Doenças inflamatórias intestinais surgem da interação de quatro fatores fundamentais; entenda

Um dos órgãos mais importantes do organismo é alvo de doenças incuráveis e capazes de comprometer a qualidade de vida de pacientes. Uma das razões é o estilo de vida e de alimentação. Estudo indica que há um desconhecimento grande sobre como lidar com essas enfermidades.

A doença inflamatória intestinal (DII) pertence a um grupo de doenças inflamatórias crônicas, de causa desconhecida, que envolve o aparelho digestivo.
Pesquisa recente realizada no Brasil revela o comportamento das pessoas diante dos principais sintomas das DIIs: no caso de dor abdominal, 46% se automedicam; se têm diarreia frequente, 61% também fazem uso de remédios sem consulta ao médico ou adotam soluções caseiras; e quando há sangue nas fezes, 39% das pessoas esperam o quadro melhorar.

A presidente da Sociedade Mineira de Coloproctologia e professora de coloproctologia da Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, Sinara Leite, explica que o termo “doenças inflamatórias intestinais” engloba principalmente duas doenças: a retocolite ulcerativa e a doença de Crohn.
Ela esclarece que ambas têm impacto negativo considerável na qualidade de vida da pessoa, pois requerem atenção médica prolongada e representam um peso social importante.
“As doenças têm distribuição uniforme entre os gêneros masculino e feminino e acometem, principalmente, pessoas jovens, com um pico de incidência entre 15 e 30 anos, embora possam ocorrer em qualquer idade.
Há um segundo pico entre os 50 e 70 anos.
Nesta faixa de idade, o controle da doença tende a ser mais complicado pela presença de outras patologias, como hipertensão arterial e diabetes, com o uso de polifarmácia (vários medicamentos para controlar as doenças concomitantes)”, explica Sinara, que também é membro titular da Sociedade Brasileira de Coloproctologia.

A retocolite ulcerativa e a doença de Crohn apresentam manifestações clínicas e evolutivas diversas, determinadas por vários fatores, como localização e extensão da área de acometimento, grau de atividade e gravidade do processo inflamatório, complicações da doença e a presença ou não de manifestações extraintestinais.
“Podem apresentar um curso evolutivo com recaídas e remissões, com desaparecimento completo dos sintomas entre as crises.
Os sintomas irão depender do segmento que está envolvido na inflamação.
Os mais comuns são: dores, distensão e desconforto abdominais, associados à alteração do hábito intestinal (quase sempre diarreias), à presença de muco e/ou sangue nas fezes e a sintomas anais (dor, ardor e sangramento locais).
Ao longo da vida, esse quadro clínico apresenta modificações e, devido à grande variabilidade clínica, o diagnóstico pode ser um desafio em alguns pacientes.

Maria de Lourdes de Abreu Ferrari, professora de clínica médica da Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e coordenadora do Ambulatório de Intestino do Hospital das Clínicas da UFMG ressalta que, segundo pesquisa realizada pela Organização Europeia de Doença de Chron e de Retocolite Ulcerativa e pela Associação das Federações de Chron e Retocolite Ulcerativa, a incidência das doenças intestinais cresceu 15 vezes nas últimas décadas nos grandes centros urbanos.
Divulgado em fevereiro de 2013, o estudo revelou ainda que, 10 anos após o diagnóstico, 53% dos pacientes serão hospitalizados e 44% serão afastados de atividades diárias em decorrência de complicações da doença.
O estudo mostrou também que cerca de 20% das pessoas com DII apresentam sintomas de forma contínua e que aproximadamente 40% dos pacientes têm manifestações extraintestinais, com acometimento das articulações, pele, lesões oculares e hepatobiliares, entre outras.

Alessandra Vitoriano de Castro, presidente da Associação Mineira dos Portadores de Doenças Inflamatórias Intestinais, lembra que, no início, sentia dores abdominais e evacuava de 15 a 20 vezes ao dia. “Emagreci 25 quilos em dois meses. Costumava ter febre baixa (até 38 graus) nos fins de tarde, início da noite.
No trabalho, precisava ir muito ao banheiro e, às vezes, nem saía de casa.
Socialmente fui diminuindo as atividades e, além disso, acordava muito à noite com cólicas e vontade de ir o banheiro”.
Ela ressalta que, como as DIIs não têm cura, a adesão do paciente ao tratamento é fundamental.
“Um acompanhamento nutricional e psicológico também é indicado, pois a dieta não é a mesma para os pacientes.
Cada um tolera tipos diferentes de alimentos.
Ao longo do tempo, o paciente pode ter problemas de convivência com a doença, que deixa sequelas emocionais.
Fisicamente, existe o momento de emagrecimento, o momento de engordar, alguns casos mais graves levam a cirurgias para retirada de trechos inflamados do intestino ou correção de fístulas, e há aqueles que têm a necessidade de ostomização”, explica.

Alessandra salienta que a Associação Mineira é uma entidade civil de caráter social, sem fins lucrativos. “Nosso objetivo é integrar e auxiliar os portadores das DIIs. Hoje, temos mais de 500 pacientes cadastrados e contamos com o apoio de profissionais da saúde especializados na área.
Para se associar, basta entrar em contato conosco pelo e-mail [email protected]
br ou pelo site www.
br”, diz.

Doenças inflamatórias intestinais surgem da interação de quatro fatores fundamentais; entenda

Várias origens

Muitos especialistas acreditam que as doenças inflamatórias intestinais surgem da interação de quatro fatores fundamentais: ambiental (tabagismo, dieta, hábitos higiênicos), genético (existe uma ocorrência familiar e alguns genes já estão identificados como estando implicados nas DIIs), microbiano (seria uma resposta anormal do sistema imunológico contra a microbiota intestinal); e, por fim, o imunológico (a resposta imunológica é a principal responsável pelo desenvolvimento da inflamação).

“Nenhum desses componentes, isoladamente, pode explicar as DIIs, mas é a integração entre eles que realmente determina se a doença se instalará e com quais características.
A retocolite ulcerativa é uma doença que acomete o reto e o cólon (intestino grosso), e a doença de Crohn pode acometer qualquer segmento da boca ao ânus, mas ocorre principalmente no íleo terminal (segmento final do intestino delgado).
Ambas podem ter manifestações extraintestinais, que é o acometimento de outras partes do organismo, envolvendo as articulações (artrites), a pele, os olhos, podendo ainda ocorrer anemia e eventos tromboembólicos (tromboses arteriais ou venosas)”, explica a médica.

Maria de Lourdes Ferrari esclarece que os sintomas da doença variam dependendo do segmento do tubo digestivo comprometido e da gravidade da inflamação. “As manifestações clínicas mais comuns são diarreia, dores abdominais, febre baixa, emagrecimento, sangramento retal, mal-estar geral, cansaço e fadiga.
Podem ocorrer manifestações fora do tubo digestivo, que são chamadas de manifestações extraintestinais, como dores e edema (inchaço) nas articulações, inflamação nos olhos, acometimento do fígado, pedra na vesícula e nos rins, entre outras.
O tratamento pode ser clínico ou cirúrgico, porém, nenhum deles é curativo”, diz.

Ela salienta que as DIIs têm baixa mortalidade, porém, alta morbidade.
“As crises repetidas ao longo dos anos ocasionam lesão intestinal constante e consequente aparecimento de complicações, que agravam o quadro clínico e são responsáveis por sequelas, como ressecção de grandes segmentos intestinais e necessidade de ostomias (abertura do intestino na parede do abdômen).
Vale ressaltar que em alguns pacientes a doença pode evoluir, com complicações de forma precoce”.
O estudo divulgado no ano passado pela TNS Brasil também revelou que, 10 anos após o diagnóstico, 53% dos pacientes serão hospitalizados em decorrência das complicações da DII e 44% serão afastados de atividades diárias pelo mesmo motivo.
O estudo mostrou ainda que cerca de 20% dos pacientes apresentam sintomas de forma contínua e que aproximadamente 40% têm manifestações extraintestinais, com acometimento das articulações e da pele, lesões oculares e hepatobiliares, entre outras.

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O tratamento clínico é realizado com medicamentos que são capazes de controlar a inflamação e evitar que as crises retornem, permitindo que os pacientes levem uma vida normal.
“O tratamento cirúrgico está indicado em algumas situações, como na falta de resposta ao tratamento clínico e na presença de complicações como fístulas, abscessos, perfuração e sangramentos volumosos”, acrescenta a médica.

Dados são escassos

Os estudos epidemiológicos no Brasil sobre as doenças inflamatórias intestinais são escassos e, de modo geral, restritos a determinadas regiões do país. Dados do Ministério da Saúde mostram que a região Norte é a que apresenta menor taxa de internações relacionadas à DII (1,16/100.000 habitantes), seguida pelas regiões Nordeste (2,17/100.
000 habitantes), Sudeste (2,42/100.
000 habitantes), Sul (3,07/100.
000 habitantes) e Centro-Oeste (3,32/100.
000 habitantes).
O aumento do número de casos de DII nas últimas décadas também é observado no Brasil e, provavelmente, reflete mudanças no comportamento da população, exemplificado pela maior urbanização: hoje, 84% da população brasileira reside em áreas urbanas, e pela mudança da dieta tradicional para uma dieta mais industrializada.

Doenças inflamatórias intestinais surgem da interação de quatro fatores fundamentais; entenda

Retocolite ulcerativa

A retocolite ulcerativa, também chamada colite ulcerativa, é uma doença inflamatória autoimune que acomete o intestino grosso. Afeta igualmente homens e mulheres e é mais frequente entre adolescentes e adultos jovens.
Por razões ainda desconhecidas, o sistema imunológico do indivíduo passa a atacar os tecidos dessa região intestinal, provocando lesões (úlceras) que precisam ser tratadas.
Em casos graves, pode haver necessidade de internação para evitar complicações, como hemorragia, infecção e megacólon tóxico (dilatação do intestino provocada por infecção).
Em função do tempo de duração e extensão da enfermidade, o processo inflamatório associado à doença pode resultar até em câncer intestinal.

Com evolução crônica, seja de forma intermitente ou contínua, a retocolite ulcerativa é caracterizada por diarreia, com muco ou sangue nas fezes, cólica, dor e desconforto abdominal. Em ocorrências mais graves, o mal provoca redução de peso e pode levar até a desnutrição devido à perda de proteínas com a diarreia.

Apesar de os cientistas não terem identificado um gene específico relacionado a essa doença, sabe-se que a retocolite está vinculada a componentes de fundo genético, mas não exclusivamente. “Quando uma doença é genética, gêmeos idênticos têm a mesma enfermidade.
No caso da retocolite, acontece de muitos gêmeos idênticos terem a doença, mas nem sempre.
Isso evidenciaria a associação com fatores ambientais que desencadeariam a doença.
Mas ninguém sabe ao certo quais são esses fatores”, afirma o Dr.
Flavio Steinwurz, gastroenterologista do Einstein, presidente da Associação Brasileira de Colite Ulcerativa e Doença de Crohn e líder internacional do Colégio Americano de Gastroenterologia.
“Existem alterações imunológicas e acredita-se que possa haver fatores relacionados com a microbiota, ou seja, com a flora intestinal”, acrescenta.

Alguns especialistas associam, ainda, a deflagração ou o agravamento desse quadro clínico com o estresse orgânico (um acidente ou infecções severas, por exemplo) e/ou psíquico. “Tanto que os picos de incidência da doença ocorrem em etapas da vida marcadas por importantes mudanças, como a transição da adolescência para a vida adulta”, explica o Dr.
Jaime Zaladek Gil, gastroenterologista do Einstein e professor-assistente da cadeira de Gastroenterologia da Universidade Federal de São Paulo.

Uma vez constatados sintomas da retocolite ulcerativa, os médicos costumam solicitar exames bioquímicos (hemograma, glicemia, dosagem de hormônios etc.), provas inflamatórias e exames de imagem, como tomografia computadorizada e ressonância magnética. Chega-se ao diagnóstico conclusivo por meio de colonoscopia, acompanhada de biópsia.
“Pelo fato de o paciente estar perdendo peso ou apresentar sangramentos, é preciso ter a certeza de não estarmos lidando com outras doenças, principalmente câncer.
Alguns tipos de infecção por protozoários também podem causar esses mesmos sintomas”, ressalta o Dr.
Jaime.

Não há cura para a retocolite ulcerativa. Mas há recursos que permitem controlá-la, garantindo qualidade de vida aos pacientes. Restrições dietéticas são pontuais, necessárias apenas em episódios mais agudos de diarreia.
Porém, ao longo da vida, os pacientes não poderão abrir mão de um suporte medicamentoso, orientado para tratar, prevenir ou inibir as inflamações intestinais.

Casos menos graves podem ser tratados com monoterapia baseada em sulfa e derivados. Momentos de crise exigem o uso de corticoides, que não devem ser ministrados por um período longo em função dos efeitos colaterais. Completam esse arsenal os imunossupressores e as novas drogas biológicas.
“Já está disponível no Brasil o infliximabe, que inibe o chamado fator de necrose tumoral, mediador que perpetua a inflamação.
Os anticorpos monoclonais do infliximabe bloqueiam esse fator, impedindo, portanto, o processo inflamatório”, explica o Dr.
Flavio.
Outras drogas biológicas para retocolite ulcerativa estão em fase aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária.

Uma vez controlada a doença, o maior perigo para o paciente é suspensão do tratamento. A retocolite exige acompanhamento permanente e o uso das drogas antiinflamatórias, ainda que em pequenas dosagens. Mesmo em pacientes que não apresentam sintomas pode haver inflamações ativas observáveis apenas microscopicamente.
É um fator de risco que pode ser evitado se a doença for tratada como devem ser todas as doenças crônicas: de maneira permanente.

Doença de crohn

A Doença de Crohn é uma doença inflamatória séria do trato gastrointestinal. O Crohn afeta predominantemente a parte inferior do intestino delgado (íleo) e intestino grosso (cólon), mas pode afetar qualquer parte do trato gastrointestinal.
 A Doença de Crohn é crônica e provavelmente provocada por desregulação do sistema imunológico, ou seja, do sistema de defesa do organismo.
Inicia-se mais frequentemente na segunda e terceira décadas de vida, mas pode afetar qualquer faixa etária.
 Como a Doença de Crohn se comporta como a colite ulcerativa (em geral, é difícil diferenciar uma da outra), as duas doenças são agrupadas na categoria de Doenças Inflamatórias Intestinais (DII).

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Diferentemente da Doença de Crohn, em que todas as camadas estão envolvidas e na qual pode haver segmentos de intestino saudável normal entre os segmentos do intestino doente, a colite ulcerativa afeta apenas a camada mais superficial (mucosa) do cólon de modo contínuo.

Dependendo da região afetada, a Doença de Crohn pode ser chamada de ileíte, enterite regional ou colite. Para reduzir a confusão, o termo Doença de Crohn pode ser usado, para identificar a doença, qualquer que seja a região do corpo afetada (íleo, cólon, reto, ânus, estômago, duodeno).

Diferenças entre a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa

Doenças inflamatórias intestinais surgem da interação de quatro fatores fundamentais; entendaA Doença de Crohn é uma doença inflamatória intestinal que pode acometer qualquer ponto do trato digestivo, desde a boca até o ânus. Porém, 80% dos pacientes apresentam lesão do íleo distal e região íleo cecal que são respectivamente a porção final do intestino delgado e a região de transição entre intestino delgado e cólon.

A doença de Crohn se caracteriza por uma inflamação em todas as camadas da parede do intestino, com lesões difusas ao longo do trato digestivo. Uma característica típica do Crohn é apresentar áreas de intestino saudável entre áreas inflamadas.

Já a retocolite ulcerativa ataca somente o cólon e reto, poupando as outras regiões do trato digestivo. Na retocolite a lesão costuma ser contínua e acomete apenas a camada mais superficial da mucosa do intestino, levando à inflamação e formação de úlceras.

Sintomas do Crohn e da retocolite ulcerativa

Apesar de serem duas doenças diferentes, os sintomas são muito parecidos. Os mais comuns são:

  • Diarreia
  • Perda de sangue nas fezes
  • Dor abdominal
  • Febre
  • Emagrecimento
  • Cansaço
  • Anemia.

Apesar das semelhanças nos sintomas, alguns achados clínicos são mais comuns no Crohn e outros na retocolite. Como a doença de Crohn acomete todas as camadas da parede do intestino, é mais comum a ocorrência de fístulas, obstruções e perfurações do trato digestivo.
 A perfuração intestinal causa um quadro grave pois propicia o contato das fezes e suas bactérias com a cavidade abdominal.
Costuma causar com peritonite e sepse grave.

As fístulas são comunicações entre dois órgãos que surgem devido à processos inflamatórios. No Crohn, as fístulas podem ligar o intestino à vagina, bexiga, outras regiões do próprio intestino e ou até para a pele. Como já explicado, a doença de Crohn pode acometer qualquer ponto do trato digestivo.
Porém, a inflamação da região do reto é característica da retocolite, podendo ou não ocorrer no Crohn.
Um quadro sugestivo de doença inflamatória intestinal com ausência de lesão no reto praticamente sela o diagnóstico de Crohn.

A presença de úlceras no cólon é típico da retocolite, mas também podem ocorrer no Crohn. Fezes com sangue ocorre nas duas doenças, mas é mais comum na retocolite ulcerativa. O curso clínico da doença costuma ser mais brando na retocolite que no Crohn.
Porém, é importante destacar que nas duas doenças podem haver casos agressivos e casos mais brandos.

As doenças inflamatórias intestinais se manifestam com períodos de exacerbação (crises) intercalados por períodos de pouca ou nenhuma sintomatologia. A período de remissão pode durar de semanas a meses.
 Como no Crohn o acometimento do íleo e da região íleo-cecal é muito comum, o quadro pode muitas vezes lembrar uma apendicite, já que é neste sítio que se encontra o apêndice.

Perguntas frequentes

O que são ileíte e a colite?

São doenças inflamatórias do intestino. A colite ulcerativa afeta o intestino grosso. Na linguagem médica ela costuma ser mencionada pela sigla RCUI, que significa Retocolite Ulcerativa Inespecífica . Retocolite porque acomete também, o reto, inespecífica porque sua causa é desconhecida.
A Ileíte (Doença de Crohn) afeta a parte final do intestino delgado (íleo), podendo atingir também o intestino grosso e outras partes do trato digestivo.

Os termos Doença de Crohn, Ileíte e Enterite Regional têm o mesmo significado?

Ileíte significa inflamação do íleo, que é a porção distal (final) do intestino delgado. No ano de 1932, quando o Dr. Burril B. Crohn e seus colegas identificaram pela primeira vez a Ileíte como doença, eles a chamaram de Ileíte Regional.
“Regional” significa simplesmente que nessa enfermidade há áreas doentes de intestino que se alternam com áreas sãs.

O termo Enterite Regional foi empregado posteriormente para descrever essa inflamação, quando ela se apresenta em outras áreas intestinais, não somente no íleo.
Atualmente sabemos que essa doença pode afetar também o cólon (intestino grosso), dando lugar a uma condição conhecida como “Colite Granulomatosa” (granuloma são lesões microscópicas que se encontram na parede intestinal de pacientes de Doença de Crohn).
 Para evitar confusão, o nome Doença de Crohn pode ser usado para descrever a doença, qualquer que seja o lugar em que se apresente.

A Colite ulcerativa e a Colite Espástica têm o mesmo significado?

Não. Colite Espástica é um termo incorreto usado para descrever um distúrbio da motilidade do intestino chamado “Síndrome do Cólon Irritável”. Esta síndrome não apresenta inflamação e não tem relação com as DII.

Qual a incidência das Doenças Inflamatórias Intestinais (DII)?

Ainda não sabemos qual a incidência no Brasil. Mas estima-se que existam mais de 2 milhões de pacientes de DII nos Estados Unidos. Os homens e as mulheres parecem ser afetados em igual proporção.
Apesar de a Doença de Crohn e a RCUI acometerem indivíduos de todas as idades, elas predominam em jovens, sendo quase todos os casos diagnosticados antes da idade dos 30 anos.
Calcula-se que nos Estados Unidos pelo menos 200 mil crianças com menos de 16 anos sofram dessas doenças.

Quais são os sintomas iniciais da RCUI e da Doença de Crohn?

Os primeiros sintomas da RCUI são evacuações diarreicas que frequentemente têm sangue, desejo urgente de evacuar e odor fétido. A diarreia pode se desenvolver lentamente ou começar de maneira súbita, podendo haver também dores articulares e lesões na pele.

Na Doença de Crohn, a dor abdominal e a diarreia frequentemente surgem após as refeições. São comuns dores articulares (dores nas juntas), falta de apetite, perda de peso e febre. Outros sintomas precoces da Doença de Crohn são lesões da região anal, incluindo hemorroidas, fissuras, fístulas e abcessos.

Quais exames são feitos para diagnosticar essas doenças?

Não existe exame específico para identificar a Doença de Crohn e outras DII, mas os pacientes podem ser submetidos a radiografias com bário (da parte alta – trânsito intestinal ou da parte baixa – enema opaco) ou retossigmoidoscopia e colonoscopia (tubo iluminado introduzido pelo ânus).

Quais são as causas da Doença de Crohn e da RCUI?

Não se conhece as causas exatas da Doença de Crohn e de outras DII. Sabe-se que não são transmissíveis e que ocorrem alterações das defesas do corpo nos portadores dessas doenças desencadeando o processo inflamatório.

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Essas doenças são genéticas e hereditárias?

Pesquisadores não verificaram qualquer gene específico que possa “transmitir” a Doença de Crohn e outras DII. Portanto, não são consideradas genéticas. Mas existe a tendência a se apresentar com mais frequência em membros de famílias em que já se registram casos dessas doenças.

A tensão emocional pode desencadear uma Doença Inflamatória do Intestino?

Tendo em vista que o corpo e mente estão relacionados, a tensão emocional pode influenciar no curso da Doença de Crohn, da colite ulcerativa ou de qualquer doença. Apesar de conflitos emocionais ocasionalmente precederem o surgimento ou a recidiva de uma DII, isso não significa, necessariamente, que eles foram a causa.
É provável que a angústia sentida pelas pessoas com Doença de Crohn e outras DII seja uma reação aos sintomas dolorosos e limitações decorrentes da enfermidade.

Quais medicamentos são utilizados para tratar estas doenças?

Os medicamentos mais utilizados para tratar a Doença de Crohn e outras DII são a sulfasalazina, a mesalazina e os corticoides. Todos reduzem a inflamação. A sulfasalazina é usada para tratar sintomas leves e moderados de ambas as enfermidades e para tentar impedir a recidiva deles, uma vez que se tenha obtido a remissão (diminuição da intensidade).
 Os corticoides são administrados quando os sintomas da Doença de Crohn são mais severos; sua dose é diminuída lentamente até ser descontinuado quando da melhora dos sintomas.

Outros medicamentos utilizados para tratar a Doença de Crohn são a azatioprina e a 6-mercaptopurina – drogas imunossupressoras que tentam reduzir os sintomas, fechar as fístulas e diminuir ou eliminar a dependência de algumas pessoas aos corticoides.
 O metronidazol tem sido útil para o tratamento das complicações perianais da Doença de Crohn e os antibióticos também são usados para combater infecções locais.

Os anti-TNFs, medicamentos biológicos, vem sendo utilizados com resultados excelentes em vários pacientes com indicação específica – desde 1999 para Doença de Crohn, e desde 2005 para colite ulcerativa.

Estas medicações têm efeitos colaterais?

Todas as medicações para o tratamento da Doença de Crohn podem ter efeitos colaterais. A sulfasalazina pode causar náuseas, dor de cabeça, vômitos, anemia, outras alterações do sangue e erupções da pele. O médico deve observar o paciente e vigiar quanto a aparição destes efeitos, para então poder decidir pela continuidade ou não do medicamento.

O corticoide pode causar acne, aumento do apetite, inchaço no rosto, aumento de peso e aumento de pelos no corpo dos pacientes de Doença de Crohn. Mais raramente podem ocorrer problemas ósseos, diabetes, hipertensão, problemas digestivos e mudanças de personalidade.
Estes efeitos secundários geralmente diminuem com a redução da dose e desaparecem quando da descontinuação do medicamento.
 Os efeitos colaterais causados pelo uso prolongado de azatioprina, 6-mercaptopurina e metronidazol são menos conhecidos já que não tem sido usadas por muito tempo em pacientes com estas enfermidades.
A azatioprina e a 6-mercaptopurina podem causar náuseas, redução dos glóbulos brancos do sangue e inflamação do pâncreas (pancreatite).
O metronidazol pode causar náuseas, dor de cabeça, desconforto abdominal, escurecimento da urina, gosto metálico, formigamento das mãos e pés.

A cirurgia pode curar a Doença de Crohn ou a colite ulcerativa?

A cirurgia pode ser necessária na Doença de Crohn quando o tratamento clínico é ineficiente no controle dos sintomas ou quando há uma complicação tal como obstrução intestinal.
A cirurgia pode permitir ao paciente permanecer livre de sintomas, mas não objetiva a cura da Doença de Crohn, já que a recidiva é muito frequente no próprio local ou na proximidades de onde ela foi realizada (anastomose).

Na Colite ulcerativa a eliminação cirúrgica de todo o cólon e do reto (proctocolectomia total) proporciona uma cura definitiva. Na maioria dos casos deve-se realizar uma abertura artificial do íleo na parede abdominal (ileostomia), pela qual o excremento sai e é coletado em uma bolsa aderida à pele.

Se a cirurgia for necessária para tratar a colite ulcerativa, a ilestomia é inevitável?

Existem cirurgias recentes nas quais se cria uma bolsa de íleo no interior do abdome para coletar as fezes. Com essas cirurgias torna-se desnecessário o uso da bolsa.
Uma delas consiste em uma ileostomia “continente”, na qual se constrói uma bolsa de íleo dentro da parede do abdome, devendo ser esvaziada regularmente através de um pequeno tubo que ultrapassa a “válvula”.

Outro tipo de cirurgia é a anastomose íleo-anal, na qual se conserva o reto (elimina-se apenas a capa de mucosa interna), que passa a ficar unido a uma bolsa feita com íleo. Isso permite ao paciente evacuar normalmente, preservando o uso dos músculos retais.

Uma dieta específica é importante para controlar a Doença de Crohn e a colite ulcerativa?

A boa nutrição é essencial em qualquer enfermidade crônica, mas especialmente no caso da Doença de Crohn e de outras DII em que se observam redução do apetite, diarreia e às vezes má absorção de alimentos, fatores que prejudicam a assimilação de fluídos, nutrientes, vitaminas e minerais pelo corpo.
 Apesar de a alimentação não ser a causa dessas doenças, é fato que as comidas suaves e brandas molestam menos que a as comidas condimentadas ou ricas em fibras, quando a Doença de Crohn está na fase ativa.
Com exceção da restrição ao leite em pacientes com intolerância a lactose, muitos gastroenterologistas tendem a ser liberais nas dietas de pacientes portadores dessas doenças.

As pessoas com DII estão mais sujeitas a desenvolverem câncer?

Em primeiro lugar deve-se saber que o câncer do cólon e reto é frequente na população geral. Estudos mostram que pessoas que tenham tido Colite ulcerativa que atinja todo o cólon e por períodos não menores que 8 a 10 anos correm um risco significativo de desenvolver câncer.
As pessoas com Proctite Ulcerativa não parecem ter risco aumentado de câncer.

Apesar de estudos em pessoas com Doença de Crohn do cólon não serem numerosos ou completos, muitos pesquisadores acreditam que o risco de câncer nesses pacientes é menor que na Colite ulcerativa, embora maior que na população em geral.
 Em ambos os casos (colite ulcerativa e Doença de Crohn), o risco de câncer parece estar associado a doença de longa duração que acometa o cólon em sua totalidade.
O câncer do intestino delgado é extremamente raro na população em geral.
Apesar do risco de seu aparecimento nos casos de longa duração da Doença de Crohn, o número de casos é muito pequeno.

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