Anorexia e bulimia: obsessão pela magreza

Reféns da busca desenfreada por padrões de beleza estabelecidos no cinema, no mundo da moda ou na publicidade, jovens e adolescentes se empenham em alcançar formas e contornos nem sempre tangíveis.
A obsessão pela magreza pode desencadear a bulimia nervosa e a anorexia nervosa, doenças classificadas no grupo de transtornos alimentares pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Quando abatem artistas ou modelos famosas, os distúrbios viram notícia.
No entanto, anônimos insatisfeitos com a própria imagem e determinados a se enquadrar na ditadura de corpos perfeitos são cada dia mais atingidos pelos problemas.

Embora não se saiba com precisão o número de anoréxicos e bulímicos no Brasil e no mundo, é certo que as duas doenças são realidade em praticamente todos os países.
Segundo Adriano Segal, diretor de Psiquiatria de Transtorno Alimentar da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica (Abeso), a anorexia atinge 1% da população feminina mundial, enquanto que a bulimia chega a 5%.
“São doenças psiquiátricas crônicas causadas por uma complexa interação entre aspectos genéticos, psicológicos e sociais, sempre desencadeadas por dietas alimentares”, observa o médico (veja quadro).
“Profissionais valorizados pela forma física, como modelos, bailarinas e jóqueis, têm maior chance de desenvolverem os transtornos, mas com o ‘tsunami’ de regras estéticas absurdas, as doenças atingiram pessoas de outras áreas”, relata Segal.

A prevalência entre os homens é de cinco a 10 vezes menor que a incidência entre as mulheres, mas o impacto na vida do doente e dos familiares é desastroso em todos os casos.
Os sinais e sintomas mais evidentes são o medo de engordar e as mudanças no comportamento alimentar, caracterizado pela recusa de alimentos, no caso da anorexia, ou pelo comportamento compulsivo ao se alimentar seguido da tentativa de eliminar o que foi ingerido (provocando o vômito ou usando de laxantes, por exemplo), no caso da bulimia.

Depressão

O psiquiatra do Programa de Orientação e Assistência aos Pacientes com Transtornos Alimentares da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Marcel Higa Kaio, alerta que pelo menos 30% dos pacientes também sofrem de depressão. “As duas doenças trazem consequências que comprometem ainda mais a autoestima.
Nos homens anoréxicos, é observada a perda do interesse sexual.
Nas mulheres, há interrupção da menstruação e possível comprometimento da fertilidade.
Mas uma série de transtornos nos rins, coração e outros órgãos são comuns tanto para eles quanto para elas”, enfatiza Kaio.

Embora crônicos, os dois problemas são passíveis de tratamento quando o diagnóstico não é tardio. O problema é que a vítima, principalmente a de anorexia, não aceita a doença e se nega a tratá-la.
Raphael Boechat, psiquiatra e professor da Universidade de Brasília (UnB), lembra que a negação leva a família e os próprios pacientes a procurarem ajuda somente quando o mal está em fase avançada.
De acordo com ele, sem tratamento, os transtornos se agravam, gerando outras enfermidades.
“Alguns anoréxicos chegam aos hospitais correndo risco de morte, restando poucas opções aos médicos”, lamenta.

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Boechat adverte que de 5% a 18% dos pacientes anoréxicos morrem em decorrência da doença e que a bulimia pode evoluir para o câncer do esôfago em razão dos vômitos que alteram a mucosa do órgão. “A família e os amigos exercem papel importante na aceitação e no incentivo pela busca de ajuda especializada.
Sozinho, o doente dificilmente busca o tratamento”, aponta o médico.

Infelizmente, ainda há muito desconhecimento sobre os problemas. Pesquisa do Departamento de Psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) revela que grande parte dos pais subestima a gravidade dos trasntornos.
“Isso se relaciona a uma crença de que as alterações de comportamento dos filhos são uma postura típica da adolescência”, dizem os autores do estudo, Cybele Espíndola e Sérgio Blay.

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Um caso real: “Eu me via enorme”

Além dos danos físicos, os males fazem com que a vida emocional e profissional dos doentes estacione. A mestre em relações internacionais A., 33 anos, reconhece que parou no tempo e que sem a ajuda dos pais jamais teria sobrevivido aos dois transtornos. “Tinha 19 anos quando desenvolvi a bulimia.
Meu peso era normal, mas me via enorme diante do espelho.
Tinha um histórico de dietas e depressão e via na comida uma forma de descarregar minhas insatisfações e frustrações.
Como desejava um corpo perfeito, passei a tomar laxantes para compensar o que comia”, conta.

O próximo passo de A. foi começar a provocar o vômito. “Não sou baixa, tenho 1,71m, mas a distorção em relação a minha imagem era tanta que, além dos vômitos e dos laxantes, passei a comer o mínimo possível. Cheguei a pesar 46kg. Mesmo assim, decidi casar e ir morar nos Estados Unidos, onde precisei ser levada às pressas para o hospital.
Uma parada cardíaca era iminente”, relata.

Os médicos a enviaram para um centro de tratamento específico para pacientes com transtornos alimentares. “Entendi que poderia ter uma alimentação normal sem engordar, mas quando voltei ao Brasil tive uma recaída. Essas doenças são um vício. A caminhada de volta é dolorosa.
Retornei para os Estados Unidos para me tratar e, desde 2006, tenho superado o problema.
É uma luta diária.
Sou uma sobrevivente”, conclui.

Quais os fatores de riscos para a anorexia?

  • Busca pela perfeição ou foco exagerado em regras
  • Ser muito preocupado ou dar muita atenção ao peso e à forma
  • Problemas de alimentação quando bebê ou na primeira infância
  • Determinadas ideias sociais ou culturais sobre saúde e beleza
  • Autoimagem negativa
  • Transtorno de ansiedade quando criança
  • A anorexia geralmente tem início durante a adolescência ou no início da fase adulta.
    É mais comum em mulheres, mas também pode ser vista em homens.
    O distúrbio é observado principalmente em mulheres brancas com escolaridade alta e que têm família ou personalidade focadas em objetivos.
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Quais os Fatores de risco para a bulimia?

  • Ser do sexo feminino: As mulheres são mais propensas a ter bulimia do que os homens.
  • Idade: Bulimia geralmente começa no final da adolescência ou início da idade adulta.
    Bulimia é mais comum em estudantes universitários do que nos adolescentes mais jovens.
  • A história da família: Os distúrbios alimentares, como bulimia, são mais prováveis de ocorrer em pessoas que têm pais ou irmãos que tiveram um distúrbio alimentar.
  • Dieta: As pessoas que perdem peso são muitas vezes incentivadas por comentários positivos de outras pessoas em que a sua aparência mudou.
    Isso pode causar algumas pessoas a fazer dieta muito agressivamente, levando a bulimia.
  • Influências familiares: Pessoas que se sentem menos seguras nas suas famílias, cujos pais e irmãos podem ser excessivamente críticos, ou cujas famílias provoca-os sobre sua aparência estão em maior risco de bulimia e outros distúrbios alimentares.
  • Transtornos emocionais: Pessoas com depressão, transtornos de ansiedade e transtorno obsessivo compulsivo são mais propensos a ter um distúrbio alimentar.
  • Esporte, trabalho e atividades artísticas: Os atletas, atores, estrelas de TV, dançarinos e modelos estão em maior risco de distúrbios alimentares, como bulimia.
    Os distúrbios alimentares são particularmente comuns entre as bailarinas, ginastas, corredores e lutadores.
    Os Treinadores e pais podem inadvertidamente contribuir para os distúrbios alimentares, incentivando os jovens atletas a perder peso.

Quais são as diferenças entre anorexia e bulimia?

Ambos são transtornos alimentares nos quais a pessoa apresenta obsessão pela magreza excessiva e faz de tudo para perder o máximo de peso. Quando atestam ganho de algumas gramas se desesperam. Os transtornos alimentares costumam estar ligados à depressão. Os sintomas nem sempre são notados de imediato.
Na maioria das vezes, quando algum parente percebe é porque o seu familiar já está em um nível avançado do distúrbio.
O importante, nestes casos, é buscar tratamento médico, pois ao mesmo tempo em que estes distúrbios podem levar à morte, eles têm cura e só depende da vontade do “paciente”.
Contar com o apoio dos familiares e amigos é ainda melhor.

As principais diferenças são os sintomas. Na anorexia nervosa, a perda de peso é acentuada e, geralmente, deixa a pessoa desnutrida a ponto de correr o risco de morte. Isso acontece porque quem sofre desse distúrbio come muito pouco (ou nada!) para conseguir emagrecer.

Já na bulimia, o peso corporal do paciente é normal ou com sobrepeso, mas ele sofre de compulsão alimentar, com frequentes ataques à comida, seguidos de arrependimentos.
 As principais características da bulimia são a compulsão alimentar seguida de um método nada saudável para retirar do organismo todo o alimento ingerido, provocando vômitos, ingerindo medicamentos laxantes e praticando exercícios físicos de forma excessiva.
Na maioria dos casos, a pessoa com bulimia nervosa apresenta peso ideal (de acordo com o IMC), mas por não conseguir conter sua compulsão alimentar sente-se culpada por comer e busca meios de perder o peso ganho, e até mais.
Geralmente, estas pessoas sentem vergonha de seu distúrbio e tentam esconder ao máximo.

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Ambos os transtornos estão ligados ao medo de engordar e atingem, principalmente, as mulheres. A anorexia é mais recorrente em garotas de 12 a 18 anos, enquanto a bulimia é mais comum entre os 16 e 25 anos.

Pesquisas recentes apontam que a preocupação com o corpo também atinge os homens – quase 10% do total de casos são do sexo masculino, seguindo a mesma faixa etária feminina.

Dieta forçada – Saiba as características de cada transtorno alimentar

Anorexia

Sintomas: Perda de muito peso em pouco tempo, Índice de Massa Corporal (IMC) abaixo de 17,5, interrupção da menstruação e infertilidade.

Consequências: o risco de morte é grande devido à desnutrição, que pode ocasionar parada cardíaca, falência de órgãos, insuficiência renal, entre outros. É a patologia psiquiátrica que mais mata.

Bulimia

Sintomas: nem sempre há perda de peso significativa. Uso de laxantes para compensar os exageros com a comida ou vômito constante.

Consequências: causa problemas gástricos, como dor de estômago e diarreias, tontura, fraqueza (devido à perda de líquidos), erosão do esmalte dos dentes (por causa da agressão do suco gástrico na boca) etc.

*Como um bulímico ingere comida, o corpo consegue absorver entre 30 a 50% dos nutrientes – evitando a perda brusca de peso.

Tratamento dos dois transtornos:

Tanto a anorexia como a bulimia precisam de acompanhamento de uma equipe composta de psiquiatra, nutricionista, psicólogo e, às vezes, pediatra ou clínico – dependendo da idade do paciente. As estratégias mais comuns utilizam antidepressivos, psicoterapia e orientação nutricional.

O primeiro passo para tratar estas perturbações alimentares, será obviamente o reconhecimento de que as mesmas se instalaram. Quanto mais depressa a própria ou os familiares admitirem que algo não está bem, melhor.
Depois disto, é absolutamente indispensável recorrer de imediato a um médico psiquiatra ou psicólogo, preferencialmente numa consulta especializada, pois que a anorexia pode mesmo levar à morte.
O próprio médico de família poderá fazer esta ligação e conduzir o processo da melhor forma.
Será essencial o envolvimento de todas as figuras de ligação importantes e também estes devem ter apoio psicológico/psiquiátrico.
 Não adie nunca este passo, pois pode ser essencial.

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