Homens são vulneráveis ao mal de Chagas

Pesquisadores mineiros e paulistas descobrem características para o desenvolvimento da miocardiopatia chagásica, considerada a pior fase do mal. Homens com histórico de eletrocardiograma e batimentos cardíacos alterados são os mais afetados.

Uma das principais causas de doenças do miocárdio na América Latina, a miocardiopatia chagásica, fase aguda da silenciosa doença de Chagas, é ainda um mal incurável. Apesar de afetar cerca de 30% dos pacientes portadores do mal, a fase crônica da doença ainda um desafio para a medicina.
Na maioria das vezes, o problema é detectado quando o coração já foi atacado.
A boa notícia é que um novo estudo pode minimizar esse quadro.
Desenvolvida por pesquisadores de Minas Gerais, São Paulo e cientistas norte-americanos, a pesquisa descobriu, entre candidatos a doadores de sangue com diagnóstico positivo para a doença de Chagas, as características daqueles que evoluíram para a pior fase da enfermidade: a grande maioria é homem, com histórico de eletrocardiograma e batimentos cardíacos alterados.

Com grande repercussão no mundo científico, principalmente nos Estados Unidos, onde o mal está se espalhando e chegando a 300 mil casos, o trabalho foi publicado na revista científica Circulation, da Associação Americana de Cardiologia.
“É um estudo que traz um impacto social muito importante”, destaca Anna Bárbara Proietti, pesquisadora da Fundação Hemominas e especialista em doenças transmissíveis pelo sangue.
Anna é uma das pesquisadoras do trabalho e explica o por que dessa repercussão.
Segundo ela, a pesquisa começou nos anos de 2010 e 2011 e a ideia era avançar no conhecimento do mal, descoberto há mais de 100 anos pelo mineiro Carlos Chagas, nascido em Oliveira, médico sanitarista e pesquisador da Fundação Oswaldo Cruz.

Para avançar nas pesquisas sobre a incidência do nível mais grave da doença (a miocardiopatia chagásica) na população, o grupo de estudiosos foi atrás de pessoas que tentaram doar sangue em bancos de hematologia de Minas Gerais e São Paulo há 10 anos, mas na época foram detectados como portadores do mal de Chagas.
Qualquer pessoa no país que se candidata a doar sangue tem o material avaliado em uma série de exames para se conhecer a qualidade do material doado.
”Essa triagem é feita para garantir a segurança daquele sangue doado.
Não é um diagnóstico, mas identifica, entre outras coisas, se aquela pessoa é positiva para a doença de Chagas”, explica.
Uma vez portador do mal, o paciente pode, ou não, manifestar a doença.
“Fomos em busca de pessoas que passaram por essa triagem há 10 anos.
Gostaríamos de saber o que aconteceu com elas e quais delas evoluíram para a pior fase da doença”, explica Anna.

Foram 499 pessoas com resultado positivo para enfermidade e 488 com resultado negativo, todos de Montes Claros, no Norte de Minas, e de São Paulo. “Procuramos os doadores de sangue porque eles são pessoas que vão doar sangue e não sabem que têm a doença. Ou seja, nada ainda foi manifestado.
Por isso, elas se sentem bem e saudáveis “, diz a pesquisadora.
Ao contatar os pacientes, eles foram submetidos a exames de eletrocardiograma e ecocardiograma, e responderam um questionário detalhado sobre a origem da contaminação e seu histórico de vida.

Com os resultados dessa triagem, os cientistas fizeram uma espécie de painel para médicos brasileiros e estrangeiros que não sabiam quais testes pertenciam aos portadores do protozoário. “Escolhemos grandes nomes da área para analisarem os exames”, diz Anna Proietti.

O trabalho mostrou que houve uma incidência de 1,85% de miocardiopatia chagásica, praticamente dois casos, a cada ano. “A maioria que desenvolveu o problema foi de sexo masculino, tinha uma história de anormalidade no eletrocardiograma e alteração nos batimentos cardíacos”, acrescenta.
Os pacientes com diagnóstico negativo para o mal foram convocados, de acordo com Anna, para controle de outras doenças cardíacas.
“Examinamos se a taxa de outros males do coração era maior ou menor do que aquelas que acometem os portadores de Chagas.
Concluímos que foi bem menor.
”.

De acordo com o médico hemoterapeuta do Hospital Nove de Julho e chefe do Departamento da Fundação Pró-Sangue Hemocentro de São Paulo, César de Almeida Neto, também pesquisador no estudo, ao calcularem a incidência de 1,85% ao ano de miocardiopatia chagásica em portadores da doença, pode-se estimar o número de casos novos anualmente.
“Estima-se que mundialmente 8 milhões de pessoas estejam infectadas pelo Tripanossoma cruzi, agente causador da doença.
Portanto, por ano, 148 mil pessoas vão apresentar a miocardiopatia chagásica.
Os gestores de saúde, dessa maneira, podem alocar recursos a fim de diagnosticar e tratar o mal de maneira mais eficaz”, defende.

Veja também:   Infecções bacterianas graves aumentam o risco de perda irreversível da audição

Almeida Neto destaca que a pesquisa mostra que os homens têm duas vezes mais chances de apresentar a mioacardiopatia chagásica que as mulheres.
“Pacientes com histórico de alterações prévias no eletrocardiograma e com a presença de determinado batimento anômalo (chamado B3) no exame de ausculta cardíaca (aquele no qual o médico examina o coração do paciente com o estetoscópio) têm seis vezes mais chances de apresentar miocardiopatia chagásica do que aqueles que não têm esses achados.
A partir daí, os profissionais de saúde podem ficar mais atentos aos pacientes que apresentam esses prognósticos”, diz.

Outra indicação dos pesquisadores é que a sistemática usada e validada, que consiste de exame físico, seguido de eletrocardiograma e de ecocardiograma naqueles com eletrocardiograma alterado, mostrou-se bem sensível e específico para diagnosticar a miocardiopatia chagásica e pode ser usada por serviços públicos ou privados como referência.

Transmissão

A doença de Chagas não é transmitida ao ser humano diretamente pela picada do inseto, que se infecta com o parasita quando suga o sangue de um animal contaminado (gambás ou pequenos roedores). A transmissão ocorre quando a pessoa coça o local da picada e as fezes eliminadas pelo barbeiro penetram pelo orifício que ali deixou.

A transmissão pode também ocorrer por transfusão de sangue contaminado e durante a gravidez, da mãe para filho. No Brasil, foram registrados casos da infecção transmitida por via oral nas pessoas que tomaram caldo-de-cana ou comeram açaí moído.
Embora não se imaginasse que isso pudesse acontecer, o provável é que haja uma invasão ativa do parasita diretamente através do aparelho digestivo nesse tipo de transmissão.

Segundo os dados levantados pela Sucen (Superintendência de Controle de Endemias), esse inseto de hábitos noturnos vive nas frestas das casas de pau-a-pique, ninhos de pássaros, tocas de animais, casca de troncos de árvores e embaixo de pedras

Sintomas

Febre, mal-estar, inflamação e dor nos gânglios, vermelhidão, inchaço nos olhos (sinal de Romanã), aumento do fígado e do baço são os principais sintomas. Com frequência, a febre desaparece depois de alguns dias e a pessoa não se dá conta do que lhe aconteceu, embora o parasita já esteja alojado em alguns órgãos.
Como nem sempre os sintomas são perceptíveis, o indivíduo pode saber que tem a doença, 20, 30 anos depois de ter sido infectado, ao fazer um exame de sangue de rotina.

Meningite e encefalite são complicações graves da doença de Chagas na fase aguda, mas são raros os casos de morte.

Evolução

Caindo na circulação, o Trypanosoma cruzi afeta os gânglios, o fígado e o baço. Depois se localiza no coração, intestino e esôfago.
Nas fases crônicas da doença, pode haver destruição da musculatura e sua flacidez provoca aumento desses três órgãos, o que causa problemas como cardite chagásica (aumento do coração), megacólon (aumento do cólon que pode provocar retenção das fezes) e megaesôfago, cujo principal sintoma é a regurgitação dos alimentos ingeridos.
Essas lesões são definitivas, irreversíveis.

A doença de Chagas pode não provocar lesões importantes em pessoas que apresentem resposta imunológica adequada, mas pode ser fatal para outras.

Diagnóstico e período de incubação

O período de incubação vai de cinco a 14 dias após a picada e o diagnóstico é feito através de um exame de sangue, que deve ser prescrito, principalmente, quando um indivíduo vem de zonas endêmicas e apresenta os sintomas acima relacionados.

Tratamento

Considerada uma doença silenciosa, o mal de Chagas, na maioria das vezes, não apresenta sintomas. O grande problema é que, quando evolui em alguns pacientes, pode afetar órgãos como esôfago, intestino e coração.
Cada paciente recebe um tratamento adequado e, em casos de miocardiopatia chagásica muito adiantada, em que não há melhora com o uso de remédios, é feito o transplante de coração.
De acordo com a professora Associada do Departamento de Moléstias Infecciosas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do estudo, Ester Cerdeira Sabino, muitas pessoas tomam conhecimento que estão infectadas por T.
cruzi por meio do banco de sangue.

Ela enfatiza que são necessários hoje no país novos medicamentos, pois o benzonidazol (medicamento antiparasitário), segundo ela, “não parece ser muito eficaz”. “Por isso é importante novas pesquisas para avaliar drogas diferentes e biomarcadores que indiquem que o paciente respondeu ao tratamento.
Uma das maiores dificuldades é a falta de um marcador que nos dê essa informação de que funcionou.
Porque a doença demora muito tempo para se manifestar.
” Ester avisa que os pacientes infectados precisam ter um acompanhamento mais próximo.
“O Sistema Único de Saúde (SUS) tem feito isso, mas muitos portadores da doença moram em regiões de pouco acesso ao serviço”, lamenta.
César de Almeida Neto acrescenta dizendo que “muitos dos problemas que enfrentamos na área de saúde são relacionados, hoje, à gestão de recursos e planejamento.
Muitas vezes também não temos dados fidedignos para tomar decisões que impactam a saúde da população de uma maneira mais racional.
”.

Veja também:   Conheça os Alimentos que Aumentam a Celulite

A medicação é dada sob acompanhamento médico nos hospitais devido aos efeitos colaterais que provoca, e deve ser mantida, no mínimo, por um mês. O efeito do medicamento costuma ser satisfatório na fase aguda da doença, enquanto o parasita está circulando no sangue.
Na fase crônica, não compensa utilizá-lo mais e o tratamento é direcionado às manifestações da doença a fim de controlar os sintomas e evitar as complicações.

Recomendações

  • Como não existe vacina para a doença de Chagas, os cuidados devem ser redobrados nas regiões onde o barbeiro ainda existe, como o vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais, e em algumas áreas do nordeste da Bahia;
  • Pessoa que esteve numa região de transmissão natural do parasita deve procurar assistência médica se apresentar febre ou qualquer outro sintoma característico da doença de Chagas;
  • Portadores do parasita, mesmo que sejam assintomáticos, não podem doar sangue;
  • A cana-de-açúcar deve ser cuidadosamente lavada antes da moagem e a mesma precaução deve ser tomada antes de o açaí ser preparado para consumo;
  • Eliminar o inseto transmissor da doença ou mantê-lo afastado do convívio humano é a única forma de erradicar a doença de Chagas.

Tudo começou em Minas

Carlos Chagas identificou o parasita Trypanosoma cruzi (e deu a ele esse nome em homenagem a seu amigo e colega de profissão, o sanitarista Oswaldo Cruz) em Lassance, no Norte de Minas, para onde foi, em 1907, tentar combater a malária que afetava trabalhadores da Estrada de Ferro Central do Brasil.
O processo de pesquisa de Chagas sobre o barbeiro que picava as pessoas no rosto teve início nessa época.
O anúncio da descoberta do parasita T.
cruzi, que provocava o mal e se hospedava no barbeiro (inseto hematófago encontrado nas frestas das casas de pau a pique) foi feito em 1909.

Pesquisa aponta relação entre doença de Chagas e depressão

Linhagens do protozoário circulantes no Brasil podem provocar desequilíbrio neuroquímico no paciente, resultando em associação biológica entre a doença e o quadro depressivo.

Receber o diagnóstico de uma enfermidade como a doença de Chagas pode causar mudanças na rotina, nos planos e até no estado de espírito dos pacientes, causando apatia e tristezas nos anos subsequentes ao diagnóstico da enfermidade?
Essas e outras perguntas relacionadas à doença começam a ser respondidas por pesquisadores da Fundação Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) que desenvolveram estudo inédito identificando linhagens do protozoário Trypanosoma cruzi (causador da doença de Chagas), circulantes no Brasil, tipos I e II, podem sim provocar desequilíbrio neuroquímico no paciente, resultando em associação biológica entre a doença e o quadro depressivo.

A constatação foi feita a partir do Laboratório de Biologia das Interações da Fiocruz, onde a equipe liderada pela pesquisadora Joseli Lannes identificou que o protozoário causador da doença pode desencadear uma desordem imunológica e neuroquímica associada ao quadro depressivo entre os pacientes.

A partir do estudo, a equipe de pesquisadores da Fiocruz concluiu que a mudança de comportamento registrada nos portadores da doença se dá “a partir da incerteza do destino e do elevado percentual de incurabilidade da doença, agravados pelo baixo nível socioeconômico predominante entre os portadores da enfermidade”.

Publicado na revista científica de referência Brain, Behavior and Immunity, o estudo, cuja autora principal é Glaucia Vilar-Pereira, derruba de certa forma a tese predominante até então na literatura médica de que o transtorno recorrente entre pacientes crônicos – e que levava à depressão – era motivado por fatores psicológicos.
O estudo sugere, ainda, um tratamento combinado à base de drogas já disponíveis no mercado: benzonidazol e pentoxifilina.

Veja também:   Genes ligados ao câncer adiantam a menopausa

Segundo a Fiocruz, a ideia que deu origem à pesquisa surgiu quando Joseli Lannes realizava experimentos sobre danos cardíacos com camundongos e, ao longo do estudo, notou que alguns dos animais eram mais apáticos. Na avaliação de Joseli uma marca inconfundível da depressão é a desistência do paciente – neste caso, do animal.
“Para identificar o que estava acontecendo, utilizamos dois grupos de camundongos.
Cada grupo foi infectado com cepas tipo I e tipo II de Tripanosoma cruzi.
Constatamos que só o primeiro grupo apresentava imobilidade e desistência quando submetido a testes”.

Para a pesquisadora, esse “era um sinal preliminar de que a depressão, na doença de Chagas, poderia não ser um processo psicossomático. Afinal, o animal não tem consciência da doença ou de sua condição social. Os dados indicariam, enfim, que o processo não é associado ao sickness behavior mas, de fato, à depressão”, esclarece.

A cepa tipo I é encontrada em todo o Brasil, com maior incidência nas regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. Estima-se que existam dois milhões de portadores da doença de Chagas no país.
Em busca dos biomarcadores que justificassem o comportamento apático dos camundongos, a equipe identificou que os níveis da enzima IDO, que compromete a síntese de serotonina – o neurotransmissor associado à satisfação e à felicidade – estavam acima do normal nos animais incluídos no experimento.

Para Joseli, isso acontece porque a presença do parasito no organismo, ainda que reduzida na fase crônica da doença, induz à expressão da enzima IDO no sistema nervoso central. “Essa enzima degrada o triptofano, aminoácido substrato para a produção da serotonina, reduzindo, assim, os níveis deste neurotransmissor”, explicou.

Os pesquisadores trataram os camundongos com uma combinação de benzonidazol, quimioterápico utilizado contra o parasito, e fluoxetina, antidepressivo que aumenta a disponibilidade da serotonina no cérebro. Os resultados foram satisfatórios, mas a melhora significativa dos animais ainda não convenceu a equipe.
“Sabemos que 30% da população mundial não responde à fluoxetina, principalmente pacientes com câncer e doenças autoimunes.
Isso ocorre porque nem toda depressão é causada apenas por desordens químicas envolvendo a serotonina.
A resposta imunológica à doença também participa deste processo”, esclarece.

Os pesquisadores partiram, então, para a análise dos níveis de fator de necrose tumoral (TNF) nos camundongos. Trata-se de uma citocina produzida pelo sistema imunológico durante infecções por parasitas e na presença de tumores, associada a inflamações sistêmicas e alterações de comportamento, como a anorexia.

A resposta aos experimentos que se sucederam foi positiva, o que possibilitou à equipe confirmar que o quadro depressivo, na doença de Chagas, é resultado de um complexo circuito imunológico que interfere de forma contundente no sistema nervoso central, tendo como agente deflagrador o próprio parasito Trypanosoma cruzi.
“Muitas doenças inflamatórias crônicas, tais como artrite reumatoide, também são associadas à depressão e muitos pacientes não respondem a antidepressivos comuns.
Nossos achados transcendem a doença de Chagas, pois acreditamos que a pentoxifilina possa ser usada de forma muito mais ampla, estendendo os benefícios a pacientes de diversos agravos”, enfatizou Joseli.

O próximo passo será estender o experimento aos seres humanos.
Em breve, uma parceria entre o Laboratório de Biologia das Interações do IOC e o Ambulatório de Referência em Doença de Chagas – coordenado por Wilson Oliveira Junior e vinculado ao Pronto-Socorro Cardiológico Universitário de Pernambuco (Procape), da Universidade de Pernambuco (UPE) – possibilitará a realização de uma pesquisa clínica para investigar o uso da terapia sugerida pela equipe liderada por Joseli.

A proposta é realizar um estudo com a participação de psicólogos e cardiologistas, com duração prevista de dois anos, para só então testar as intervenções terapêuticas sugeridas pela equipe do IOC.
Para a especialista, se comprovada a eficácia, o protocolo sugerido poderá ser implementado nas unidades de saúde sem demora, uma vez que o benzonidazol, a pentoxifilina e a fluoxetina já estão aprovadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e disponíveis no mercado.
A Fiocruz esclareceu, ainda, que o estudo contou com a colaboração do Laboratório de Biologia Molecular e Doenças Endêmicas do IOC, bem como de pesquisadores do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal Fluminense (UFF) e do Laboratório de Farmacologia da Neuroplasticidade e do Comportamento, do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Artigos Relacionados