Endometriose – diagnóstico, sintomas e tratamento

A doença pode surgir da primeira à última menstruação. As pacientes, em média, levam sete anos para receber o diagnóstico. Por isso, reconhecer os sintomas já na adolescência é essencial para ter mais qualidade de vida. Tensão pré-menstrual, sangramento e cólicas fazem parte da rotina mensal das mulheres.
Do início da puberdade ao climatério, elas convivem com esses e outros fatores ligados às suas funções fisiológicas e reprodutivas.
Não bastasse todo o cuidado que um ciclo menstrual acarreta, uma importante parcela das mulheres tem sintomas mais intensos, tão fortes que diminuem drasticamente a qualidade de vida.
Esse grupo, ciente ou não, pode ter endometriose.
A doença acontece quando o tecido que reveste a cavidade uterina, o endométrio, se implanta fora do útero.
Essa anomalia pode ocorrer superficialmente na cavidade peritonial, nos ovários ou mais profundamente, invadindo órgãos como o intestino e a bexiga.
“É bastante frequente hoje.
Atinge entre 10% e 15% das mulheres em idade reprodutiva”, alerta Mauricio Simões Abrão, professor associado do departamento de Obstetrícia e Ginecologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e presidente da Sociedade Brasileira de Endometriose e Ginecologia Minimamente Invasiva (SBE).
Abrão trabalha com a patologia desde 1988, quando liderou a criação do Ambulatório de Endometriose da Clínica Ginecológica do Hospital das Clínicas da USP.
No centro, ele e outros profissionais estudam questões genéticas e imunológicas ligadas à doença e no desenvolvimento de novas técnicas para o diagnóstico precoce e não invasivo.
Confira a entrevista com o Dr.
Maurício Simões Abrão:

Qual é a importância do diagnóstico precoce da doença?

A endometriose é uma das principais causas de dor pélvica e de infertilidade na mulher. O diagnóstico precoce é fundamental para uma melhor perspectiva terapêutica. A endometriose é evolutiva. Por isso, quanto antes a identificarmos, menor será o número de casos avançados.
Estudos da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da USP de Ribeirão Preto mostram que o tempo entre o início dos sintomas e a confirmação da patologia é de 7 anos.
Dois fatores são responsáveis por tanta demora.
O primeiro é resultado da falta de acompanhamento especializado.
Isso quer dizer que a paciente passa anos sem procurar o médico, ainda que seu corpo lhe dê sinais periódicos de que algo está errado.
Além disso, o médico pode demorar a pensar na possibilidade das queixas relatadas pelas mulheres indicarem a existência da endometriose.
Por esses motivos, fazemos campanhas e ações de esclarecimento sobre a etiologia da doença para especialistas e leigos.

Veja também:   Melasma - Diagnóstico e tratamento para as manchas na pele

O que a doença implica na vida da paciente?

Fica fácil entender como ela prejudica diretamente a qualidade de vida da paciente e sua capacidade de reprodução se entendermos quais são seus sintomas. Os principais sinais são: cólicas menstruais severas; dor durante a relação sexual; dificuldade para evacuar ou urinar durante os períodos de menstruação; e dificuldade para engravidar.
Esses sintomas podem coexistir ou, eventualmente, a mulher pode apresentar um ou mais de forma mais intensa.
As cólicas, por exemplo, podem ser tão fortes que se tornam incapacitantes, impedindo que a paciente reúna condições mínimas para atividades do dia a dia.

Como uma mulher desenvolve a endometriose?

Existem inúmeras teorias sobre suas causas. A primeira mais consistente surgiu em 1927, que ligava a doença à menstruação retrógada. Quando uma mulher menstrua, ela elimina o endométrio pelo sangue. O tecido, então, pode refluir pelas tubas uterinas, antigamente chamadas de trompas, levando, assim, o endométrio à cavidade abdominal.
Outras teses associaram a patologia a variações nos cromossomos 10 e 17.
Atualmente, uma linha bastante aceita se refere a alterações do sistema imunológico da mulher.
Outras doenças que atacam o mecanismo de defesa do corpo também têm relação com o desenvolvimento da endometriose.
Por exemplo, 30% desse grupo de pacientes têm problemas na tireoide.

Endometriose – onde se localiza?

As localizações mais comuns são os ovários; as trompas; a região atrás do útero, em sua porção mais próxima da vagina; os intestinos, principalmente nas porções finais conhecidas como reto e sigmoide; a região entre a vagina e o reto; e a região onde se apoiam os ovários, local por onde passam os ureteres (tubos que levam a urina dos rins para a bexiga).
A região próxima aos ureteres é um local perigoso pois os nódulos localizados próximos aos ureteres podem crescer e “amassar ou repuxar” e diminuir a espessura deste tubo, dificultando a passagem da urina e, até mesmo, em alguns casos, impedindo esta passagem, podendo trazer danos, as vezes irreversíveis aos rins, com alguns casos descritos de falência ou parada do funcionamento de um dos rins.

Veja também:   10 Benefícios dos Exercícios Físicos à Saúde

De que forma o médico chega ao diagnóstico?

A análise de certeza é dada pela laparoscopia. Esse é um procedimento de certa forma invasivo, pois acarreta pequenos cortes por onde se inserem duas pinças e uma câmera (óptica) que é conectada a um sistema de monitor, permitindo que o especialista observe a existência da endometriose por vídeo.
Essas e outras incisões já permitem tratar alguns casos pela inserção de caltérios, um instrumento que produz uma corrente elétrica e é usado para ressecar os focos.
A laparoscopia pode ser feita também para investigar outros distúrbios abdominais.
Alguns tipos de cirurgia, como a laqueação das trompas, podem ser realizadas durante o procedimento.
A laparoscopia é feita sob anestesia geral e a recuperação é mais rápida do que uma operação normal, pois as incisões são menores.

Há opção de exames mais brandos?

Os sistemas não invasivos são a principal novidade de diagnóstico. Há, hoje, um recurso criado no Brasil para a análise de endometriose por ultrassom. Pessoas do mundo todo vêm ao País para aprender a técnica. O tratamento cirúrgico melhora a cada dia. Os meios para se fazer a laparoscopia evoluem no mesmo sentido.
Os medicamentos estão sendo testados na tentativa de controlar a doença de forma específica.
Mas ainda não temos uma fórmula ideal para tratar definitivamente a doença.

Eles substituem a laparoscopia?

Esses novos métodos podem não ser tão precisos quanto o exame mais tradicional, mas são fortemente permissivos para indicar a utilização e o tipo da laparoscopia.

E como é o tratamento?

As abordagens variam, mas a partir do momento que identificamos a doença é preciso tratá-la imediatamente. É possível tratar suas consequências, visando a eliminar e controlar as lesões já existentes. É necessário, também, aplicar terapias de causa, que são, na verdade, meios de prevenção.
A primeira linha de cuidados vai variar de acordo com o tipo da patologia.
Em geral, o tratamento é cirúrgico.
Pela laparoscopia, o cirurgião remove seus focos.
Em seguida, é recomendado um reforço terapêutico hormonal.
Se a paciente desejar engravidar, é indicado o tratamento de acordo com o local acometido e quais fatores associados de infertilidade ela pode apresentar.
Para casos de obstrução tubária, o processo mais apropriado é a fertilização in vitro.
Entre as mulheres ainda jovens e com a anatomia uterina preservada é possível indicar simplesmente a indução de circulação ou a fazer uma inseminação artificial.
Já o tratamento da causa é fundamental.
É preciso entender que cuidar da endometriose não se resume apenas à luta contra as lesões do órgão.
Significa, também, olhar para seu estado emocional, estimular atividades físicas, psicoterapia, hobbies, minimizar fatores de estresse.
Médico e paciente precisam entender que imunidade também está envolvida no desenvolvimento da doença.

Veja também:   Balão intragástrico - Como Funciona

Qual é o seu conselho para a paciente?

É preciso ter respeito e seriedade diante da doença. Não adianta achar que quando tiver um problema como a endometriose é só ir até o consultório que o especialista irá remover a lesão com uma cirurgia.
Se a mulher tiver a consciência de que ela é uma parceira do médico no tratamento, passará a cuidar melhor de sua saúde, praticando atividades físicas, mantendo uma dieta saudável e um contato periódico com seu médico.
Tudo isso considerado, é possível garantir uma boa saúde e qualidade de vida para a paciente.

Conheça os sintomas da endometriose

Como a maioria das doenças, o diagnóstico precoce é essencial para o sucesso do tratamento. Se você tem um ou mais desses sinais, procure o médico rapidamente.

Adolescentes:

  • Cólicas menstruais intensas.
  • Sangramento abundante ou irregular durante o período menstrual.
  • Dores nas relações sexuais, quando o pênis encosta no fundo da vagina.
  • Náuseas, diarreia, prisão de ventre, dores abdominais ou alterações urinárias durante as menstruações.

Mulheres adultas:

  • Dismenorreia: muita cólica durante o período menstrual.
  • Dor durante a relação sexual.
  • Dificuldade de engravidar, a infertilidade atinge cerca de 40% das pacientes.
  • Cólicas fora do período menstrual.
  • Alterações intestinais ou urinárias durante o fluxo menstrual.

Artigos Relacionados

Saúde Próspera