma das vitórias foi a inclusão de medicação oral, o fingolimode, na lista de remédios disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde nas farmácias de alto custo de todo o país. A previsão é que o medicamento comece a ser distribuído ainda no primeiro semestre deste ano.

Para o neurologista Eber Castro Corrêa, esse é um grande passo, uma vez que a droga é mais fácil de ser administrada por ser apenas um comprimido. “Além disso, oferece 58% de proteção. Os registros mostram que os pacientes podem ter um surto a cada cinco anos. Com as outras drogas, ele está mais propenso a ter um surto a cada dois”, explica o médico.

Durante a crise, a mielina é destruída e reconstruída com uma qualidade inferior. Na prática, os impulsos elétricos cerebrais passam a ser transmitidos com mais dificuldade e, por isso, o corpo poderia entrar em colapso aos poucos. “Há outro componente da esclerose, a neurodegeneração.
Há uma perda progressiva de axiônios e neurônios, que são destruídos de forma precoce e levam a uma deficiência cognitiva e ao aumento da incapacidade”, acrescenta o médico.

A droga fingolimode é usada como primeira medicação indicada para a esclerose nos Estados Unidos e na Europa há pelo menos sete anos.
No Brasil, ela chegou há três, no entanto, só tinham acesso os pacientes que podiam desembolsar mais de R$ 7 mil por cada caixa com pílulas disponíveis para apenas um mês; os que conseguiam o pagamento pelo plano de saúde ou por meio de decisão judicial.

Agora, a medicação será distribuída gratuitamente mediante relatório médico.
Serão priorizados os casos em que a pessoa não responde bem ao uso das outras drogas existentes.
“Isso é ótimo. O paciente tem mais comodidade para fazer o tratamento e o índice de desistência registrado é de apenas 10%, enquanto no tratamento com injeções chega a 40%”, comenta o neurologista.

A conquista é enorme para um caminho com tão poucas opções. De resto, resta apostar nos estudos futuros, como a de células-tronco com habilidade para originar novas células que fabricam a mielina. “As perspectivas futuras são muito animadoras. As pesquisas apontam vários fatores que desencadeiam a doença.
Em relação ao tratamento, a melhor perspectiva é o foco na molécula que impede a recuperação da mielina.
A medida que se desenvolvem bloqueadores dessa molécula, é possível que tenhamos, nos próximos anos, um medicamento capaz de controlar a degeneração.
Outra perspectiva importante é em relação à influência dos hormônios femininos na capacidade de regeneração”, esclarece a médica Elizabeth Frota.

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